Stones, Macca e The Police contra… um vulcão
Em 1970, logo após o fim dos Beatles, o produtor da banda, George Martin, inaugurou em Londres o AIR Studios, que logo virou um hit entre grandes artistas. Queen, Roxy Music, T-Rex, Pink Floyd e Paul McCartney, entre muitos outros, fizeram fila para gravar no estúdio.
Mas George Martin sentia que a localização do estúdio, no meio de uma metrópole, não ajudava no foco e concentração que, segundo ele, eram necessários para fazer grandes álbuns. No fim dos anos 1970, Martin conheceu e se apaixonou por Montserrat, uma pequena ilha no Caribe, e decidiu construir um estúdio em que artistas pudessem se isolar totalmente e focar apenas na música. O resultado foi o AIR Montserrat, inaugurado em 1979.
O lugar juntava um equipamento de última geração a uma paisagem idílica, a curta distância de praias de águas cristalinas e com uma imensa piscina e um pomar. Artistas ficavam hospedados nas instalações do estúdio e dispunham de chef e ajudantes. O clima era de total relaxamento.
Logo, artistas famosos começaram a desembarcar em Montserrat: Paul McCartney, Jimmy Buffett, Stevie Wonder, Elton John, Dire Straits, Duran Duran, Stones e muitos outros, que fizeram alguns discos clássicos e que se tornaram grandes hits dos anos 1980.
O documentário “Under the Volcano” (disponível na Claro TV, Apple TV e Google Play), dirigido pela documentarista australiana Gracie Otto, conta a história do AIR Montserrat. Mais que isso: é um retrato fascinante sobre um período de bonança da indústria do disco, a década de 1980, quando álbuns históricos como “Thriller”, de Michael Jackson, e o surgimento da MTV nos Estados Unidos estabeleceram um padrão de opulência nas produções de LPs. Gravadoras passaram a investir mais dinheiro em menos títulos, e os orçamentos de produção de discos chegaram a níveis exorbitantes.
O filme traz depoimentos de artistas que participaram de gravações em Montserrat, como Mark Knopfler (Dire Straits), Sting, Stewart Copeland e Andy Summers (The Police), Nick Rhodes (Duran Duran), Jimmy Buffett, Midge Ure (Ultravox), Tony Iommi (Black Sabbath), além de músicos e técnicos que trabalharam em discos de Elton John, Stones, America e Paul McCartney.
As histórias são sensacionais: Stevie Wonder gravando “Ebony and Ivory” com Macca e deleitado os locais com uma “jam” de quatro horas num bar de beira de estrada; Elton John compondo o disco “Too Low for Zero” inteiro na ilha e celebrando com porres homéricos com vizinhos do estúdio; Mick e Keith gravando “Mixed Emotions” e promovendo a trégua nos Stones depois de anos de brigas e rumores de separação, e Mark Knopfler compondo “Walk of Life” inspirado na dança e ginga de um instrutor de windsurfe local.
A maioria dos entrevistados diz que o isolamento de Montserrat ajudou o processo de criação, mas há exceções: Nick Rhodes, do Duran Duran, autoproclamado “criatura da noite”, diz que não aguentava o clima tropical e só gravava de madrugada, diferentemente do colega Simon Le Bon, que não via a hora de terminar de gravar os vocais para curtir uma praia. Lou Reed, sorumbático como sempre, odiou o lugar: “Foi horrível, não dava para ouvir uma buzina de carro!”. A descontração dos locais assustou até mesmo o guitarrista do Black Sabbath, Tony Iommy: “Entramos no teco-teco para ir embora de Montserrat e o piloto estava fumando um baseado enorme. Um mau sinal!”.
Para quem gosta de histórias de bastidores de gravações, o filme é um deleite. Dave Johnstone (guitarrista de Elton John), Mark Knopfler e Stewart Copeland contam segredos sobre as composições e gravações de hits como “I’m Still Standing”, “Money for Nothing” e “Every Breath You Take”.
Neil Dorfsman, produtor e engenheiro de som que fez o megassucesso “Brothers in Arms”, do Dire Straits, fala sobre as técnicas de gravação do período, que considera “a era de ouro dos estúdios”. Esse disco, lançado em 1985, foi um dos primeiros gravados e mixados de forma totalmente digital. O álbum, que vendeu um total de 30 milhões de cópias, foi anunciado como uma amostra da qualidade sonora da nova tecnologia que surgia na época, o Compact Disc.
Essa guinada da música na direção do digital, segundo o filho de George Martin, o também produtor musical Gilles Martin, foi a principal razão da decadência dos megaestúdios como o AIR, ocorrida no fim dos anos 1980, quando os aparelhos de gravação diminuíram de preço e tamanho, e os estúdios, por consequência, também.
Mas o que decretou mesmo o fim abrupto do AIR Montserrat foi a natureza. Primeiro, com um furacão destruidor que varreu a ilha, seguido por uma erupção vulcânica devastadora. Não vou contar mais. Simplesmente assista.
18 comentários em "Stones, Macca e The Police contra… um vulcão"
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“Entramos no teco-teco para ir embora de Montserrat e o piloto estava fumando um baseado enorme. Um mau sinal!”. Sensacional!
Pra assustar o Tony Iommi, imagine…
Eu lembro dessa coluna. O Barça estava tão feliz com o sapeco que o Brasil tinha levando da Alemanha na Copa que topou escrever sobre o porque do ranço com Dire Straits…Pena que esse texto não está mais disponível em canto nenhum, porque era hilário demais (e olha que eu gosto de Dire Straits, hahaha)
Putz, vou ver se acho…
Barça, lembra que anos atrás saiu um DVD, “Music For Montserrat”, para angariar fundos para ajudar a ilha??? Macca, Phil Collins, Carl Perkins e outros participam…
Claro, concerto organizado pelo George Martin…
Adorei esse documentário, amo essas histórias de interação de estrelas da música com população local, me lembrou das andanças do Jimmy Page pela Bahia
Isso valia um doc!
Ah entendi André, legal, e das bandas citadas, não sei a tua opinião sobre o Police. Vc gosta da banda ou curte mais a carreira solo do Sting? Se gosta da banda, qual (is) seu (s) álbum (ns) favoritos deles?
Ouvi muito o “Ghost in the Machine”, foi um dos primeiros discos que comprei.
Excelente dica, apesar de Dire Straits ser uma das bandas mais insuportáveis da história
Também não suporto, mas as histórias são demais.
André, mas as gravadoras não eram as malvadonas que restringiam a liberdade criativa dos artistas? Que só pensavam em dinheiro e lucro fácil e rápido? Se elas eram tão ruins assim, pq bancavam o luxo de um estúdio numa ilha do Caribe com várias semanas de hospedagem para os seus contratados?
Elas não “bancavam”, os custos eram descontados do valor devido aos artistas. Contratos previam “adiantamentos”, e nesse adiantamentos os custos de produção dos discos acabavam saindo do bolso dos artistas.
Barça, lembrei de um texto que fez sobre Dire Straits, a “pedido” de um seguidor do blog, anos atrás… Hilário!!!
Putz, bem lembrado!
Barça, para quem curte realmente essas estórias é uma excelente pedida! Outro detalhe do Brothers in Arms é que a participação do Sting em Money for Nothing foi porque ele ainda estava lá em Monserrat curtindo umas férias. Um abraço!
Sim, eles contam isso no filme, muito legal.