abr/2022

Kurt Vile: a perfeição do lo-fi

Por André Barcinski

Kurt Vile: a perfeição do lo-fi

Por André Barcinski

Alguns artistas buscam a renovação e novas influências, enquanto outros se contentam em aperfeiçoar uma fórmula que dá certo. Kurt Vile está no segundo grupo.

Esse norte-americano de 42 anos tem uma carreira de quase duas décadas e uma discografia imensa: são nove LPs e mais de 15 EPs solo, além de dois LPs com a superbanda que ajudou a criar com o parceiro Adam Granduciel, o The War on Drugs.

Vile acaba de lançar seu nono LP, “Watch My Moves”. Em poucos dias, já entrou para minha lista de discos favoritos dele, junto a “Walking on a Pretty Daze” (2013), “B’Lieve I’m Going Down” (2015) e ao disco em parceria com Courtney Barett, “Lotta Sea Lice” (2017).

Em 2011, escrevi na “Folha” sobre o LP “Smoke Ring for My Halo” e descrevi assim o estilo sonoro de Vile:

Vile dá a sua versão para o rock clássico norte-americano de Dylan e Tom Petty, mas com um viés mais psicodélico e viajandão. Com vocais praticamente soterrados em ecos e reverberações, ele criou um tipo de pop fantasmagórico, sua visão do lo-fi, um movimento que, desde os anos 80, busca gravações sem o “brilho” da música pop moderna.

Pode-se ver o lo-fi como uma reação à assepsia da música comercial ou simplesmente como uma forma mais relaxada e instintiva de gravar. Não é à toa que, na capa do disco, Vile apareça sentado num sofá, sozinho, tocando um violão. O clima é esse.

Kurt Vile consegue soar revisionista sem ser datado. O disco tem um tom intimista de “gravado na garagem de casa” e, ao mesmo tempo, é ambicioso, com arranjos elaborados e um elevado nível de musicalidade. Um feito. As músicas de Vile são preguiçosas, relaxadas, ideais para ouvir num domingo de manhã.

Aqui e ali, surgem no disco de Kurt Vile ecos das guitarras de Neil Young, dos vocais falados de Lou Reed e do country-rock de Gram Parsons, mas sempre com a forte marca do artista. Vile não é um simples imitador, mas um artista singular e talentoso, que usa suas influências para criar uma música pessoal.

Nos 11 anos que separam esse texto do lançamento de “Watch My Moves”, quase nada mudou no universo de Kurt Vile. O novo disco foi, literalmente, gravado em casa, mais precisamente no estúdio caseiro que Vile construiu durante a pandemia em sua casa na Filadélfia. O som continua naquela pegada lenta e viajante, ideal para ouvir na estrada ou numa rede. Em time que está ganhando…

Um ótimo feriadão a todas e todos.

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