Thurston Moore: uma vida de barulho
Aproveitei as festas de fim de ano para botar a leitura em dia e me diverti muito com um livro que, espero, seja lançado brevemente em português: “Sonic Life”, autobiografia de Thurston Moore, ex-guitarrista e fundador do grupo norte-americano Sonic Youth.
O Sonic Youth foi uma das bandas fundamentais da ascensão do rock alternativo americano nos anos 80, uma ponte entre a geração do punk 77 e o grunge da virada dos 80 para os 90. Foram desbravadores que abriram o caminho à força, numa época em que praticamente não existia uma cena alternativa de clubes, fanzines e rádios.
Pode-se dizer que o Sonic Youth e seus contemporâneos – Husker Dü, Replacements, REM, Black Flag, Butthole Surfers, Meat Puppets, Mission of Burma, Dead Kennedys – inventaram a cena alternativa nos Estados Unidos, bem antes da explosão do Nirvana (sobre esse tema, recomendo um livro indispensável, “Nossa Banda Podia Ser Sua Vida”, de Michael Azerrad, lançado aqui pela Powerline Books).
“Sonic Life” começa com Thurston relatando sua tediosa vida suburbana em Bethel, estado do Connecticut, abrilhantada esporadicamente pela descoberta de discos de rock – primeiro de Led Zeppelin e The Who e, depois, Lou Reed, Stooges e New York Dolls.
A vida dele muda para sempre em 1974, aos 16 anos, quando vai com um amigo de Fusca até Nova York e se depara com um buraco chamado CBGB’s, onde os dois assistem, embasbacados, a bandas como Ramones, Television e Suicide. Depois da morte do pai, em 1976, Thurston resolve se jogar no mundo e se muda para Nova York, sem um centavo no bolso.
Não poderia haver hora melhor para um jovem obcecado por música, arte e literatura desembarcar em Nova York: o punk estava explodindo, assim como o nascente hip hop e o “no wave” de Mars, DNA, Lydia Lunch e Teenage Jesus and the Jerks. Thurston caiu de cabeça na cena de poesia alternativa do Lower East Side e na arte urbana de radicais como Basquiat e Keith Haring. Nova York estava falida e em ruínas, mas os aluguéis baratos (o primeiro aluguel de Thurston, numa espelunca de quarto andar sem elevador, custava 100 dólares por mês), permitia a malucos-beleza de todo o país morar ali.
Thurston tenta a sorte com várias bandas, até que, em 1981, funda o Sonic Youth, um projeto que pretendia fundir o peso e agressividade do punk ao vanguardismo de pioneiros sonoros como Glenn Branca e John Cage. Usando afinações esquisitas e tocando guitarras com chaves de fenda, Thurston e seus parceiros – a esposa, Kim Gordon, o guitarrista Lee Ranaldo e o baterista Steve Shelley – criaram uma obra única e inconfundível.
“Sonic Life” é um passeio por 40 anos de esquisitices sonoras, com descrições emocionadas de shows e momentos artísticos sublimes. As histórias com Michael Gira e o seu Swans, banda-irmã do Sonic Youth, são reveladoras (sim, Michael foi namorado de uma tal de Madonna Ciccone, dançarina-cantora que surgia na mesma cena alternativa), assim como histórias com Patti Smith, Iggy Pop, Mike Watt, Yoko Ono, Neil Young, Paul McCartney (consolando Linda, esposa de Johnny Ramone, depois da morte de Johnny, lembrando que os Ramones foram batizados com o sobrenome – Ramon – que McCartney usava para se hospedar, incógnito, em hotéis), enfim, um time impressionante de pesos-pesados da música.
Alguns momentos do livro foram marcantes para mim:
– A descrição do show de Sid Vicious no clube Max’s Kansas City, em setembro de 1978, com uma banda que tinha Mick Jones (The Clash), Steve Dior (The Idols) e dois integrantes dos New York Dolls, Arthur Kane e Jerry Nolan.
– Thurston contando como, ao ouvir “Isn’t Anything”, primeiro LP do grupo inglês My Bloody Valentine, teve de sentar numa cadeira porque achou que ia desmaiar de emoção com a beleza intoxicante do som.
– A longa e comovente descrição da turnê que o Sonic Youth fez com o Nirvana pela Europa, em agosto de 1991, dias antes do lançamento de “Nevermind” (sobre isso, vou escrever um texto completo aqui no blog, nos próximos dias).
– Paul McCartney perguntando a Thurston e Lee Ranaldo sobre as inusitadas afinações de guitarras do Sonic Youth, e o Beatle se surpreendendo quando os dois nerds de música começaram a bombardeá-lo com perguntas extremamente específicas sobre o disco “McGear”, que Paul produzira para o irmão, Mike McGear. “Ninguém nunca me pergunta sobre Mike”, disse Paul. “Cara, nós sabemos mais sobre ele do que sobre os Beatles”, brincou Thurston.
– Siouxie Sioux aparecendo de surpresa no camarim do Sonic Youth durante um Lollapalooza, justamente na hora em que a banda recebia a visita de Neil Young e membros do Grateful Dead. Siouxsie – cambaleante de goró – começou a fazer piadas sarcásticas com os velhos hippies, e o tempo quase fechou.
– Thurston revelando que sempre cantava de cabeça baixa, olhando para o chão, porque nunca conseguiu decorar as letras da banda e precisava ler as letras num papel. Por isso era tão difícil fotografá-lo cantando!
Uma ótima semana a todas e todos.
19 comentários em "Thurston Moore: uma vida de barulho"
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Sonic Youth mudou minha vida e minha percepção musical. Lembro da primeira vez que escutei o LP Sister nos anos 90. Aquele ruído, as distorções, as afinações inusitadas me impactaram muito. Até hoje guardo o vinil com muito carinho.
O episódio da Siouxsie me convenceu a comprar o livro rs, não esperava nada diferente dela.
A descrição é engraçada, ela tá bem alterada e inconveniente.
Fiquei muito instigado com o que você descreveu de conteúdo em “Nossa Banda Podia ser sua Vida”, de Michael Azerrad. A única forma de leitura hoje é pelo Kindle Unlimited. O livro está esgotado fisicamente. Quanto à autobiografia de Thruston Moore, eu já estou ansioso pela possibilidade de publicação em solo brasileiro. Obrigado pelo excelente texto!
A Powerline lançou, mas está esgotado, infelizmente.
Grande retorno! Excelente 2024. Espero que o pessoal da Editora Terreno Estranho lance essa joia por aqui. Barcinski, você conhece um grupo (creio que sueco) chamado GAS? Pergunto, porque aquela maravilhosa faixa Join The Resistance do álbum “Medicine” do Goat faz parte também de um disco lançado meses antes por esse GAS (banda um tanto desconhecida, quase nada de informação a respeito, não chega a ter 400 ouvintes no Spotify e a música citada, na minha opinião, não é tão boa com eles…. rs) Será que trata-se de um projeto obscuro que reúne membros do Goat, sabe dizer? Valeu. Abraço.
Não conheço, mas pode muito bem ser, os caras têm vários projetos. Vou procurar ouvir, obrigado pela dica.
Nunca curti o SY, mas teus textos são sempre maravilhosos.
Bem – vindo de volta, estava fazendo falta. Abraço.
Valeu! Mas eu amo Sonic Youth.
E eu respeito… assim como o Pearl Jam e Rush, que são bandas que eu não gosto, eu tenho o maior respeito pelo Sonic Youth e pela trajetória dos caras (e garota).
Este shows do Sonic Youth com o Nirvana não rendeu uma turnê na Europa Barça? Tem um vídeo destes shows muito massa.
Sim, o filme “1991 – The Year Punk Broke”. Vou escrever sobre ele semana que vem.
Exatamente, tenho este vídeo em VHS até hoje e óbvio o VHS vídeo player. Rockeiro das antigas é por natural um acumulador compulsivo.
Caramba, que histórias incríveis! Daqui pra 2150 sai em português…
Tomara que antes, em 2048.
André, sempre quando vejo ou leio sobre a Nova York dos anos 1970, suja, falida e violenta, eu penso que, mesmo desse jeito, ela ainda está muito melhor do que qualquer metrópole brasileira de 2024, você não acha???
Era uma cidade incrível nesse período. Morei lá no início dos 90 e ainda tinha UM POUCO daquele clima.
Sensacional!! Fazendo contraponto ao livro da Kim Gordon, ele fala sobre o casamento, as traições e o último show no Brasil?
Nada. Ele só conta rapidamente como se apaixonou pela atual esposa. É bem menos revelador, nesse ponto, do que o livro da Kim Gordon.