out/2021

Samuel Fuller vai mudar sua vida

Por André Barcinski

Samuel Fuller vai mudar sua vida

Por André Barcinski

Há cineastas que fazem filmes, e há cineastas que fazem o seu cinema. São artistas de estilo tão pessoal e inconfundível que basta ver alguns segundos do filme para saber quem o dirigiu. Samuel Fuller é um desses.

Em 2013, fiz um perfil de Fuller para a “Folha”:

Samuel Fuller (1912-1997) foi um dos maiores subversivos do cinema. Fez filmes esteticamente inovadores e tematicamente corajosos. Não é à toa que foi perseguido e expulso de Hollywood.

Fuller foi repórter policial, cobriu assassinatos, fotografou brigas de gângsteres e chafurdou no submundo. Lutou na Segunda Guerra e ajudou a libertar campos de concentração dos nazistas. Essa experiência marcou sua vida e seu cinema. Quando virou cineasta, no fim dos anos 1940, levou uma linguagem de tabloide sangrento para as telas.

Sam Fuller em foto de Jean Ber

Fuller fez faroestes, policiais “noir”, dramas e filmes de guerra, sempre com um estilo direto e pessoal. Odiava a assepsia do cinema comercial, que julgava “coisa de criança”. Influenciou a Nouvelle Vague (Godard o escalou para uma ponta em “Pierrot Le Fou”), Scorsese (os closes das lutas de boxe em “Touro Indomável” são puro Fuller) e Wim Wenders (Fuller fez um papel em “O Amigo Americano”). No Brasil, Rogério Sganzerla era fullermaníaco de carteirinha, e “O Bandido da Luz Vermelha”, com sua estética de “Notícias Populares”, é a maior prova disso.

Muitos chamaram Fuller de primitivista. E não deixa de ser verdade: seu cinema é primitivo, no sentido de ser rude e grosseiro, e de provocar no espectador reações instintivas. Seus filmes podem ter defeitos, podem ser desiguais e repetitivos, mas nunca são supérfluos. Samuel Fuller não é um burocrata.

A melhor introdução a Samuel Fuller é “Shock Corridor” (1963), que no Brasil foi batizado “Paixões Que Alucinam”. Está numa linda caixa de DVDs da Versátil, com mais três filmes (incluindo o soberbo “noir” “O Beijo Amargo”, de 1964), e também está no Youtube, em ótima qualidade e legendas em português.

“Shock Corridor” é um filme seminal do cinema alternativo norte-americano. Mistura drama, policial e terror, numa história que é pura paranoia: um jornalista (Peter Breck) se finge de esquizofrênico para ser internado num manicômio e investigar o misterioso assassinato de um paciente. Dentro do hospital, ele encontra ninfomaníacas, racistas, psicopatas, homens que sofreram lavagem cerebral para virar comunistas, e todo tipo de pervertidos. A investigação do crime demanda entrevistas com vários pacientes, e cada um conta uma versão diferente do ocorrido, numa narrativa que lembra muito as histórias cruzadas de “Rashomon” (1950), clássico de Akira Kurosawa.

“Shock Corridor” marca a vida de qualquer cinéfilo e muda sua concepção de “bom” cinema. Lembra a primeira vez que assistiu aos filmes da fase mexicana de Buñuel? Quando viu o menino de rua jogando o ovo na câmera em “Os Esquecidos”? Ou quando viu Jodorowsky? Paradjanov? Mojica? Ken Russell? É difícil assistir a filmes comerciais depois de conhecer esses cineastas, porque tudo parece bobo e inofensivo. E Samuel Fuller é um dos pioneiros dessa turma.

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