mar/2022

Stones, Macca e The Police contra… um vulcão

Por André Barcinski

Stones, Macca e The Police contra… um vulcão

Por André Barcinski

Em 1970, logo após o fim dos Beatles, o produtor da banda, George Martin, inaugurou em Londres o AIR Studios, que logo virou um hit entre grandes artistas. Queen, Roxy Music, T-Rex, Pink Floyd e Paul McCartney, entre muitos outros, fizeram fila para gravar no estúdio.

Mas George Martin sentia que a localização do estúdio, no meio de uma metrópole, não ajudava no foco e concentração que, segundo ele, eram necessários para fazer grandes álbuns. No fim dos anos 1970, Martin conheceu e se apaixonou por Montserrat, uma pequena ilha no Caribe, e decidiu construir um estúdio em que artistas pudessem se isolar totalmente e focar apenas na música. O resultado foi o AIR Montserrat, inaugurado em 1979.

O lugar juntava um equipamento de última geração a uma paisagem idílica, a curta distância de praias de águas cristalinas e com uma imensa piscina e um pomar. Artistas ficavam hospedados nas instalações do estúdio e dispunham de chef e ajudantes. O clima era de total relaxamento.

Logo, artistas famosos começaram a desembarcar em Montserrat: Paul McCartney, Jimmy Buffett, Stevie Wonder, Elton John, Dire Straits, Duran Duran, Stones e muitos outros, que fizeram alguns discos clássicos e que se tornaram grandes hits dos anos 1980.

O documentário “Under the Volcano” (disponível na Claro TV, Apple TV e Google Play), dirigido pela documentarista australiana Gracie Otto, conta a história do AIR Montserrat. Mais que isso: é um retrato fascinante sobre um período de bonança da indústria do disco, a década de 1980, quando álbuns históricos como “Thriller”, de Michael Jackson, e o surgimento da MTV nos Estados Unidos estabeleceram um padrão de opulência nas produções de LPs. Gravadoras passaram a investir mais dinheiro em menos títulos, e os orçamentos de produção de discos chegaram a níveis exorbitantes.

O filme traz depoimentos de artistas que participaram de gravações em Montserrat, como Mark Knopfler (Dire Straits), Sting, Stewart Copeland e Andy Summers (The Police), Nick Rhodes (Duran Duran), Jimmy Buffett, Midge Ure (Ultravox), Tony Iommi (Black Sabbath), além de músicos e técnicos que trabalharam em discos de Elton John, Stones, America e Paul McCartney.

As histórias são sensacionais: Stevie Wonder gravando “Ebony and Ivory” com Macca e deleitado os locais com uma “jam” de quatro horas num bar de beira de estrada; Elton John compondo o disco “Too Low for Zero” inteiro na ilha e celebrando com porres homéricos com vizinhos do estúdio; Mick e Keith gravando “Mixed Emotions” e promovendo a trégua nos Stones depois de anos de brigas e rumores de separação, e Mark Knopfler compondo “Walk of Life” inspirado na dança e ginga de um instrutor de windsurfe local.

A maioria dos entrevistados diz que o isolamento de Montserrat ajudou o processo de criação, mas há exceções: Nick Rhodes, do Duran Duran, autoproclamado “criatura da noite”, diz que não aguentava o clima tropical e só gravava de madrugada, diferentemente do colega Simon Le Bon, que não via a hora de terminar de gravar os vocais para curtir uma praia. Lou Reed, sorumbático como sempre, odiou o lugar: “Foi horrível, não dava para ouvir uma buzina de carro!”. A descontração dos locais assustou até mesmo o guitarrista do Black Sabbath, Tony Iommy: “Entramos no teco-teco para ir embora de Montserrat e o piloto estava fumando um baseado enorme. Um mau sinal!”.

Para quem gosta de histórias de bastidores de gravações, o filme é um deleite. Dave Johnstone (guitarrista de Elton John), Mark Knopfler e Stewart Copeland contam segredos sobre as composições e gravações de hits como “I’m Still Standing”, “Money for Nothing” e “Every Breath You Take”.

Neil Dorfsman, produtor e engenheiro de som que fez o megassucesso “Brothers in Arms”, do Dire Straits, fala sobre as técnicas de gravação do período, que considera “a era de ouro dos estúdios”. Esse disco, lançado em 1985, foi um dos primeiros gravados e mixados de forma totalmente digital. O álbum, que vendeu um total de 30 milhões de cópias, foi anunciado como uma amostra da qualidade sonora da nova tecnologia que surgia na época, o Compact Disc.

Essa guinada da música na direção do digital, segundo o filho de George Martin, o também produtor musical Gilles Martin, foi a principal razão da decadência dos megaestúdios como o AIR, ocorrida no fim dos anos 1980, quando os aparelhos de gravação diminuíram de preço e tamanho, e os estúdios, por consequência, também.

Mas o que decretou mesmo o fim abrupto do AIR Montserrat foi a natureza. Primeiro, com um furacão destruidor que varreu a ilha, seguido por uma erupção vulcânica devastadora. Não vou contar mais. Simplesmente assista.

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