fev/2022

Como o cinema salvou – literalmente – a vida de Milos Forman

Por André Barcinski

Como o cinema salvou – literalmente – a vida de Milos Forman

Por André Barcinski

Esses dias fizemos uma “Maratona Milos Forman” aqui em casa. Vimos, na sequência, os cinco primeiros longas que ele lançou: “Pedro, o Negro” (1964), “Amores de Uma Loura” (1965), “O Baile dos Bombeiros” (1967), “Taking Off” (1971) e “Um Estranho no Ninho” (1975). Os três primeiros foram filmados na Tchecoslováquia, país onde Forman nasceu em 1932, e os dois últimos nos Estados Unidos, para onde o cineasta se exilou em 1968, fugindo do regime comunista tcheco.

Todos os filmes têm uma característica comum: tratam de indivíduos às voltas com um mundo hostil e um poder opressor. Mas Forman não apela ao jogo fácil do cinema panfletário. Seus filmes são políticos, mas as convicções dos personagens vêm embaladas não em discursos, mas num humor mordaz e em situações cômicas bizarras e sombrias.

Em “Pedro, o Negro”, temos um rapaz de 16 anos em seu primeiro emprego: o de vigiar os clientes que podem furtar produtos em um armazém. O absurdo de ter vizinhos vigiando vizinhos – uma das marcas de qualquer sistema totalitário – é tratado com ironia.

Em “O Baile dos Bombeiros”, uma festa no quartel-general dos bombeiros de uma pequena vila interiorana é um microcosmo do país no fim dos anos 60: uma sociedade fechada e provinciana, marcada por um abismo na relação entre pais e filhos e controlada por uma burocracia ridícula e mofada.

Mesmo depois de ir para os Estados Unidos, Forman continuou lidando, à sua maneira, com os totalitarismos: “Um Estranho no Ninho”, passado num hospício, é uma analogia óbvia para um mundo em que os “livres” estão subjugados por um sistema que os julga incapazes de conviver no mundo “normal” (e vale lembrar que Forman ganhou o Oscar de melhor diretor por este filme disputando com um grupo fraquinho: Federico Fellini, Stanley Kubrick, Sidney Lumet e Robert Altman).

Conhecendo a história de vida de Milos Forman, fica mais fácil entender o que moldou sua arte transgressora e antagonista.

Os pais foram mortos em campos de concentração nazistas: a mãe, Anna, em Auschwitz, em 1943, e o pai, Rudolf, em Mittelbau-Dora, em 1944 (anos depois, Milos descobriu que seu pai biológico era o arquiteto Otto Kohn, o que faz dele meio-irmão do celebrado matemático Joseph J. Kohn, filho de Otto). Milos foi criado por parentes e amigos, e em 1950, dois anos depois da tomada do poder pelos comunistas na Tchecoslováquia, entrou para uma escola de cinema em Praga. Com o sucesso internacional de “Pedro, o Negro”, que venceu um prêmio do importante Festical de Locarno, na Suíça, Milos começou a viajar para festivais no exterior, e isso abriu a cabeça dele para a possibilidade de trabalhar em lugares menos opressores.

O cinema – e amigos cineastas – literalmente salvaram a vida de Milos Forman em pelo menos duas ocasiões.

Em 1967, quando procurava dinheiro para financiar “O Baile dos Bombeiros”, Forman conseguiu um aporte de 65 mil dólares – uma miséria – do produtor italiano Carlo Ponti (famoso por trabalhos com Fellini, De Sica e David Lean) pelos diretos internacionais do filme. Forman juntou essa quantia à verba que havia conseguido do governo tcheco (todos os filmes no país eram financiados e seus direitos pertenciam ao governo) e completou a obra.

Quando viu o filme, Ponti o detestou tanto que exigiu a devolução dos 65 mil dólares. O caso chegou ao Comitê Central do Partido Comunista Tcheco, que ameaçou processar Forman por “prejuízo ao Estado”, acusação que frequentemente resultava em sentenças de dez anos de prisão.

Desesperado, Forman ligou para Ponti e disse que,se o produtor insistisse em ter o dinheiro de volta ele, Forman, seria preso por dez anos. “Fique tranquilo, vou falar com o governo e resolvo a situação”, disse Ponti. Alguns dias depois, Forman recebeu a visita de um burocrata do Partido, que informou, para estarrecimento do cineasta, que Ponti continuava exigindo a devolução do dinheiro.

Forman só não foi preso porque dois colegas cineastas, os franceses François Truffaut e Claude Berri, pagaram os 65 mil dólares dos próprios bolsos para Ponti e compraram os direitos internacionais do filme, que fez imenso sucesso e foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

Quando os censores do governo tcheco viram “O Baile dos Bombeiros”, odiaram tanto que baniram a exibição do filme no país. Forman estava num festival de cinema na França, em 1968, quando soube do banimento e decidiu que não voltaria mais para a Tchecoslováquia. Mudou-se para os Estados Unidos em busca de emprego.

Mas as perseguições continuaram. Quando o visto de entrada de Forman nos EUA estava prestes a expirar, ele foi avisado pelo governo norte-americano que seria deportado para a Tchecoslováquia por ser filiado ao Partido Comunista tcheco, o que não era verdade. Forman só conseguiu permanecer nos Estados Unidos porque vários amigos e admiradores importantes, como o cineasta Sidney Lumet, o roteirista Paddy Chayesfky e o ator e roteirista Buck Henry, escreveram uma carta ao governo norte-americano dizendo que uma deportação significaria, na prática, a prisão perpétua para Forman.

Essa e outras histórias sensacionais são relatadas pelo próprio Forman numa entrevista de 2007, legendada em inglês, que está no Youtube. É um deleite.

Milos Forman morreu em 2018, aos 86 anos.

Um ótimo fim-de-semana a todos.

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