Samuel Fuller vai mudar sua vida
Há cineastas que fazem filmes, e há cineastas que fazem o seu cinema. São artistas de estilo tão pessoal e inconfundível que basta ver alguns segundos do filme para saber quem o dirigiu. Samuel Fuller é um desses.
Em 2013, fiz um perfil de Fuller para a “Folha”:
Samuel Fuller (1912-1997) foi um dos maiores subversivos do cinema. Fez filmes esteticamente inovadores e tematicamente corajosos. Não é à toa que foi perseguido e expulso de Hollywood.
Fuller foi repórter policial, cobriu assassinatos, fotografou brigas de gângsteres e chafurdou no submundo. Lutou na Segunda Guerra e ajudou a libertar campos de concentração dos nazistas. Essa experiência marcou sua vida e seu cinema. Quando virou cineasta, no fim dos anos 1940, levou uma linguagem de tabloide sangrento para as telas.

Fuller fez faroestes, policiais “noir”, dramas e filmes de guerra, sempre com um estilo direto e pessoal. Odiava a assepsia do cinema comercial, que julgava “coisa de criança”. Influenciou a Nouvelle Vague (Godard o escalou para uma ponta em “Pierrot Le Fou”), Scorsese (os closes das lutas de boxe em “Touro Indomável” são puro Fuller) e Wim Wenders (Fuller fez um papel em “O Amigo Americano”). No Brasil, Rogério Sganzerla era fullermaníaco de carteirinha, e “O Bandido da Luz Vermelha”, com sua estética de “Notícias Populares”, é a maior prova disso.
Muitos chamaram Fuller de primitivista. E não deixa de ser verdade: seu cinema é primitivo, no sentido de ser rude e grosseiro, e de provocar no espectador reações instintivas. Seus filmes podem ter defeitos, podem ser desiguais e repetitivos, mas nunca são supérfluos. Samuel Fuller não é um burocrata.
A melhor introdução a Samuel Fuller é “Shock Corridor” (1963), que no Brasil foi batizado “Paixões Que Alucinam”. Está numa linda caixa de DVDs da Versátil, com mais três filmes (incluindo o soberbo “noir” “O Beijo Amargo”, de 1964), e também está no Youtube, em ótima qualidade e legendas em português.
“Shock Corridor” é um filme seminal do cinema alternativo norte-americano. Mistura drama, policial e terror, numa história que é pura paranoia: um jornalista (Peter Breck) se finge de esquizofrênico para ser internado num manicômio e investigar o misterioso assassinato de um paciente. Dentro do hospital, ele encontra ninfomaníacas, racistas, psicopatas, homens que sofreram lavagem cerebral para virar comunistas, e todo tipo de pervertidos. A investigação do crime demanda entrevistas com vários pacientes, e cada um conta uma versão diferente do ocorrido, numa narrativa que lembra muito as histórias cruzadas de “Rashomon” (1950), clássico de Akira Kurosawa.
“Shock Corridor” marca a vida de qualquer cinéfilo e muda sua concepção de “bom” cinema. Lembra a primeira vez que assistiu aos filmes da fase mexicana de Buñuel? Quando viu o menino de rua jogando o ovo na câmera em “Os Esquecidos”? Ou quando viu Jodorowsky? Paradjanov? Mojica? Ken Russell? É difícil assistir a filmes comerciais depois de conhecer esses cineastas, porque tudo parece bobo e inofensivo. E Samuel Fuller é um dos pioneiros dessa turma.
18 comentários em "Samuel Fuller vai mudar sua vida"
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Shock Corridor está no youtube legendado e em boa qualidade. Acabei de assistir e é espetacular.
Paixões Que Alucinam (1963) – Legendado: https://youtube.com/watch?v=Qr7wViS6lN8
Obrigado pela dica.
Oi, André,
Está disponível na plataforma digital do Sesc o doc. A FULLER LIFE. https://sesc.digital/conteudo/cinema-e-video/cinema-em-casa-com-sesc/a-fuller-life
Cara, que sensacional isso, muito obrigado pelo toque.
Boa noite André Barcinski
Passando por aqui pra sugerir que numa próxima edição do B 3 você peça ao Benja que explique porque o Arnaldo Cesar Coelho não gosta dele,
Seguramente há uma boa história aí
Em tempo, parabéns pelo Blog e pelos podcasts, estão cada vez melhores
Abraço
Não sabia dessa. Vou perguntar.
OFF-Topic: O podcast B3 com o Barça e o Boscoli é sensacional, uma pena ter que aturar no pacote o chatissimo Benja. A participação dele é totalmente desnecessaria. Vira um tremendo sushi com Paçoca com esse mala. Mas pelo Barça vale a pena escutar.
Voltando aqui para agradecer a dica Barça, não conhecia o Fuller e estou o fim de semana mergulhado em tudo dele.
OFF: Dica de suspense totalmente diferente e com roteiro e fotografia dignos de nota “Missa da Meia-noite” Netflix) um Padre vai morar em uma pacata ilha de 125 hábitantes e em seguida vão surgindo mistériosos acontecimentos. É um misto dos Coen com Hitchcock. Mistério, suspense e um pouco de exagero que prendem demais
Boa dica, não conheço o filme, valeu.
O melhor do filme são as ninfomaníacas canibais…rs
Eu incluiria David Lynch nessa turma de cineastas “malucos” e geniais Barça. Você curte os filmes dele?
Adoro. Tem razão, ele entraria fácil numa lista dessas.
O Carlos Reichenbach gostava tanto do Fuller que o homenageou em Anjos do Arrabalde colocando seu nome num grupo escolar de periferia: Escola Estadual Samuel Fuller!
Muito bem lembrado!
Interessante, não sabia disso. A homenagem foi copiada no Bacurau (no caso, o grupo escolar tem o nome do John Carpenter). Reichenbach precisa sempre ser revisitado, grande cara e cineasta.
Saudades do Carlão, era muito legal conversar sobre cinema com o cara.
Imagina se existisse de verdade uma escola chamada Samuel Fuller, seria muito louco estudar lá, com certeza hehehehe
André, um OT: Ouvindo o B3 dessa semana (apesar do mala sem-alça do Benjamim Back) você disse que está fazendo um projeto sobre o Renato Russo. Que projeto seria esse: Um doc? Um livro? Uma minissérie? Ou por contrato, você não pode dizer?
É uma série documental sobre o cara, tá ficando bem legal. Deve estrear em breve.