Um americano na Invasão Britânica
Um capítulo importante da história do rock foi encerrado no dia 13 de novembro de 2024, quando morreu, aos 87 anos, o produtor musical Shel Talmy. Ele era americano, mas teve papel fundamental na chamada “Invasão Britânica” dos anos 1960, produzindo discos para bandas como The Kinks, The Who, Manfred Mann, The Easybeats e com um tal de David Jones, antes de mudar o sobrenome para Bowie.
Shel Talmy produziu simplesmente duas das maiores explosões de distorção e peso da primeira metade dos anos 1960, canções que prenunciaram o punk e o heavy metal: “You Really Got me”, dos Kinks, e “My Generation”, do The Who.

Em 1962, Talmy era engenheiro de som em Los Angeles quando viajou para a Inglaterra a turismo. O plano era ficar cinco semanas e fazer contatos com gravadoras locais. Antes de viajar, Talmy encontrou-se com o amigo Nick Venet, que havia produzido algumas canções para um grupo novato, The Beach Boys. Numa entrevista de 2012 para o site Finding Zoso, dedicado exclusivamente ao guitarrista Jimmy Page (calma, Page já entra na história de Talmy!) e reproduzida no ótimo obituário do produtor publicado no “The New York Times” (leia aqui), Talmy conta que Venet lhe disse: “Se quiser, leva meus discos e diz que foi você que gravou”.
Talmy fez exatamente isso. Numa reunião com a gravadora britânica Decca, mostrou um acetato da música “Surfin’ Safari”, dos Beach Boys, e disse ter sido o produtor. Conseguiu um contrato na hora e imediatamente produziu um grande hit para o selo, “Charmaine” (1963), com o trio vocal The Bachelors.
Mas a coisa ficaria mais séria no ano seguinte, quanto Talmy recebeu a missão de produzir algumas canções para um grupo novato chamado The Ravens, que logo depois mudaria de nome para The Kinks. Talmy fez o terceiro compacto do grupo, “You Really Got Me”, e o resultado foi uma música tão pesada e distorcida que muita gente torceu o nariz. A gravadora só acalmou quando o compacto chegou a número 1 na parada britânica.
As histórias da gravação de “You Really Got Me” são lendárias. Sim, Dave Davies gravou o riff num amplificador com o cone do alto-falante cortado ao meio por uma navalha para obter um som mais “sujo”. E não, Jimmy Page não tocou o solo da música, ele só fez guitarra base. Mas Page era o instrumentista de estúdio mais usado por Shel Talmy em gravações.
Quem surtou ao ouvir “You Really Got Me” foi Pete Townshend, que buscava um som igual àquele para sua banda The High Numbers, que logo depois se tornaria The Who. Talmy produziu os três primeiros singles do The Who, todas canções icônicas: “I Can’t Explain”, “Anyway, Anyhow, Anywhere” e a obra-prima “My Generation”, com direito ao cantor Roger Daltrey gaguejando a letra, supostamente numa alusão irônica ao uso desenfreado de anfetaminas que dificultava o falar da turma “mod”, da qual The Who foi um pilar.
A lista de créditos de Shel Talmy é impressionante: ele produziu músicas de algumas das primeiras bandas de David Bowie, The Manish Boys e The Lower Third, fez LPs clássicos dos Kinks, como “Kinda Kinks” (1965), “Face to Face” (1966) e “Something Else” (1967), e o primeiro LP do The Who, “My Generation” (1965). Depois trabalhou com Lee Hazlewood, Pentangle, Small Faces, Fuzztones e até com a banda punk The Damned. Mas foram os três ou quatro anos com Kinks e Who que realmente eternizaram Shel Talmy na história do rock.
Um ótimo fim de semana a todas e todos.
8 comentários em "Um americano na Invasão Britânica"
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Não lembro onde li (ou vi) que o Shel Talmy chegou a produzir algumas músicas pra primeira banda do Lemmy, o The Rockin Vickres. Grande figura, que descanse em paz.
Não sabia, mas faz sentido.
Fui pesquisar e achei, o próprio Shel Talmy aparece no filme do Lemmy https://youtu.be/gK22F2fftow?t=1654
Que demais, não lembrava!
André, você já escreveu sobre a invasão britânica em algum lugar? Fora os consagrados, há um mar de bandas legais que não tiveram a mesma repercussão que Beatles, Who e Stones – Troggs, Pretty Things, Zombies, Hollies, Spenser Davis Group, Animals (esses tiveram até um hypezinho maior).
Boa ideia, posso fazer um “Lado B” da Invasão Britânica.
Um grande texto sobre uma grande lenda. Tenho pouco material do Kinks, preciso melhorar isso.
Ah, precisa sim!