set/2022

Defendendo Satanás por uma boa causa

Por André Barcinski

Defendendo Satanás por uma boa causa

Por André Barcinski

O Youtube Filmes exibe, pela bagatela de R$ 4, um documentário muito interessante: “Salve Satanás?” (“Hail Satan?”), de Penny Lane.

Escrevi recentemente sobre Penny Lane (é o nome verdadeiro dela, acredite) e seu revelador filme sobre o saxofonista Kenny G (leia aqui). Além desse, gostei demais de outros documentários dela, como “Our Nixon”, perfil de Richard Nixon composto de filmes Super-8 confiscados pelo FBI durante as investigações do escândalo de Watergate, e “Nuts!”, a bizarríssima história de um médico que, em 1917, tentou curar a impotência fazendo transplantes de testículos de bode em humanos.

Lane tem um gosto pelo inusitado e repete a dose em “Salve Satanás”, documentário que conta a história do Templo Satânico, um dos grupos religiosos mais combativos dos Estados Unidos. Formado há menos de uma década, o Templo Satânico não advoga, como o nome faz crer, a adoração do diabo, mas usa a figura dele para defender a sociedade laica e protestar contra a presença da religião na política e sociedade norte-americanas, especialmente nas escolas públicas.

Em 2013, entrevistei, para a “Folha”, o líder do Templo Satânico, Lucian Greaves:

Democracia é isso. Depois que o condado de Orange, na Flórida, nos EUA, permitiu que um grupo cristão distribuísse Bíblias em escolas públicas da região, um grupo chamado O Templo Satânico exigiu o mesmo direito e planeja distribuir nas escolas um livrinho infantil intitulado “O Grande Livro de Atividades das Crianças Satânicas”.

O volume traz jogos, desenhos para colorir e brincadeiras, como um “ligue os pontos” que forma o desenho de um pentagrama de cabeça para baixo e um labirinto ligando um simpático menininho, Damian, e seu cãozinho, Cérbero, a um presente: o “Necronomicon”, o fictício “Livro dos Mortos” criado pelo escritor norte-americano H.P. Lovecraft (1890-1937).

A notícia irritou grupos católicos, que inundaram o governo local de mensagens de protestos. Um dos diretores do sistema de ensino disse, porém, não ter recebido ainda um pedido formal de distribuição do material pelo Templo Satânico.

Já o porta-voz do Templo, Lucien Greaves, disse à Folha que o material está sendo revisado, e que a próxima audiência pública sobre o assunto será em janeiro de 2015.

“O condado de Orange não tem a liberdade de rejeitar nossa literatura, já que permitiram a distribuição de material cristão.”

Greaves disse que espera que os alunos gostem do livro. “Supomos que as crianças estejam muito curiosas para ver o nosso material. Devem estar bem entediadas com o material cristão, e provavelmente não são familiarizadas com literatura satanista”, afirma.

“Os pais certamente não vão gostar, mas deveriam direcionar sua revolta à direção das escolas, que permitiu a entrada de materiais religiosos em escolas públicas. Se não fosse por essas pessoas estúpidas e sem visão, nada disso estaria acontecendo.”

Jogada de marketing ou não, a estratégia do Templo Satânico parece dar certo. Dias atrás, em uma reunião do conselho diretor de escolas do condado de Orange, um diretor sugeriu que todo o material religioso, de qualquer tipo, fosse banido do sistema público de ensino.

“Nossa missão é lembrar ao mundo que liberdade religiosa é a liberdade de praticar qualquer religião, e que o governo, se quiser respeitar tal liberdade, deve se manter neutro, sem mostrar preferência por nenhuma denominação, seita ou ponto de vista”, disse Greaves.

“Salve Satanás?” conta toda a história do Templo Satânico e de sua luta por uma sociedade laica. É um filme com personagens interessantíssimos e que se dedicam a uma causa em que acreditam. Mas a diretora, Penny Lane, não cai na tentação de fazer um filme panfletário, e o ponto de interrogação no título deixa a dúvida: esse pessoal acredita mesmo no diabo?

Alugue o filme aqui.

Um ótimo fim de semana a todas e todos.

5 comentários em "Defendendo Satanás por uma boa causa"

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    Rodrigo Barreto

    Meu caro, curiosa e interessante discussão! Aqui no Brasil tivemos até mesmo um youtuber que defendeu que pudessem existir partidos de extrema-direita, racistas e nazistas (discordo frontalmente em vários aspectos). A questão da liberdade de culto é das mais sensíveis. Do meu ponto de vista a atitude e abordagem do grupo americano é totalmente aceitável e até elogiável. Por outro lado, cada um que defender seu direito a crer no que quiser ou agir como quiser deve estar preparado para enfrentar consequências de suas escolhas. Liberdade sempre exige responsabilidade e resiliência. E não cabe ao Estado definir o que pode ou não ser crença.

    Forte abraço!

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      Andre Barcinski

      Acho que são coisas diferentes. Acreditar em Satã é um direito, ter atitudes racistas é crime. A primeira é escolha individual e não prejudica terceiros, é minha opinião.

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