Não é preciso gostar da obra de um músico ou cineasta para se interessar em ver um documentário sobre ele ou ela. Já vi filmes muito bons sobre a banda Rush, a cantora Alanis Morrisette e a atriz Judy Garland, embora não seja particularmente admirador da obra de nenhum deles.
Vou adicionar mais um filme à lista: “Listening to Kenny G”, documentário dirigido pela norte-americana Penny Lane e disponível na HBO Max. Mesmo que você, a exemplo de muitos, não suporte a cafonice do sax de Kenny, com seus tons de comercial de remédio para disfunção erétil, é impossível não se interessar em tentar entender por que esse cara é o instrumentista mais popular de todos os tempos.
Houve uma época, nos anos 1990, em que ele era um dos músicos mais famosos do planeta. Puristas cometiam haraquiri toda vez que o nome dele era mencionado junto com a palavra “jazz”. Mas não adiantava: ele aparecia, com seus cabelos encaracolados e cara de bom rapaz, em comerciais de TV, soprando seu sax em finais de campeonatos esportivos e entregas de prêmios. Assim, Kenny G vendeu 75 milhões de discos.
O filme não tem a pretensão de reavaliar a obra de Kenny G e tentar elevá-lo ao status de um artista mais sofisticado ou inovador do que ele realmente. O doc simplesmente conta a história de Kenneth Bruce Gorelick, mostra seu dia a dia e suas opiniões sobre a música, a vida, e a rejeição da crítica. O resultado é um perfil carinhoso e, no fim, emocionante.
Há passagens muito reveladoras, como a que mostra o chefão da gravadora Arista, Clive Davis (um gênio do showbiz, descobridor de Whitney Houston e Janis Joplin, entre outros) escrevendo uma carta às rádios implorando para que elas tocassem a faixa instrumental “Songbird”, de Kenny G (“Eu já dei muitos sucessos para vocês, agora está na hora de vocês retribuírem”).
Outro trecho impressionante é o que mostra como a canção “Going Home” foi adotada na China como a trilha sonora não-oficial do fim de expediente, tocada em milhões de lojas e escolas para avisar às pessoas que estava na hora de ir para casa. “Da primeira vez que me apresentei na China, fiz a burrice de tocar essa música no meio do show, e quase todo mundo foi embora”, conta Kenny G.
É muito engraçado ver a contraposição de cenas de críticos, comediantes e apresentadores de “talk show” detonando o músico (com destaque para uma cena antológica de “South Park”), enquanto milhões de pessoas compravam seus álbuns e lotavam seus shows. Com Kenny G, era amor ou ódio.
A diretora, Penny Lane (nome verdadeiro, acredite) é uma das boas revelações da cena de documentários dos últimos anos, sempre fazendo filmes instigantes sobre temas esquisitos. Dela, já vi “Our Nixon”, perfil de Richard Nixon composto, em sua maior parte, de filmes Super-8 confiscados pelo FBI durante as investigações do escândalo de Watergate; “Hail Satan?”, sobre a organização Templo Satânico, e “Nuts!”, história de um médico que, em 1917, tentou curar a impotência fazendo transplantes de testículos de bode em humanos. É ver para crer.
Um ótimo dia a todas e todos.
30 comentários em "Kenny G é amor ou ódio"
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Quero ver esses outros docs dessa diretora, os temas são bem interessantes.
Sim, ela escolhe temas maravilhosos.
“tons de comercial de remédio para disfunção erétil”
“Puristas cometiam haraquiri toda vez que o nome dele era mencionado junto com a palavra “jazz”
Genial Barça!
Valeu!
Tem uma cena do filme que mostra um trecho de um videoclipe com o Kenny G dançando break dance, me dobrei no sofá de tanto rir.
É o clipe dele, bom demais.
Seguindo a mesma linha de “não gosto do artista, mas amei o documentário”, você já viu “The History of Anvil”? Não lembro de ver um filme que me desse tanta vontade de rir e chorar ao mesmo tempo
Acho esse filme maravilhoso, mas nunca ouvi um disco inteiro do Anvil.
belo documentário mesmo. É uma ótima sacada começar mostrando todas as críticas e tirações de sarro pra depois começar a contar a história… a parte do pat metheny desancando ele é muito boa também.
E o “South Park”?
Sensacional, André. Verei, com certeza, esse documentário. Graças às suas indicações, assisti a ótimos filmes sobre artistas e assuntos que, à primeira vista, não despertariam meu interesse. Muito obrigado por isso.
Off topic: já ouviu o novo álbum do Wilco, “Cruel Country”? Em caso afirmativo, vai rolar um texto sobre ele? Admiro demais a banda, que conheci por meio dos seus textos.
Cara, ouvi, mas não me empolguei. Merece mais tentativas?
Kenny G e o Coldplay são ótimos remédios contra prisão de ventre e insônia. Tiro e queda…
André, me senti exatamente como vc (ler ou ver histórias interessantes de artistas que eu não gosto tanto e/ou desconheço) quando li a autobiografia do Phil Collins e a série da Netflix sobre o Luís Miguel, você chegou a ver/ler esses que eu citei?
Vi e me diverti muito com o Luis Miguel. Agora, que boa dica esse livro do Collins, vou atrás.
Andre, já viu essa matéria do VOX:
https://www.youtube.com/watch?v=TBDWomgRgWU
Muito bacana.
Que legal isso, Philippe, é exatamente o tema do filme. Eles até entrevistam um especialista em “rádio de smooth jazz”.
Barça,
Acho fascinante a anatomia de um sucesso comercial. Há uma construção caótica, instável que apesar de modelos objetivamente aferíveis, é impossível prever o sucesso ou insucesso de um projeto musical. Por isso me atraem as históricas de grandes figuras pop. Com certeza vou ver esse doc.
Abs
Sim, é isso, ele é um astro pop, não tem nada a ver com jazz.
No mundo dos leitores da Downbeat, revista especializada em jazz, so’ e’ permitido menciona-lo como piada.
Os EUA teveram saxofonistas como Lester Young, Charlie Parker, John Coltrane, Sonny Rollins, Stan Getz …lista vai longe… como é possivel explicar que Kenny G. vendeu incriveis 40 milhoes de discos no pais, incluindo um disco de diamante (12 milhoes de copias vendidas)? A minha hipotese é: o capricho na embalagem do produto somado a uma massa de classe média que se sentia culpada por ignorar o jazz e finalmente achou alguem que poderiam se “identificar”. Até a musica da Alannis soa mais autêntica.
Veja o filme, explica bastante.
Texto divertido e informativo. Penny Lane???_homenagem a música, talvez?
E a mais perfeita definição da música de Kenny G…
Certamente. Mas é o nome verdadeiro dela.
André, a pergunta que não quer calar… aonde eu acho os outros documentários de Penny Lane (pais beatlemaníacos?) ? Cine Torrent mesmo ou estão em algum lugar fácil de achar?
Cara, tem uns 3 no My Family Cinema.
Xará, depois da sugestão do novo clássico “Cidadão Diniz”, nada mais me surpreende em seus textos rsrsrs. Abração
Grande filme!
“cafonice do sax de Kenny, com seus tons de comercial de remédio para disfunção erétil”
Hahahahahahahahahahaha a melhor forma de começar o dia é lendo seus textos.
Mas não é?
É, e não é pouco…