Mostra celebra os 90 anos de Milos Forman
O cineclube Film Forum, em Nova York, começa hoje, 9 de setembro, uma mostra completa celebrando os 90 anos do cineasta tcheco Milos Forman (1932-2018).
Além de todos os longas-metragens e alguns curtas do diretor, a mostra terá debates e palestras de críticos, colegas e da viúva de Milos, Martina Forman. Um dos destaques será a conversa com o roteirista Michael Weller, que escreveu “Hair” e “Ragtime” para o cineasta e vai falar sobre o pouco conhecido “Taking Off” (1971), primeiro filme de Forman nos Estados Unidos.
Se eu estivesse em Nova York, não perderia de jeito nenhum a conversa com Larry Karaszewski, roteirista do sensacional “O Povo Contra Larry Flynt”(1996).
Veja aqui a programação de filmes e debates.
Forman nunca fez um filme que não merecesse ser visto. Na minha opinião, o único filme “dispensável” entre os 12 longas que ele dirigiu entre 1964 e 2008 foi justamente o último, “Goya’s Ghosts”, e pelo menos sete são extraordinários: “Amores de Uma Loura” (1965), “Baile dos Bombeiros” (1967), “Taking Off” (1971), “Um Estranho no Ninho” (1975), “Amadeus” (1984), “O Povo Contra Larry Flynt” (1996) e “O Mundo de Andy” (1999). Forman conseguiu manter-se um diretor relevante por quatro décadas.
Em 2018, quando Forman morreu, aos 86 anos, escrevi na “Folha”:
Junto ao polonês Roman Polanski, Forman foi o diretor do leste europeu que mais fez sucesso comercial e de crítica após mudar para os Estados Unidos, no fim dos anos 1960. Numa carreira de 55 anos como cineasta, dirigiu filmes como “Um Estranho no Ninho” (1975), “Amadeus” (1984), “O Povo Contra Larry Flint” (1996) e “O Mundo de Andy” (1999). Pelos dois primeiros, ganhou o Oscar de melhor diretor.
Na Tchecoslováquia, inspirado pela liberdade criativa da “Nouvelle Vague” francesa, Forman havia dirigido filmes baratos e ousados como “Os Amores de Uma Loura” (1964) e “O Baile dos Bombeiros” (1967), que lidavam com temas como a burocracia estatal e traziam um humor negro que ironizava, sempre de forma velada, para escapar dos censores, a falta de liberdade no então país comunista.
Se existe um tema que percorre toda a carreira de Milos Forman, é o da luta contra as opressões. E o cineasta tinha motivos para se rebelar: os pais haviam morrido em campos de concentração nazistas, e a invasão das tropas do Pacto de Varsóvia o expulsara da Tchecoslováquia. Quando Milos tinha pouco mais de 30 anos, descobriu que seu pai, na verdade, era um arquiteto com quem a mãe havia tido um romance extraconjugal. O arquiteto também havia sido preso em um campo de concentração nazista, mas conseguira escapar.
Nos Estados Unidos, mesmo trabalhando para grandes estúdios hollywoodianos, Forman conseguiu fazer filmes desafiadores. Seu primeiro grande sucesso, “Um Estranho no Ninho”, adaptado de um romance de Ken Kesey, figura importante dos movimentos beat e hippie, era, na superfície, uma comédia amarga sobre a vida numa instituição psiquiátrica, mas também pode ser vista como uma analogia poderosa aos Estados Unidos da época da Guerra do Vietnã e à descrença em governos e instituições.
Depois de dois filmes recebidos com frieza, “Hair” (1979) e “Ragtime” (1981), Forman acertou na mosca com “Amadeus” (1984), história do compositor Antonio Salieri e de sua inveja mortal do músico cujo gênio o atormentava: Wolfgang Amadeus Mozart. “Amadeus” ganhou oito Oscar, incluindo melhor filme, diretor e ator (F. Murray Abraham, no papel de Salieri).
Milos Forman tinha um talento especial para achar personagens cujas histórias simbolizavam temas relevantes. Em “O Povo Contra Larry Flint”, pegou um personagem detestável, dono de um império de revistas pornográficas, e fez dele um símbolo da luta pela liberdade de expressão. O filme não transformava Flint em mártir, mas defendia que até um homem inescrupuloso e vil como ele não poderia ser censurado.
Em “O Mundo de Andy”, Milos Forman explorou outro personagem polêmico, o comediante Andy Kaufman, um gênio perturbado que reinventou a comédia ao destruir os limites entre a interpretação e a vida real. Forman se identificou tanto com Andy que batizou um filho, nascido logo após a filmagem, com o nome do comediante. O outro menino, gêmeo, recebeu o nome de James, em homenagem ao ator Jim Carrey.
E este ano, aqui mesmo no blog, escrevi sobre como Forman foi, literalmente, salvo por amigos cineastas (leia aqui).
Um ótimo fim de semana a todas e todos.
4 comentários em "Mostra celebra os 90 anos de Milos Forman"
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Eu adoro o trabalho do Forman… Lembro do Danny DeVitto contando que conheceu o Forman numa festa e ele só perguntava coisas sobre o seriado “Taxi”, estrelado pelo Andy Kaufman.
Amava o Kaufman, tanto que fez um filme sobre ele.
André, você chegou a assistir o documentário Forman vs Forman? Se sim, o que achou?
Cara, não vi ainda, vacilo meu.