Um mergulho no mundo de Carlos Imperial
Maravilhosa dica do amigo – e grande jornalista – Pedro Só: algum iluminado jogou no Youtube a gravação, na íntegra, de um episódio do “Programa Carlos Imperial” na TV Tupi, em 1978.
Sou obcecado por Imperial – em 1985 tentei montar no colégio um comitê da campanha dele a prefeito do Rio pelo PTN (Partido Tancredista Nacional), mas fui injustamente proibido – e já assisti a todos os trechos disponíveis de seus programas de TV no Youtube. Mas poder desfrutar um episódio inteiro, 1h30 de puro suco de Imperial, foi uma experiência proustiana das mais intensas, uma descarga elétrica de memórias e imagens voando a mil por hora numa máquina do tempo.
Em 1978, Imperial, que já havia deixado sua marca no rock brasileiro, na Jovem Guarda e na soul music brazuca, estava entusiasmado com as batidas dançantes e festivas da discoteca. Esse programa da Tupi, que ele chamava de “Os Embalos de Sábado à Noite”, título copiado na cara dura do filme com John Travolta, era quase que inteiramente dedicado a artistas do gênero. E este episódio, em especial, parece uma coletânea de alguns dos nomes mais importantes do pop brasileiro dos anos 70.
Para começar, temos Os Famks, uma das grandes bandas de baile nos subúrbios do Rio e que, dois anos depois, mudaria de nome para Roupa Nova. Estão todos ali: Serginho, Feghali e o cantor Paulinho, ainda cabeludo.
Logo depois, Imperial chama As Melindrosas, grupo juvenil de meninas criado pela gravadora Copacabana no LP “Disco Baby”, que trazia cantigas infantis tipo “Atirei o Pau no Gato” e “Cai Cai Balão” em ritmo de discoteca (as vozes no disco não eram delas, claro, mas de veteranas cantoras de estúdio de São Paulo).
Assim que Suely, Iara e Paula entram no palco, Imperial diz: “Tivemos as Melindrosas aqui no programa há muito tempo atrás”. O que Imperial convenientemente “se esqueceu” de dizer é que a primeira aparição do grupo no programa causou uma imensa polêmica, quando umas das integrantes, Maria Odete, apareceu no primeiro bloco do programa de maria-chiquinha cantando “Ciranda Cirandinha” em ritmo disco, depois mudou de roupa, botou um babydoll e apareceu no segundo bloco rebolando e encarnando sua nova personagem, Gretchen, que estreava em compacto com a sexy e provocativa “Dance With Me”, composta por Mister Sam. “Meu pai estava vendo em casa e quase morreu do coração”, me disse a irmã de Maria Odete, Suely, que depois ficaria conhecida em todo o país como Sula Miranda. Foi a primeira e última aparição televisiva de Maria Odete nas Melindrosas.
O desfile de astros disco continua: Dudu França, “O Gatão das Gatinhas”, canta o sucesso “Grilo na Cuca”, letra e música de quem? De Carlos Imperial, é claro. A professora de yoga Regina Shakti se apresenta dublando “Meteor Man” e fingindo ser a cantora original da música, a britânica Dee D. Jackson. A paraguaia Perla canta “Rios da Babilônia”, versão de “Rivers of Babylon”, do gripo disco Boney M, e Fernando Santos mostra sua “Disco Macumba”, mistura de pontos de umbanda com batidas de discoteca.
Passam pelo palco artistas que logo sumiriam, como Super Bacana, Caras e Bocas e a cearense Mary Joe (esta, irmã da conhecida Miss Lene, cantora cujo nome real era – juro – Frankislene) . Em meio ao entra-e-sai desenfreado de atrações, Imperial faz jabá de uma equipe de som e promove um concurso do casal que melhor dança discoteca. Mas o melhor ficou para o final: o apresentador pede silêncio ao auditório e, com olhar compenetrado, faz um editorial sobre os benefícios que a música disco pode trazer à sociedade: “Uma pesquisa nos Estados Unidos provou que a discoteca provocou uma queda de mais de 20% nos índices de criminalidade, consumo de álcool e uso de drogas”. Vou repetir: Imperial diz que a discoteca fez CAIR o uso de drogas nos Estados Unidos.
Um maravilhoso final de semana a todas e todos.
6 comentários em "Um mergulho no mundo de Carlos Imperial"
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Há muito tempo, lembro de ter assistido uma entrevista do Imperial em que ele falava que teria sido preso e torturado no DOPS por conta de um trecho da música “O Bom” – “o meu carro é vermelho, não uso espelho para me pentear…” Fui procurar a autoria da música e consta como sendo do Eduardo Araújo – de quem o Imperial foi muito amigo. Não sei se a história de fato procede….
DEZ! NOTA DEZ!
Imperial foi casado com uma das filhas do Carlos Gracie. Os almoços de famílias deviam ser fantásticos.
André, esse é um documento vivo de como era a vida no Brasil no final dos anos 1970!!!
E ver o Imperial em plena forma no apagar das luzes da Tupi, não tem preço, Santa pessoa que preservou e disseminou essa obra de arte!!!
Um picareta genial.
Dez nota Dez!
Isso é uma preciosidade!