Há uma regra usual em cursos de roteiro de filmes que diz: não exclua o público. Filmes e séries devem ter narrativas que podem ser compreendidas por todos. Quem escreve o roteiro deve prestar atenção para não deixar a história particular demais, sob risco de alienar parte da audiência.
Como toda regra, essa, por vezes, tem sido levada a extremos. No audiovisual moderno, a obsessão em criar obras de apelo universal tem resultado em narrativas medíocres e apelativas. É muito comum, hoje, ver filmes ou séries que repetem ad nauseam explicações para o que estamos vendo na tela, criando uma espécie de “bula”, como se o público fosse incapaz de tirar suas próprias conclusões.
Por isso, é tão animador ver “TÁR”, um filme hollywoodiano que não faz nenhuma concessão e não trata o espectador de forma condescendente. Dirigido por Todd Field, que fez os ótimos “In the Bedroom” (2001) e “Little Children” (2006), é o mais radical filme norte-americano produzido por um grande estúdio em muito tempo.
No filme, Cate Blanchett faz Lydia Tár, uma pianista, compositora e regente da Filarmônica de Berlim. Lydia se prepara para gravar a Quinta de Mahler e está lançando um livro, “Tár on Tár”. Em meio a esses dois eventos importantes, Lydia começa a ser importunada por recados misteriosos de uma antiga aluna, enquanto tem de lidar com o ciúme da esposa, Sharon, que é a primeira violinista da Filarmônica a percebe o interesse de Lydia por uma jovem violoncelista russa que acaba de entrar na orquestra.
O que Todd Field fez com o roteiro de “TÁR” é jogar o espectador de cabeça no mundo da elite da música clássica. Acompanhamos Lydia em reuniões com financiadores, ensaios com a orquestra e aulas de música que ela ministra na prestigiosa escola Juilliard, e em nenhum momento o roteiro perde tempo explicando nada. Alguns diálogos são difíceis de entender completamente, porque Lydia e seus interlocutores falam como pessoas de verdade devem falar nesses círculos.
Uma conversa com outro regente, a quem Lydia substituiu na Filarmônica de Berlim, é reveladora do universo de pequenas intrigas e ciúmes que, descobrimos, também se faz presente nesse meio. Vendo “TÁR”, me senti completamente imerso num mundo que não domino, e por isso fiquei tão fascinado pelo filme e pelo roteiro escrito por Todd Field.
É notável também como Field explora, ao longo da história de Lydia, temas tão atuais como o culto a celebridades, o linchamento virtual, o cancelamento e as discussões de gênero. Há uma sequência simplesmente antológica de uma discussão com um aluno sobre a suposta “misoginia” de J.S. Bach.
Além de brilhantemente escrito, o filme é de uma beleza visual intoxicante. As cenas de ensaios e apresentações da orquestra são lindas, assim como toda a concepção visual do filme, incluindo o apartamento de Lydia e Sharon. E Cate Blachett? Melhor atriz do mundo nos últimos 20 anos? Teria meu voto.
Enfim, “TÁR” é um deleite para quem gosta de filmes ousados e desafiadores. Não é à toa que Martin Scorsese disse o seguinte sobre o filme:
“Por muito tempo, muitos de nós assistimos a filmes que praticamente nos informam para onde estão indo. Eles nos pegam pela mão e, mesmo que às vezes seja perturbador, nos confortam ao longo do caminho de que tudo ficará bem no final. Isso é insidioso, pois alguém pode se deixar levar por isso e, por fim, se acostumar com isso, levando aqueles que experimentaram o cinema no passado – e o consideram muito mais do que isso – a se tornarem desesperados com o futuro da arte cinematográfica, especialmente para as gerações mais jovens (…) As nuvens se dissiparam quando vi ‘TÁR’. O que você fez, Todd, é que a própria estrutura do filme que você criou não permite isso. (…) A mudança de locações, por exemplo, só a mudança de locações faz o que o cinema faz de melhor, que é reduzir o espaço e o tempo ao que são, ou seja, nada. Você faz com que existamos na cabeça dela. A gente vive só pela percepção dela. O mundo é ela. Tempo, cronologia e espaço tornam-se a música pela qual ela vive. E não sabemos para onde o filme está indo, apenas seguimos a personagem em sua estranha e perturbadora estrada até seu destino final, ainda mais estranho.”
Um ótimo fim de semana!
12 comentários em "“TÁR”: o cinema respira"
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na primeira assistida fiquei confuso. a segunda foi um soco na cara. vai ter a terceira. filmaço.
Também vimos duas vezes, daqui a alguns dias veremos de novo.
Assisti com minha esposa e foi interessante perceber como estamos condicionados. Ficamos “esperando uma explicação” mas ela não veio! Desde que assisti não parei de pensar nele! Um filme gigante!
Ah, não tem nada fácil nesse filme. Ainda bem.
Cate é uma força da natureza, e Todd, pelo amor de Deus, o cara NUNCA errou em nada… só fez filmes incríveis. Esses dias, um blogueiro achou graça quando eu disse que acho o Spielberg superstimado. Falei também que achei o novo Top Gun, uma porcaria. Enfim, cada qual, cada qual.
Quero muito assistir esse filme, mas adivinha? Não estreou (e creio que nem vai) na minha cidade.
Inacreditável.
André, dizem que a Cate Blanchett é favoritíssima ao prêmio de Melhor Atriz no Oscar, mas que o prêmio para Melhor Filme iria para o “Tudo em todo lugar ao mesmo tempo”, ou para “Os Fabelmans”, por enquanto, os favoritos, vc chegou a ver estes filmes?
Larguei os dois com uns 20 minutos, não posso dizer que vi.
André, apesar de achar que você anda meio “ranzinza” com os filmes deste ano (eu gostei de “Aftersun” e “O Menu”, por exemplo), você está coberto de razão com relação a “Tár”. Assisti ontem e simplesmente não tem filme igual no Oscar deste ano (embora ainda não tenha assistido o Banshees nem o do Östlund).
Hahahahahaha, você que tá bonzinho!
O filme é grandioso.
Cate Blanchett está simplesmente perfeita.
Recomendo que assistam como eu assisti, sem saber nada do roteiro, apenas se deixando levar pela vida da Maestro.
Um filme tecnicamente perfeito, com ares de clássico, mas ao mesmo tempo muito moderno e atual.