Defendendo Satanás por uma boa causa
O Youtube Filmes exibe, pela bagatela de R$ 4, um documentário muito interessante: “Salve Satanás?” (“Hail Satan?”), de Penny Lane.
Escrevi recentemente sobre Penny Lane (é o nome verdadeiro dela, acredite) e seu revelador filme sobre o saxofonista Kenny G (leia aqui). Além desse, gostei demais de outros documentários dela, como “Our Nixon”, perfil de Richard Nixon composto de filmes Super-8 confiscados pelo FBI durante as investigações do escândalo de Watergate, e “Nuts!”, a bizarríssima história de um médico que, em 1917, tentou curar a impotência fazendo transplantes de testículos de bode em humanos.
Lane tem um gosto pelo inusitado e repete a dose em “Salve Satanás”, documentário que conta a história do Templo Satânico, um dos grupos religiosos mais combativos dos Estados Unidos. Formado há menos de uma década, o Templo Satânico não advoga, como o nome faz crer, a adoração do diabo, mas usa a figura dele para defender a sociedade laica e protestar contra a presença da religião na política e sociedade norte-americanas, especialmente nas escolas públicas.
Em 2013, entrevistei, para a “Folha”, o líder do Templo Satânico, Lucian Greaves:
Democracia é isso. Depois que o condado de Orange, na Flórida, nos EUA, permitiu que um grupo cristão distribuísse Bíblias em escolas públicas da região, um grupo chamado O Templo Satânico exigiu o mesmo direito e planeja distribuir nas escolas um livrinho infantil intitulado “O Grande Livro de Atividades das Crianças Satânicas”.
O volume traz jogos, desenhos para colorir e brincadeiras, como um “ligue os pontos” que forma o desenho de um pentagrama de cabeça para baixo e um labirinto ligando um simpático menininho, Damian, e seu cãozinho, Cérbero, a um presente: o “Necronomicon”, o fictício “Livro dos Mortos” criado pelo escritor norte-americano H.P. Lovecraft (1890-1937).
A notícia irritou grupos católicos, que inundaram o governo local de mensagens de protestos. Um dos diretores do sistema de ensino disse, porém, não ter recebido ainda um pedido formal de distribuição do material pelo Templo Satânico.
Já o porta-voz do Templo, Lucien Greaves, disse à Folha que o material está sendo revisado, e que a próxima audiência pública sobre o assunto será em janeiro de 2015.
“O condado de Orange não tem a liberdade de rejeitar nossa literatura, já que permitiram a distribuição de material cristão.”
Greaves disse que espera que os alunos gostem do livro. “Supomos que as crianças estejam muito curiosas para ver o nosso material. Devem estar bem entediadas com o material cristão, e provavelmente não são familiarizadas com literatura satanista”, afirma.
“Os pais certamente não vão gostar, mas deveriam direcionar sua revolta à direção das escolas, que permitiu a entrada de materiais religiosos em escolas públicas. Se não fosse por essas pessoas estúpidas e sem visão, nada disso estaria acontecendo.”
Jogada de marketing ou não, a estratégia do Templo Satânico parece dar certo. Dias atrás, em uma reunião do conselho diretor de escolas do condado de Orange, um diretor sugeriu que todo o material religioso, de qualquer tipo, fosse banido do sistema público de ensino.
“Nossa missão é lembrar ao mundo que liberdade religiosa é a liberdade de praticar qualquer religião, e que o governo, se quiser respeitar tal liberdade, deve se manter neutro, sem mostrar preferência por nenhuma denominação, seita ou ponto de vista”, disse Greaves.
“Salve Satanás?” conta toda a história do Templo Satânico e de sua luta por uma sociedade laica. É um filme com personagens interessantíssimos e que se dedicam a uma causa em que acreditam. Mas a diretora, Penny Lane, não cai na tentação de fazer um filme panfletário, e o ponto de interrogação no título deixa a dúvida: esse pessoal acredita mesmo no diabo?
Alugue o filme aqui.
Um ótimo fim de semana a todas e todos.
5 comentários em "Defendendo Satanás por uma boa causa"
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Meu caro, curiosa e interessante discussão! Aqui no Brasil tivemos até mesmo um youtuber que defendeu que pudessem existir partidos de extrema-direita, racistas e nazistas (discordo frontalmente em vários aspectos). A questão da liberdade de culto é das mais sensíveis. Do meu ponto de vista a atitude e abordagem do grupo americano é totalmente aceitável e até elogiável. Por outro lado, cada um que defender seu direito a crer no que quiser ou agir como quiser deve estar preparado para enfrentar consequências de suas escolhas. Liberdade sempre exige responsabilidade e resiliência. E não cabe ao Estado definir o que pode ou não ser crença.
Forte abraço!
Acho que são coisas diferentes. Acreditar em Satã é um direito, ter atitudes racistas é crime. A primeira é escolha individual e não prejudica terceiros, é minha opinião.
Deu vontade de entrar pra essa igreja kkkkk
Já virei adepto… heheheh! Vou assistir esse final de semana sem falta! Odeio qualquer tipo de imposição religiosa.
Eu amo esse documentário. A peleja deles pra instalar a estátua de Baphomet do lado da Tábua dos Dez Mandamentos é hilária e, ao mesmo tempo, faz refletir bastante.