Kurt Vile: a perfeição do lo-fi
Alguns artistas buscam a renovação e novas influências, enquanto outros se contentam em aperfeiçoar uma fórmula que dá certo. Kurt Vile está no segundo grupo.
Esse norte-americano de 42 anos tem uma carreira de quase duas décadas e uma discografia imensa: são nove LPs e mais de 15 EPs solo, além de dois LPs com a superbanda que ajudou a criar com o parceiro Adam Granduciel, o The War on Drugs.
Vile acaba de lançar seu nono LP, “Watch My Moves”. Em poucos dias, já entrou para minha lista de discos favoritos dele, junto a “Walking on a Pretty Daze” (2013), “B’Lieve I’m Going Down” (2015) e ao disco em parceria com Courtney Barett, “Lotta Sea Lice” (2017).
Em 2011, escrevi na “Folha” sobre o LP “Smoke Ring for My Halo” e descrevi assim o estilo sonoro de Vile:
Vile dá a sua versão para o rock clássico norte-americano de Dylan e Tom Petty, mas com um viés mais psicodélico e viajandão. Com vocais praticamente soterrados em ecos e reverberações, ele criou um tipo de pop fantasmagórico, sua visão do lo-fi, um movimento que, desde os anos 80, busca gravações sem o “brilho” da música pop moderna.
Pode-se ver o lo-fi como uma reação à assepsia da música comercial ou simplesmente como uma forma mais relaxada e instintiva de gravar. Não é à toa que, na capa do disco, Vile apareça sentado num sofá, sozinho, tocando um violão. O clima é esse.
Kurt Vile consegue soar revisionista sem ser datado. O disco tem um tom intimista de “gravado na garagem de casa” e, ao mesmo tempo, é ambicioso, com arranjos elaborados e um elevado nível de musicalidade. Um feito. As músicas de Vile são preguiçosas, relaxadas, ideais para ouvir num domingo de manhã.
Aqui e ali, surgem no disco de Kurt Vile ecos das guitarras de Neil Young, dos vocais falados de Lou Reed e do country-rock de Gram Parsons, mas sempre com a forte marca do artista. Vile não é um simples imitador, mas um artista singular e talentoso, que usa suas influências para criar uma música pessoal.
Nos 11 anos que separam esse texto do lançamento de “Watch My Moves”, quase nada mudou no universo de Kurt Vile. O novo disco foi, literalmente, gravado em casa, mais precisamente no estúdio caseiro que Vile construiu durante a pandemia em sua casa na Filadélfia. O som continua naquela pegada lenta e viajante, ideal para ouvir na estrada ou numa rede. Em time que está ganhando…
Um ótimo feriadão a todas e todos.
11 comentários em "Kurt Vile: a perfeição do lo-fi"
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Se o cara está envolvido com o The War On Drugs, não tem como não ser bom… Vou ouvir!
mais um disco espetacular do Kurt Vile, tava por fora do lançamento, muito obrigado pela dica, Barça!
Espero que goste!
Comprei os 2 livros do Jim Thompson (não conhecia) na Estante Virtual. Muito Obrigado. Um deles 10 reais e o outro 28 reais. Não paga um X burger aqui no RS! Abraço.
Que maravilha, tenho certeza que vai gostar. São os dois que indiquei.
pô, Barça, obrigado por esse texto. você é meu jornalista cultural favorito e o Kurt é, atualmente, meu músico favorito. abração
Muito bom saber que é fã do Kurt, valeu!
Xará, não conhecia. Vou ouvir. Valeu.
Ótimo feriado a todas, todos e todies (rsrsrsrs)
André, dois OTs, se é que me permite:
1) Parabéns pela conferência com o Michael Sullivan ontem, que legal vê-lo feliz e ainda empolgado com a música como um garoto, mesmo com tanto sucesso e estrada na vida, muito obrigado por essa oportunidade.
2) Mais um grande artista derrotado pela afasia, que triste: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/04/angeli-se-despede-da-carreira-de-cartunista-e-encerra-uma-era-dos-quadrinhos-no-brasil.shtml
Imagina, eu que agradeço pela presença!
Muito obrigado por essa dica maravilhosa. Todas as músicas são ótimas, mas a faixa 12 – Say the Word me deixou “vidrado”.