jul/2022

Kenny G é amor ou ódio

Por André Barcinski

Kenny G é amor ou ódio

Por André Barcinski

Não é preciso gostar da obra de um músico ou cineasta para se interessar em ver um documentário sobre ele ou ela. Já vi filmes muito bons sobre a banda Rush, a cantora Alanis Morrisette e a atriz Judy Garland, embora não seja particularmente admirador da obra de nenhum deles.

Vou adicionar mais um filme à lista: “Listening to Kenny G”, documentário dirigido pela norte-americana Penny Lane e disponível na HBO Max. Mesmo que você, a exemplo de muitos, não suporte a cafonice do sax de Kenny, com seus tons de comercial de remédio para disfunção erétil, é impossível não se interessar em tentar entender por que esse cara é o instrumentista mais popular de todos os tempos.

Houve uma época, nos anos 1990, em que ele era um dos músicos mais famosos do planeta. Puristas cometiam haraquiri toda vez que o nome dele era mencionado junto com a palavra “jazz”. Mas não adiantava: ele aparecia, com seus cabelos encaracolados e cara de bom rapaz, em comerciais de TV, soprando seu sax em finais de campeonatos esportivos e entregas de prêmios. Assim, Kenny G vendeu 75 milhões de discos.

O filme não tem a pretensão de reavaliar a obra de Kenny G e tentar elevá-lo ao status de um artista mais sofisticado ou inovador do que ele realmente. O doc simplesmente conta a história de Kenneth Bruce Gorelick, mostra seu dia a dia e suas opiniões sobre a música, a vida, e a rejeição da crítica. O resultado é um perfil carinhoso e, no fim, emocionante.

Há passagens muito reveladoras, como a que mostra o chefão da gravadora Arista, Clive Davis (um gênio do showbiz, descobridor de Whitney Houston e Janis Joplin, entre outros) escrevendo uma carta às rádios implorando para que elas tocassem a faixa instrumental “Songbird”, de Kenny G (“Eu já dei muitos sucessos para vocês, agora está na hora de vocês retribuírem”).

Outro trecho impressionante é o que mostra como a canção “Going Home” foi adotada na China como a trilha sonora não-oficial do fim de expediente, tocada em milhões de lojas e escolas para avisar às pessoas que estava na hora de ir para casa. “Da primeira vez que me apresentei na China, fiz a burrice de tocar essa música no meio do show, e quase todo mundo foi embora”, conta Kenny G.

É muito engraçado ver a contraposição de cenas de críticos, comediantes e apresentadores de “talk show” detonando o músico (com destaque para uma cena antológica de “South Park”), enquanto milhões de pessoas compravam seus álbuns e lotavam seus shows. Com Kenny G, era amor ou ódio.

A diretora, Penny Lane (nome verdadeiro, acredite) é uma das boas revelações da cena de documentários dos últimos anos, sempre fazendo filmes instigantes sobre temas esquisitos. Dela, já vi “Our Nixon”, perfil de Richard Nixon composto, em sua maior parte, de filmes Super-8 confiscados pelo FBI durante as investigações do escândalo de Watergate; “Hail Satan?”, sobre a organização Templo Satânico, e “Nuts!”, história de um médico que, em 1917, tentou curar a impotência fazendo transplantes de testículos de bode em humanos. É ver para crer.

Um ótimo dia a todas e todos.  

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