Fevereiro está sendo arrasador para a música alternativa.
Dia 2, morreu o guitarrista e fundador do MC5, Wayne Kramer. Cinco dias depois, foi a vez do figuraça Mojo Nixon, o engraçado neorockabilly e autor de clássicos da esculhambação como “Debbie Gibson está grávida de meu bebê de duas cabeças” e “Don Henley (dos Eagles) deve morrer”. Dois dias depois de Mojo, outra notícia triste: Damo Suzuki, o inimitável cantor japonês que ficou famoso por seu trabalho com o grupo alemão Can, morreu de câncer, aos 74 anos.
Já escrevi bastante sobre o chamado “krautrock”, a notável geração de bandas alemãs da virada dos anos 60 para os 70 que revolucionou o rock e influenciou de Bowie a Iggy Pop, passando por The Fall, Sex Pistols e grande parte da cena alternativa dos últimos 40 anos.
Leia aqui um texto sobre um documentário da BBC que conta a história do estilo. E aqui, uma coluna que fiz sobre o maravilhoso guia do krautrock escrito por Julian Cope, líder do grupo Teardrop Explodes.
O nome de Damo Suzuki será eternamente ligado ao Can, mas poucos lembram que ele só gravou quatro discos com a banda: “Soundtracks” (1970), “Tago Mago” (1971), “Ege Bamyasi” (1972) e “Future Days” (1973). Os três últimos sao álbuns clássicos e referência para muitas bandas.
A figura de Damo à frente do Can chamava muita atenção: devia ser estranho ver aquele hippie japonês, de cabelo até a cintura e invariavelmente sem camisa, à frente daquela turma de branquelos alemães.
Veja o Can em 1971 tocando “Paperhouse”, faixa que abre “Tago Mago”.
A história da entrada de Damo no Can é curiosa: em 1970, a banda estava sem cantor, depois da saída de Malcolm Mooney. Antes de um show em Munique, na Alemanha, o baterista Jaki Liebezeit e o baixista Holger Czukay viram Damo cantando na rua. Impressionados com o estilo do japonês, o convidaram para cantar no show daquela noite. Damo só saiu em 1973, quando virou Testemunha de Jeová e largou a música.
Felizmente, Damo Suzuki voltou à música na década de 1980. Passou a fazer shows de puro improviso, sempre acompanhado de músicos locais dos países que visitava. Em puro espírito colaborativo e livre, essas apresentações eram chamadas de Damo Suzuki Network (Rede de Damo Suzuki). Com o DSN, gravou uns 20 discos e esteve algumas vezes no Brasil.
Mais que um artista influente, Damo Suzuki representava um espírito de liberdade criativa e anticomercialismo que o tornou ídolo de muitos. Mark E. Smith, líder do The Fall, compôs uma das mais comoventes homenagens de um iconoclasta para outro…
Um ótimo fim de semana a todas e todos.
7 comentários em "Nós somos Damo Suzuki"
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A partida do Damo Suzuki é daquelas que machucam. “Tago Mago” é um dos discos mais influentes da história. Que perda imensa.
Baita texto, André! Damo Suzuki viveu o “faça você mesmo” do início ao fim.
Esse foi.
Só uma pequena correção: o ” Soundtracks” já tem musicas com o Damo Suzuki.. É meio que “meio a meio” com o Malcolm Mooney.
Tem razão, vou mudar no texto, obrigado.
Fala Barça achei um o livro neste link https://monoskop.org/images/2/21/Cope_Julian_Krautrocksampler.pdf
Opa! Bela dica pra quem quiser baixar!