jun/2024

Quando Eddie Murphy e “Caça-Fantasmas” reinaram

Por André Barcinski

Quando Eddie Murphy e “Caça-Fantasmas” reinaram

Por André Barcinski

Há exatos 40 anos, ocorreu um fenômeno de bilheteria nos cinemas que nunca mais se repetiu: as comédias dominaram o mundo. Dos dez filmes mais vistos na América do Norte naquele ano, cinco eram comédias, incluindo os dois primeiros colocados: “Um Tira Da Pesada” e “Os Caça-Fantasmas”. O Top 10 de maiores bilheterias tinha ainda as comédias “Loucademia de Polícia” (6º lugar), “Tudo por Uma Esmeralda” (8º) e “Splash – Uma Sereia em Minha Vida” (10º). Na soma das bilheterias em todo o planeta, os dois primeiros filmes só tinham como rival “Indiana Jones e o Templo da Perdição”.

E o que “Um Tira da Pesada” e “Os Caça-Fantasmas” tinham em comum? Ambos nasceram de duas séries de TV que praticamente inauguraram o humor feito para o público jovem: a norte-americana “Saturday Night Live”, lançada em 1975, e a canadense “SCTV”, que estreou em 1976.

Antes do “Saturday Night Live” e do “SCTV”, o humor na televisão e no cinema era feito para pessoas acima dos 30 ou 40 anos. Esses dois programas revelaram uma nova geração de comediantes, a maioria na casa dos 20 a 25 anos, que revolucionou o humor. O “Saturday Night Live” revelou Bill Murray, Chevy Chase, Gilda Radner, John Belushi, Eddie Murphy e Dan Aykroyd, entre muitos outros, enquanto o “SCTV” lançou gente como Rick Moranis, John Candy, Martin Short e Harold Ramis. Essa turma foi responsável por boa parte das comédias de sucesso dos anos 80. Além de “Os Caça-Fantasmas” e “Um Tira da Pesada”, pode colocar na conta sucessos como “48 Horas” e “Os Irmãos Cara de Pau”.

UM TIRA DA PESADA

“Um Tira da Pesada” está fazendo 40 anos. O que pouca gente sabe é que a comédia, uma das mais lucrativas e famosas de todos os tempos, quase não foi feita. Pelo menos da maneira como a conhecemos hoje.

Tente imaginar Sylvester Stallone no papel do detetive Axel Foley. Ou Harrison Ford. Ou Al Pacino. Ou Mickey Rourke. Acreditem: todos foram convidados para o papel, que acabou – felizmente – interpretado por Eddie Murphy.

E a direção do filme? Sabia que Martin Scorsese estava quase fechando para ser o diretor, mas desistiu ao perceber que o roteiro lembrava bastante o de “Meu Nome é Coogan”, filme de 1968 estrelado por Clint Eastwood? Depois da recusa de Scorsese, os produtores chamaram David Cronenberg, que também recusou. O emprego acabou ficando com Martin Brest, um diretor novato de 33 anos que só havia feito um filme profissional antes.

Essa conjunção de felizes acidentes culminou na contratação de Eddie Murphy, um comediante de 23 anos que fazia enorme sucesso na TV no programa humorístico “Saturday Night Live”. O “SNL”, como é conhecido até hoje, estreou em 1975 com um tipo de humor mais agressivo e “desrespeitoso”, sem medo de conflitos e polêmicas. O programa falava, sempre de forma anárquica, de temas como racismo, sexismo e drogas (Em 1984, Eddie Murphy fez um antológico quadro em que se fantasiava de branco, com direito a maquiagem e peruca, para ver como seria sua vida se mudasse de cor. Veja aqui, infelizmente sem legendas)…

O “SNL” revelou uma gigantesca leva de grandes nomes do humor, como Dan Aykoyrd, Bill Murray, Chevy Chase, Gilda Radner e John Belushi. Em 1980, o programa sofreu uma mudança na direção e todo o elenco saiu, incluindo Dan Aykroyd e Bill Murray. Muita gente achou que era o fim, mas o “SNL” foi salvo por um moleque de 18 anos, que em menos de dois anos, se transformaria num dos maiores astros da comédia norte-americana: Eddie Murphy.

O filme de estreia de Murphy foi “48 Horas” (1982), uma comédia policial dirigida por Walter Hill (“Warriors – Os selvagens da Noite”). E mesmo nesse filme de estreia, Murphy atuou como um veterano, improvisando várias cenas. Um dos grandes momentos do filme é a apavorada que Eddie dá num bar cheio de caipiras brancos. Originalmente, a cena teria o parceiro de Eddie, interpretado por Nick Nolte, fazendo o mesmo num bar frequentado por negros, mas Eddie Murphy estava tão por cima naquele momento que a cena foi trocada. Na hora de filmar, Walter Hill deu carta branca a Murphy: “Faça o que você quiser”. No meio da cena, vendo o improviso do ator, Hill virou para um assistente e disse: “Estamos ricos!”

Dois anos depois, quando ganhou o papel de Axel Foley, um policial acostumado à barra-pesada de Detroit que vai à rica e opulenta Beverly Hills, na Califórnia, tentar solucionar o assassinato de um amigo, Eddie Murphy continuou improvisando bastante no set. Uma das cenas mais famosas do filme, em que ele convence o recepcionista de um luxuoso clube privado a deixá-lo entrar, foi inteiramente inventada na hora por Murphy, assim como o inesquecível encontro dele com Serge (Bronson Pinchot), funcionário de uma galeria de arte.

Até a trilha sonora de “Um Tira da Pesada” foi um estouro, com três músicas no Top 10 da parada da “Billboard”, incluindo o tema instrumental “Axel F”, composto e tocado pelo alemão Harold Faltermeyer, até hoje associado à figura inesquecível de Eddie Murphy no papel de Axel Foley.

Em 1994, tive a sorte de entrevistar Eddie Murphy e perguntei sobre a importância dele para outros atores negros no cinema. Murphy foi sincero: “Fui um dos primeiros jovens negros a fazer sucesso na TV e no cinema. Meu sucesso criou um mercado para muitos artistas. Muita gente não reconhece que eu ajudei a abrir as portas. O fato é que, se hoje Wesley Snipes é um astro do cinema, é porque eu me tornei um astro anos atrás. Meus fãs sabem que eu cresci pobre, que me criei nos conjuntos habitacionais do Brooklyn e que me tornei famoso unicamente por causa de meu talento e trabalho”.

OS CAÇA-FANTASMAS

Em 1982, o ator Dan Aykroyd estava escrevendo uma comédia para interpretar junto a seu parceiro John Belushi. Dois anos antes, a dupla havia feito “Os Irmãos Cara-de-Pau”, uma comédia musical baseada num quadro que os dois interpretavam no programa humorístico “Saturday Night Live”, na TV norte-americana. No filme, eles viviam dois irmãos obcecados por blues e música negra americana. Com um humor escrachado e números musicais de Ray Charles, Aretha Franklin, James Brown e John Lee Hooker, “Os Irmãos Cara-de-Pau” foi um imenso sucesso de bilheteria.

Aykroyd estava, portanto, muito otimista com o potencial comercial desse novo filme. Ele escreveu uma história inspirada em uma de suas obsessões: fantasmas. Sim, Dan Aykroyd era um estudioso de fenômenos paranormais e inventou uma história sobre dois amigos que tinham por hobby perseguir espíritos errantes. Ele estava terminando o roteiro quando recebeu a notícia trágica: John Belushi, seu amado colega, havia morrido, aos 32 anos, de uma overdose de cocaína.

A morte de Belushi deixou Aykroyd arrasado, mas ele continuou trabalhando, até para não enlouquecer. E encontrou em outro parceiro do elenco do “Saturday Night Live” um substituto para Belushi: Bill Murray.

Com Murray a bordo, Aykroyd terminou o roteiro de “Os Caça-Fantasmas” com a ajuda do amigão e comediante Harold Ramis. A história foi ampliada para um trio de professores universitários de parapsicologia que resolvem montar uma empresa de eliminação de fantasmas. E eles mesmos – Aykroyd, Murray e Ramis – interpretariam os personagens principais (um quarto “Caça-Fantasma”, vivido por  Ernie Hudson, entraria depois na trama).

O filme foi dirigido por Ivan Reitman, que havia produzido, em 1979, “Clube dos Cafajestes”, filme que revelou John Belushi, e contou com um elenco de peso, que incluía ainda Sigourney Weaver, Rick Moranis e Annie Potts.

Misturando comédia escrachada com efeitos especiais de ponta para a época, “Os Caça-Fantasmas” estreou em 8 de junho de 1984 e se tornou um verdadeiro fenômeno cultural. O sucesso do primeiro filme rendeu outros quatro filmes para cinema, lançados entre 1989 e 2024, além de duas séries de TV. E a música-tema, composta e gravada por Ray Parker Jr., chegou a número 1 da parada norte-americana e 2 na parada britânica. Uma curiosidade é que Parker Jr. foi processado pelo cantor e compositor Huey Lewis por plágio. Lewis dizia que “Ghostbusters” era uma cópia de uma música dele, “I Want a New Drug”, e venceu o processo. Ray Parker Jr. foi obrigado a pagar uma indenização, mas o valor nunca foi divulgado por causa de um acordo de confidencialidade. Depois, pessoas ligadas à produção do filme diziam que, no set de filmagem, o elenco ouvia “I Want a New Drug” para se inspirar durante algumas sequências.

Um ótimo fim de semana a todas e todos.

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