Quem acompanha o blog sabe do meu apreço por Kurt Vile. Nas últimas duas décadas, esse norte-americano de 43 anos tem lançado alguns dos discos mais bonitos e relaxantes, ideais para ouvir na estrada ou deitado numa rede.
Em 2022, escrevi sobre o álbum “Watch My Moves” (leia aqui), um dos meus prediletos daquele ano.
Agora, Vile lança mais um disco, que ele chama de “EP”, mas que, aos 52 minutos de duração divididos em nove faixas, é na verdade um LP, seu décimo. Chama “Back to Moon Beach” e é mais um daqueles discos que você simplesmente não consegue parar de ouvir.
Vile sempre citou Neil Young, Tom Petty e Randy Newman como inspirações, e é nítido como esses gênios o influenciaram. Mas acho que ele tem um estilo próprio, uma peculiar mistura de folk rock com uma pegada indie-irônica que lembra Pavement e Ween.
As músicas de Vile são longas, raramente têm refrão, e não terminam, mas vão morrendo aos poucos, lentamente, depois de cinco, seis ou até onze minutos de riffs repetitivos e vocais sussurrados, como se você estivesse ao lado dele, ouvindo-o na varanda de uma casa enquanto comtempla uma floresta (no caso de Vile, numa área rural da Pensilvânia, onde mora).
Parece tedioso, mas é exatamente o contrário. Discos de Kurt Vile precisam ser ouvidos inteiros e com tempo de sobra, sem pressa. Não é raro tirarmos tardes para só ouvi-los, na sequência.
“Back to Moon Beach” foi gravado entre 2019 e 2023 e foi o último trabalho de Vile com o parceiro dos últimos dez anos, o instrumentista e produtor Rob Laakso, morto no início de 2023, de câncer. Laasko fez parte dos Violators, banda que acompanha Vile há um tempão. O disco tem seis músicas inéditas, covers de “Must Be Santa” (Bob Dylan), e “Passenger Side” (Wilco), e uma releitura de “Cool Water”, esta do álbum de 2022.
Veja o clipe de “Another Good Year for the Roses”:
Vile tem um talento especial para escrever letras que parecem longas divagações, como se ele estivesse improvisando monólogos sobre uma base musical. Isso resulta em músicas pouco comerciais, sem refrão ou repetições de versos, mas que surpreendem pela inventividade e pelos temas incomuns, como na eulogia a um de seus ídolos: “Tom Petty’s Gone (But Tell Him I Asked for Him)”: “Tom Petty se foi / e como vou me perdoar / por nunca ter falado com ele?”.
Parece fácil escrever assim. Aliás, as músicas de Kurt Vile soam, muitas vezes, inacabadas, como se fossem demos ainda a serem buriladas. Acho que é preciso muito talento e confiança para soar tão relaxado assim.
Uma ótima semana a todas e todos.
5 comentários em "Kurt Vile faz parecer fácil"
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“Like a wounded bird trying to fly,
Well my daughter, she wrote that line
So copyright Awilda Wile”
O cara é foda mesmo… usando a mesma base de “was all talk”, ele faz uma música ainda melhor!
E faz ótimas covers tbm. Ouviu Run, Run, Run?
Faz poucos meses fui no show dele com minha mãe que fez um curso intensivo dele em alguns dias em casa. Não tem jeito o som dele é acessível a todos. Leve e despretensioso. Deve ser por isto que mesmo sendo em lugar fechado e à noite tivessem tantos pais com crianças lá. Grande cara.
Quem sabe a próxima atração que o Sr. traz pro Brasil, hein…
Vamos ver, só veio uma vez, acho que em 2010.