Escrevo com o coração apertado e a decepção de quem torcia muito por esse filme, mas “Um Tira da Pesada 4” é uma dessas bombas que nos faz pensar se Eddie Murphy, um dos maiores comediantes da história do cinema e da TV, perdeu totalmente a capacidade de entreter.
Quem acompanha o blog sabe da adoração que tenho por Murphy. Escrevi recentemente sobre ele e como revolucionou a comédia de cinema nos anos 80 (leia aqui).
Em 2019, Murphy ameaçou uma volta por cima com o ótimo “Dolemite”, em que interpretava o ator de “blaxploitaion” Rudy Ray Moore. Logo depois, fez uma aparição histórica como apresentador do programa “Saturday Night Live”, quando reviveu os personagens clássicos que criou no programa – Mr. Robinson, Buckwheat, Velvet Jones – e obteve não só a maior audiência do “SNL” em 21 anos, mas também um prêmio Emmy, o Oscar da TV norte-americana. Eddie Murphy estava de volta!
Infelizmente, nosso herói depois emendou dois dos maiores abacaxis que vi em muito tempo: a continuação de “Um Príncipe em Nova York”, lançada em 2021, e “Um Tira da Pesada 4”.
Neste, Murphy reprisa seu papel mais famoso, o do detetive Axel Foley, que viaja da cinza e violenta Detroit à brega e milionária Beverly Hills para ajudar a filha, Jane (Taylour Paige), uma advogada que está sendo perseguida por bandidos, e o amigo Billy Rosewood (Judge Reinhold), envolvido no mesmo caso.
A trama nunca interessou muito em “Um Tira da Pesada”, assim como não interessava muito no outro filme que tornou Eddie Murphy um astro nos anos 1980, “48 Horas”. A atração sempre foi Eddie Murphy. Duvido alguém lembrar detalhes da história do primeiro “Um Tira da Pesada”, mas todo mundo lembra os quatro ou cinco momentos antológicos do comediante naquele filme, seja o diálogo com Serge (Bronson Pinchot) na galeria de arte, ou a maneira como Axel consegue entrar num clube privativo ao se apresentar como namorado do bandido. São cenas clássicas das comédias oitentistas.
Pois bem: “Um Tira da Pesada 4” não tem nenhuma cena engraçada. Nada. Nem um lampejozinho do talento cômico de Eddie Murphy. Tudo é soterrado num roteiro burocrático e que abusa de sequências de ação que mais parecem saídas de “Rambo”. Se minha memória não falha, há nada menos de quatro sequências de perseguição de veículos: uma num caminhão de neve, uma num carrinho de golfe, outra num carrinho de estacionamento, e a última num helicóptero. Quatro cenas iguais.
A produção é do veterano Jerry Bruckheimer, um psicopata que não pode ver um prédio ou um estacionamento de carros sem querer explodi-los, o que acontece algumas vezes no filme.
O charme do primeiro “Um Tira da Pesada” era a contraposição da personalidade de Axel Foley, um tira malandro acostumado à barra-pesada de Detroit, com a superficialidade de plástico de Beverly Hills. O quarto filme da série tem um roteiro tão pobre e sem criatividade que há pelo menos três cenas em que dondocas aparecem com seus cachorrinhos, como se cães pequenos fossem símbolo de breguice e ostentação (até podem ser, mas seriam mesmo necessárias três cenas com o mesmo ingrediente cômico?).
O novo filme tenta apelar aos fãs do primeiro, usando – umas 97 vezes – a famosa música-tema e promovendo a volta de personagens adorados pelos fãs, como os policiais John Taggart (John Ashton) e Jeffrey (Paul Reiser). O vilão dessa vez é interpretado por Kevin Bacon, no papel de um corrupto chefe de polícia que anda com relógios de 10 mil dólares.
Mas o pior do filme, a meu ver, é a tentativa de dar algum tipo de relevância à relação entre Axel Foley e a filha. Será que alguém que liga a TV para ver “Um Tira da Pesada 4” está interessado numa trama edificante sobre um pai que quer ser perdoado pela filha de quem se distanciou? Cada vez que aparecia a personagem da filha numa DR com o pai, minha vontade era pular para a frente e procurar alguma cena engraçada, o que não consegui, pois não havia.
“Um Tira da Pesada” se resume, infelizmente, a um monte de perseguições, tiroteios e explosões, entremeadas com uma história xarope de pai e filha que estaria mais bem colocada numa novela da Record. Graça, mesmo, não há.
Um ótimo dia a todos e todas.
15 comentários em "Crítica: “Um Tira da Pesada 4”"
Deixe seu comentário
Faça login para publicar um comentário.
Barça, off Topic: sei de sua imensa admiração pelo mestre Kurosawa, daí faço a pergunta: vc o coloca num degrau acima dos dois outros mestres do cinema japonês, Mizoguchi e Ozu, ou os 3 estão em igualdade de maestria ?
Acho que os três são equivalentes, cada um em sua praia. Kurosawa é o mais “pop” dos três, sem dúvida.
Meu filho de 10 aceitou bem. Eh pra ele mesmo… dói mas eh meio verdade.
Vi por amor a ele(meu filho).
Falando em cachorros pequenos, fico imagino o cancelamento que “Um Peixe Chamado Wanda” sofreria hoje em dia com aquelas tentativas de assassinato em cima da velhinha.
Obrigado por avisar, vou passar longe.
André, na verdade e é duo dizer, Um tira da pesada é um produto dos anos 1980 feito para os anos 1980, que tem pouco a acrescentar ao público do cinema/streaming de hoje em dia, a não ser pelo viés saudosista de parte do público e a preguiça e falta de ousadia (medo?) da indústria cultural…
Já detestei o trailer… nem vou perder tempo. Além de “Dolemite”, achei o Eddie Muprhy arrasador em “Dreamgirls”… ele foi até indicado ao Oscar, não?
Como pode ter se acomodado tanto?
O que esse filme vende é nostalgia e memória afetiva. Quem deseja algo diferente disso e quiser ver UM TIRA…, deve deixar qualquer senso crítico que por acaso possua de lado.
E estranhei o rosto do Eddie Murphy nessa bomba! Ou o pessoal errou a mão na maquiagem ou Murphy foi rejuvenescido digitalmente. O cara está com a cara de um alienígena!!!
Falando em comédia-policial, assistiu “Assassino por Acaso” André?
Não vi. Vale?
Também não vi, mas é do Richard Linkater.
Também assisti essa porcaria. Onde estão as comédias?
Difícil.
Requentar formulas antigas é bem pior do que fazer remakes
Acho os dois ruins, mas concordo que é pior.