Roger Corman e Zé do Caixão: quando monstros se encontram
A plataforma Belas Artes à La Carte exibe, até 1º de dezembro, um documentário muito divertido e informativo: “O Mundo de Corman: Proezas de um Rebelde de Hollywood”, sobre o produtor e diretor Roger Corman.
Corman tem 95 anos e já dirigiu e produziu mais de 300 filmes. Foi um dos grandes nomes do cinema independente. Nos anos 50, época em que os grande estúdios mandavam em Hollywood, ele já produzia seus próprios filmes, todos baratos e muito lucrativos.
Foi Corman quem deu o primeiro emprego a talentos como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Jack Nicholson, Peter Fonda, Bruce Dern, Robert De Niro, Peter Bogdanovich, James Cameron, Jonathan Demme, Monte Hellman e dezenas de outros.
Conhecido tanto por sua avareza quanto por sua capacidade de fazer filmes que parecem ter custado muitas vezes seu orçamento real, Corman sempre viveu à margem de Hollywood.
Conheci bem Corman. Em 1994, ajudei a organizar retrospectivas dele em São Paulo e Rio e o acompanhei durante uma semana no Brasil. O ponto alto da viagem foi um almoço numa cantina do bairro do Bixiga, em São Paulo, que reuniu Corman, o nosso José Mojica Marins e o norte-americano Mike Vraney, dono de uma distribuidora de filmes que havia lançado os filmes de Zé do Caixão nos Estados Unidos. Fiquei só ouvindo as histórias maravilhosas e traduzindo o papo para Mojica.
Em determinado ponto do almoço, Corman perguntou a Mojica se estava preparando algum filme novo. Mojica disse que não, porque o mercado de filmes no Brasil estava paralisado. Corman perguntou: “Quanto custa um de seus filmes?” Mojica pensou alguns segundos e chutou um valor que equivalia, na época, a uns 100 mil dólares. “Só isso?”, surpreendeu-se Corman. “Você faz filmes mais baratos que os meus! Se for só isso, pode contar comigo, eu banco seu próximo filme!” Vraney ficou tão emocionado que propôs um brinde: “Já posso morrer! Presenciei um acordo de produção envolvendo Roger Corman e Zé do Caixão!”
O tal filme, claro, nunca saiu.
Se você lê em inglês, recomendo, além de ver o documentário, a ler “How I Made a Hundred Movies in Hollywood and Never Lost a Dime”, a autobiografia que Roger Corman lançou em 1998.
O título – em tradução literal, “Como Fiz Cem Filmes em Hollywood e Nunca Perdi Um Centavo” – é mentiroso: Corman já perdeu dinheiro em um filme, um drama sobre racismo chamado “The Intruder” (1962), estrelado por William Shatner.
Curiosamente, é um de seus melhores filmes. “Foi o único filme que eu fiz pensando mais em mim do que no público”, disse Corman. “Nunca cometi o erro de novo.”

Uma das melhores histórias do livro é a da filmagem de “Atlas”, um épico que Corman decidiu fazer na Grécia, em 1961, aproveitando a popularidade dos filmes de Hércules. Ele pediu ao produtor local 500 figurantes para rodar uma cena de batalha. Mas o sujeito só trouxe 50. Quando percebeu, Corman mudou o roteiro para incluir um diálogo em que um centurião se dirigia aos soldados: “Atenção, homens, mesmo em número pequeno, vamos invadir a cidade. Cada um de vocês terá de lutar por dez!”
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