set/2021

Tributo a Paulo Cavalcanti, crítico do “Notícias Populares”

Por André Barcinski

Tributo a Paulo Cavalcanti, crítico do “Notícias Populares”

Por André Barcinski

Estou no meio de uma pesquisa sobre o jornal paulistano “Notícias Populares”, onde trabalhei por um breve período nos anos 90, e o mergulho nos arquivos do diário tem trazido lembranças maravilhosas. A maior delas é reencontrar os inesquecíveis textos de Paulo Cavalcanti sobre a programação de filmes da TV.

Cavalcanti, conhecido por “Alderabinha” (seu pai, Alderaban, foi um conhecido jornalista), tinha conhecimento enciclopédico de música e cinema. Conversar com ele era um assombro: bastava citar um filme ou disco, e Alderabinha desfilava, de memória, toda a ficha técnica até os mínimos detalhes. E isso numa era pré-Google.

No “NP”, Paulo era responsável pela seção de filmes na TV e seus textos, sempre curtos, eram engraçadíssimos. Ele sabia que o público do jornal não suportava filmes “cabeça” e tinha uma queda por filmes de brutamontes como Van Damme, Schwarzenneger, Charles Bronson e Chuck Norris.

Dois malucos geniais: Alice Cooper e Paulo Cavalcanti

Aqui vão trechos de algumas críticas:

“O Casamento de Maria Braun”, de Rainer Werner Fassinber: “Chato é elogio. É melhor ir dormir. Os sonhos são mais interessantes”.

“Esse Obscuro Objeto do Desejo”, de Luis Buñuel: “Coroa se apaixona por uma garotinha. Assistindo esse filme sua insônia será logo curada”.

“Ran”, de Akira Kurosawa: “Um imperador janponês faz a cagada de dividir o seu reino entre os filhos. Não sabe o que o espera. Apesar de ser muito lento e você não entender uma patavina do que estão dizendo, ‘Ran’ tem cenas do cacete. Como a da bataha, onde os exércitos parecem estar se engolindo”.

“Mamãezinha Querida”, de Frank Perry: “História da atriz Joan Crawford. Filme baseado no livro de sua filha Christine, que tenta provar que, perto de Joan, Saddam Hussein é uma seda”.

“Cala a Boca, Etelvina”, de Eurides Ramos. A desbocada Dercy Gonçalves desfilou este ano [em 1991, no desfile da escola de samba Viradouro, no Rio] com os peitos murchos de fora. Nesta comédia de uns 30 anos atrás, ela não está muito melhor. A velha é uma empregada que está no lugar da patroa. Só para nostálgicos”.

Trabalhei com Paulo no “NP” por pouco mais de um ano, no início da década de 1990, e lembro dois textos que não consegui achar, mas que nunca esqueci.

O primeiro era sobre um filme feito para a TV com o Incrível Hulk, estrelado por Lou Ferrigno. O “abre” da crítica era inesquecível:

“Feio, verde e assustador. Não, não é seu exame de fezes, mas o Incrível Hulk, que passa hoje na Bandeirantes…”

O outro era sobre um filme de viking, cujo título eu realmente não lembro. Mas a crítica dizia algo assim:

“Filme muito bacana, cheio de sangue e lutas de espada. Viking era aquele pessoal do chapéu chifrudo”.

Paulo estava trabalhando comigo como consultor da série documental “História Secreta do Pop Brasileiro” quando morreu de enfarte, em 2019, aos 56 anos. Deixa uma saudade imensa.

11 comentários em "Tributo a Paulo Cavalcanti, crítico do “Notícias Populares”"

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    Usuário não identificado

    Fui criado em banca de jornal, meu pais foram jornaleiros durante alguns períodos da minha infância e eu passava o dia dentro da banca. Lia absolutamente TUDO que chegava pra venda. O NP era uma de minhas leituras preferidas (8-10 anos de idade; as sacanagens e as histórias bizarras eram o principal atrativo).

    O NP tem um acervo digitalizado? Tem um raridade que procuro e não acho na internet: As tabelas do plano real. O NP fez duas tabelas de conversão de CR$ para R$. A do sexo (boquete: tanto. Programa: tanto) e a do trabalhador ( Pinga: tanto R$. Busão :R$. pingado: R$; etc etc). Achei só uma referência, mas sem as páginas originais::

    https://f5.folha.uol.com.br/saiunonp/2014/07/1482852-np-publica-a-tabela-do-sexo-em-real-transe-mais-e-pague-menos.shtml

    Dentro da mesma publicação, fichas expunham os preços corrigidos da “putaria”. Tirar uma onda com um “traveco” poderia custar R$ 14,80, e adquirir vaselina, R$ 1,26. Como a vida não estava fácil, a vagina artificial não saía por menos de R$ 56, mas uma “prostituta da boca do lixo” poderia custar um pouquinho mais barato; R$ 3,70… Foi assim que, para o desespero ou alívio de muitos, o “NP” chegou a publicar, neste mesmo dia, o “tabelão do sexo”. “Chegou o tabelão do sexo em real”, era uma das muitas chamadas internas do diário.

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    Usuário não identificado

    André, bons tempos do NP, éramos felizes e não sabíamos, e na época, eu era adolescente e o jornal fazia o maior sucesso entre a molecada da minha escola, mas não tinha idade suficiente para entender as tiradas hilárias do Paulo Cavalcanti, uma pena…
    E dialogando com a sua twitada de hj, atualmente o Notícias Populares, e mesmo o filhote carioca, o Meia Hora nadam de braçada em termos de qualidade, se comparado aos palestrinhas dos jornais televisivos….

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    AH que demais , eu lembro do choque quando ele morreu, pessoa super conhecida pra quem acompanhava cultura pop e TV. Lamento Barça e imagino que falta ele faz.
    Lembrei quando eu confundi ele com o Finoti no seu instagram e “matei” o Finoti.

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    Usuário não identificado

    ah, lembro como se fosse hoje, um momento mágico em que a TV ia passar, no mesmo dia, mas em canais diferentes, “Gritos e Sussuros” do Bergman e “Desejo de Matar” com Charles Bronson. O NP analisou as duas obras de maneira perfeita:
    “Gritos e Sussuros” – Bando de mulheres neuróticas se manda pra uma chácara e ficam reclamando da vida sem parar. Muito chato.
    “Desejo de Matar” – Tiozinho fica xarope ao ver família barbarizada por malacos. Pega num trabuco e sai arrepiando a bandidagem. Filmaço!!”

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