“Um Sonho de Liberdade”: o fracasso que virou cult
Poucos escritores na história tiveram tantas obras adaptadas para cinema e televisão quanto Stephen King. Seu livro de estreia, “Carrie”, lançado há exatos 50 anos, foi adaptado em 1976 num excelente filme de terror de Brian De Palma. Desde então, foram cerca de 60 – isso mesmo, SESSENTA! – filmes para cinema e dezenas de adaptações para TV e séries.
Stephen King é conhecido por escrever histórias sobrenaturais, mas seus livros inovaram por trazer o horror para perto dos leitores. Claro, ele escreveu bastante sobre reinos imaginários, mas o cerne de sua literatura lida com pessoas normais metidas em episódios anormais. Os personagens de King são cidadãos comuns que se veem em situações que eles não conseguem controlar. Podemos chamar de “horror doméstico”, e isso atraiu os leitores de forma inédita.
No meio de tantos filmes e séries, há muita coisa boa e outras nem tanto. Para cada “Conta Comigo” (Rob Reiner, 1986), “Christine – O Carro Assassino” (John Carpenter, 1983) e “Louca Obsessão” (Rob Reiner, 1990), há abacaxis como “Cemitério Maldito 2” e “Colheita Maldita 3”. Ninguém é perfeito.
Curiosamente, uma das adaptações mais famosas da obra de King foi rechaçada pelo próprio autor: “O Iluminado”, filme dirigido em 1980 por Stanley Kubrick, considerado um dos maiores gênios do cinema. “É um filme lindo e o visual é espetacular, mas é como um grande e lustroso Cadillac, mas sem motor”, disse King. “O personagem de Jack Torrance [interpretado por Jack Nicholson] não tem arco dramático. No filme, quando o vemos pela primeira vez, ele já é louco de pedra, e tudo que ele faz é ficar ainda mais louco. No livro, ele é um sujeito lutando por sua sanidade, e finalmente ele a perde. Para mim, isso é tragédia. No filme, não há tragédia, porque não há nenhuma mudança no personagem”.
Mas a adaptação que muitos julgam a melhor já feita de uma obra de Stephen King não é uma história de horror, mas um drama prisional: “Um Sonho de Liberdade” (“The Shawshank Redemption”), dirigido em 1994 por Frank Darabont e adaptado de uma história chamada “Rita Hayworth and Shawshank Redemption”. Darabont havia comprado os diretos da história em 1987 diretamente de Stephen King, que havia gostado de “A Hora do Pesadelo 3”, escrito por Darabont e dirigido por Chuck Russell.
Darabont levou mais de cinco anos para conseguir o financiamento para o longa. Enquanto isso, o roteiro circulou bastante em Hollywood e atraiu o interesse de astros como Tom Hanks e Tom Cruise. Em certo momento, Nicholas Cage e Martin Sheen estavam cotados para fazer os papeis principais, que acabaram com Tim Robbins e Morgan Freeman.
Robbins faz o banqueiro Andy Dufresne, que é preso e condenado à prisão perpétua pelos assassinatos da esposa e do amante dela. Dufresne é enviado à Penitenciária Shwashank, onde faz amizade com um contrabandista chamado Elis “Red” Redding (Morgan Freeman), e acaba envolvido num engenhoso esquema de lavagem de dinheiro liderado pelo brutal chefe da prisão, Samuel Norton (Bob Gunton).
Hoje, “Um Sonho de Liberdade” é um filme adorado por muitos. Mas o que a maioria esquece ou não sabe é que ele foi um fracasso de bilheteria em 1994, em parte por causa da competição acirrada com outros filmes lançados no mesmo ano, como “Forrest Gump” e “Pulp Fiction”. O filme custou 25 milhões de dólares e fez um bruto de bilheteria que não passou de 28 milhões. Ou seja: perdeu dinheiro.
Foi só depois que a Academia indicou o filme a sete Oscars, incluindo mehor filme, ator (Morgan Freeman), roteiro adaptado e fotografia, que o boca a boca começou a atrair mais atenção para o filme. No ano seguinte, foi o título mais alugado em VHS nos Estados Unidos.
Nesses últimos 30 anos, “Um Sonho de Liberdade” ganhou status de clássico, ranqueado no topo de porcarias como Rotten Tomatoes e afins. Culpa das incontáveis exibições em TV e lançamentos em DVD e laserdisc. Mas a verdade é que pouca gente prestou atenção nele em 1994.
Um ótimo dia a todas e todos.
17 comentários em "“Um Sonho de Liberdade”: o fracasso que virou cult"
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Ficou lindo o novo site, André, parabéns. E, como apoiador, posso te falar que o conteúdo está melhor do que nunca.
Sobre o “Redemption”: achei engraçado vc colocar como cult, porque pra mim é a melhor Sessão da Tarde da história, e aqui não é uma crítica. Gosto muito do filme e acho que foi conquistando o público justamente por esse apelo ao “gosto médio “. Sem arroubos criativos, mas com uma ótima história, bem encenada e dirigida.
Abração!
Que bom que gostou, Antonio, fico feliz. Deu um trabalhão, mas acho que ficou bem legal. Sobre chamar o filme de “cult”, é basicamente porque, diferentemente do que muitos acham, ele não foi bem de bilheteria e foi redescoberto depois.
André, parabéns pelo novo site que tá classudo e bonitão!!!
Sobre os filmes adaptados do Stephen King, realmente são muitos, você gosta de “À espera de um milagre”???
É aquele “Green Mile”, né? Preciso rever, mas lembro ter achado meio meloso, não?
Acrescente a lista de adaptações ruins aquele abacaxi do “Doutor Sono”… Nunca achei “Um Sonho de Liberdade” essa maravilha que alguns acham. Filme de Sessão da Tarde e era isso.
Parabéns pelo novo blog.
Acho que nem vi esse “Doutor Sono”.
Parabéns pelo novo blog! Alguma chance de ressuscitar o ‘Pior para os fatos’ ou algo similar com textos tendenciosos, opinativos e não isentos ? 🙂
Difícil, eu curtia muito fazer, até o site ser invadido por gente me xingando, tava muito chato, eu precisava apagar 30 comentários por dia.
E a continuação de “O iluminado”, “Doutor Sono” (2019), com o Ewan McGregor e também baseado em livro, será que o King aprovou? Lembro de ter visto no cinema e achado bem legal.
André, parabéns pelo novo blog, tá bonitão. Você gosta de “À Espera de um Milagre”, que também foi dirigido pelo Darabont e baseado em um livro do King?
Pô, que bom que gostou, Moacir, fico feliz. Esse é aquele “Green Mile”? Lembro que achei meio piegas, não é?
Sendo sincero, eu acho os dois medianos.
O “Shawshank” funciona melhor, acho.
Acho que o sucesso do filme deveu-se a sequencia das cenas finais do filme desde quando o Robbins esta’ no banco sacando o dinheiro até a cina final quando o Morgan Freeman chega `aquela praia paradisiaca no Mexico. Os atores são bons, mas o roteiro é bem banal.
Mas, por alguma razão, capturou o coração do público.
Bom filme, mas nunca entendi como ele conseguiu manter aquele corte de cabelo perfeito dentro da prisão.
Mistérios da sétima arte!