O filme perdido de Lou Reed e John Cale ressuscitou
Em 1º de abril de 1987, Lou Reed e John Cale se encontraram na cerimônia póstuma em homenagem a Andy Warhol na Catedral de St. Patrick, em Nova York. Warhol morrera em 22 de fevereiro de 1987, aos 58 anos, depois de complicações em uma cirurgia malsucedida na vesícula (a família de Warhol processou o hospital e o caso foi resolvido fora dos tribunais).
Só mesmo a morte de Andy Warhol teria o poder de reunir Lou Reed e John Cale. Os dois cérebros por trás do Velvet Undergound não se falavam havia pelo menos 15 anos, desde que Reed expulsara Cale da banda.
Na cerimônia, o pintor e cineasta Julian Schnabel (“Basquiat”, “O Escafandro e a Borboleta”) sugeriu a Reed e Cale que compusessem algo em tributo a Warhol. À época, tanto Reed quanto Cale estavam ocupados trabalhando em discos próprios, mas concordaram em se reunir para escrever músicas sobre aquela figura que tanto representara para os dois.
Quase dois anos depois, em janeiro de 1989, Lou Reed e John Cale se apresentaram numa igreja no Brooklyn, em Nova York, mostrando um trabalho inédito chamado “Songs for Drella”. O nome – uma mistura de Drácula com Cinderella – aludia ao apelido de Warhol dado pelo ator Ondine, figura conhecida da Factory, o quartel-general de Warhol.
Ao longo do ano de 1989, Reed e Cale compuseram outras canções e finalizaram um álbum conceitual que contava, praticamente em ordem cronológica, a vida e carreira de Andy Warhol (o disco “Songs for Drella”, a primeira colaboração de Lou Reed e John Cale desde 1968, só sairia em abril de 1990).
Antes disso, em novembro de 1989, os dois se reuniram na Brooklyn Academy of Music para quatro shows. O fotógrafo e cineasta Ed Lachman, colaborador de pesos-pesados do cinema como Paul Schrader, Todd Haynes, Sofia Coppola, Robert Altman e Werner Herzog, foi chamado para filmar os concertos, mas esbarrou nas exigências de Reed. “Ele disse que não queria ver nenhuma câmera entre ele e a plateia”, disse Lachman ao jornal “The Guardian”. “Eu pensei muito e achei uma solução. No dia seguinte, perguntei aos dois: ‘Vocês me deixariam filmar os dois ensaios, sem plateia, com as câmeras bem perto de vocês?’ Eles toparam, e assim consegui fazer o filme”.
O filme-concerto foi lançado em VHS e chegou a ser exibido – acreditem – pela TV Bandeirantes, mas sumiu de circulação por 30 anos. Nem o próprio Lachman sabia onde estava. Enquanto ajudava Todd Haynes no documentário sobre o Velvet Underground, Lachman achou os negativos do filme-concerto, e a maravilhosa notícia é que ele acaba de entrar na programação da plataforma de streaming MUBI. Revi “Songs for Drella” esses dias, depois de mais de 30 anos, e continua poderoso.
É um filme muito simples: Cale ao piano, Reed sentado tocando guitarra, com um grande telão ao fundo, onde são projetadas imagens de arquivo de Warhol, sempre referentes ao tema da música sendo tocada. Não há gruas nem câmeras fazendo piruetas. Tudo é formal, rígido, mas o resultado é tão hipnotizante quanto a música repetitiva e sublime do disco.
É curioso comparar as canções cantadas por Reed (dez) e Cale (cinco) e perceber como os estilos dos dois se complementam: Cale representou o lado mais experimental do Velvet Underground, enquanto Reed é um inigualável cronista da realidade, quase um documentarista. A união desses dois gênios mudou a música. Pena que nunca mais compuseram juntos. Só se reuniram em 1993 para uma reunião lucrativa do Velvet.
Um ótimo dia a todas e todos.
15 comentários em "O filme perdido de Lou Reed e John Cale ressuscitou"
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André, tive a impressão que Cale, de alguma maneira, intimidava Lou Reed, como Victor Brockis descreveu na Biografia Transformer : A história completa de Lou Reed
Totalmente. Reed queria ser o único manda-chuva ali, não tenho dúvida.
*tudo o que o Lou fez, na verdade.
Eu sou suspeito, gosto de tudo que o Lou faz… inclusive, gosto muito do “Lulu”, com o Metallica. O que você acha desse disco, André?
Só ouvi na época do lançamento e lembro não ter curtido.
Pois é, bons tempos em que a TV aberta, apesar da perene necessidade de audiência, ainda abria espaços para coisas não tão popularescas, principalmente as “menores”, como a Bandeirantes da época!!!
E um OT: Aguentar o Fernando Diniz no seu Flu de novo é dose pra leão hein, boa sorte e muita paciência que vão precisar!!!
Diniz é sempre com emoção.
Muito legal o texto, amarrou uma porção de pontos que eu não sabia. Assisti o Filme semana passada na Mubi, e é sensacional mesmo. Potente e emocionante, com momentos sublimes.
Cale e Reed não compunham juntos desde o Velvet, mas há um bootleg muito legal em que ambos se apresentam juntos com a Nico em 1972, no Bataclan. Disponível no Youtube em audio (e alguns poucos videos também), recomendo.
Não lembrava esse bootleg com a Nico.
Realmente o catálogo do Mubi parece ser sensacional, vou procurar saber mais sobre essa plataforma. André, por falar em filmes/séries sobre música, esse mês deve sair a série do Danny Boyle sobre o Sex Pistols, será que vai valer a pena? Claro que teve polêmica com o Johnny Rotten.
Sei não, os últimos filmes do Boyle…
Bom dia, tai Barça https://www.youtube.com/watch?v=EKwo3QFWp4c . Os olhares fulminantes de Cale para Reed e a fisionomia blasé do Lou, mantem o clima de tensão no ar. Perfeito 3 monstros indomáveis.
Os dois realmente não se bicavam.
Lembro quando passou na Band: segunda de noite, Emilio Surita apresentava o programa. Lembro de nesse ano de 1990 gravar esse show e um homevideo dos Sugarcubes. Tenho a fita até hoje, tá que é só mofo.
Adoraria ver isso, mesmo com a fita mofada. Foi o Surita que apresentou? Bizarro.