Redescobrindo Bola Sete, gênio brasileiro do violão
No fim dos anos 1950, um executivo da rede de hotéis Sheraton estava no Rio de Janeiro e viu um show do violonista Djalma de Andrade, mais conhecido por Bola Sete. Impressionado, o executivo convidou o músico para se apresentar em alguns hotéis da rede na Califórnia. Bola Sete foi e nunca voltou. Morreu de câncer em 1987, depois de uma carreira de quase 30 anos nos Estados Unidos.
Nesse tempo, Bola Sete se apresentou no Monterey Jazz Festival, influenciou Carlos Santana e John Fahey (que chegou a lançar discos de Bola Sete) e foi “adotado” artisticamente por ninguém menos que Dizzy Gillespie. Em 1962, Dizzy estava se apresentando em São Francisco, na Califórnia, quando entrou num restaurante e ficou chapado com o virtuosismo e sonoridade do violonista que tocava. Era Bola Sete. Dizzy chamou o pianista de sua banda, o argentino Lalo Schifrin, para ver, e Schifrin – que depois ficaria ultrafamoso como compositor de temas para cinema, como “Missão Impossível” e a série “Dirty Harry” – também ficou estupefato com o que ouviu. Dizzy levou o brasileiro para gravar em Nova York e foi o responsável por sua apresentação no Monterey Jazz Festival, no mesmo ano.
Se você lê inglês e quer saber mais sobre a carreira internacional de Bola Sete, recomendo este perfil escrito por Andrew Gilbert para o site Classical Voice.
No fim de 2021, a gravadora norte-americana Tompkins Square lançou “Bola Sete – Samba in Seattle: Live at the Penthouse – 1966-1968”, um CD triplo com as melhores gravações dos shows que Bola Sete – acompanhado por outros dois músicos brasileiros, o baixista Sebastião Neto e o baterista Paulinho Magalhães – fez na casa de jazz The Penthouse, em Seattle.
Ouça Bola Sete, Neto e Magalhães entortando “O Barquinho”, clássico bossanovista de Menescal e Bôscoli:
Uma das parcerias musicais mais importantes da carreira de Bola Sete foi com o pianista norte-americano Vince Guaraldi, com quem gravou cinco LPs na década de 1960 (Guaraldi ficou famoso como compositor das trilhas dos especiais de TV do desenho animado “Peanuts”, tirado dos quadrinhos de Charles M. Schulz).
Veja Bola Sete e Vince Guaraldi tocando “Star Song”, em 1963.
Espero que o lançamento do disco ao vivo em Seattle seja o início da “redescoberta” de Bola Sete, especialmente no Brasil, onde ele ainda é, infelizmente, muito pouco falado.
9 comentários em "Redescobrindo Bola Sete, gênio brasileiro do violão"
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Valeu demais. Nunca tinha ouvido falar dele e já é.a melhor descoberta do ano.
Esse é mais um mistério da música brasileira. Como um músico desse nível mal é conhecido em seu próprio País??
São muitos os exemplos, infelizmente.
Grande Bola Sete, que aproveitou a onda da Bossa Nova, e junto com o Sérgio Mendes, Eumir Deodato, Tom Jobim, entre outros, foi se estabelecer em definitivo em terras americanas, fazendo coisas e influenciando gente que a o público nem imagina a ligação….
Bola 7 e 4 Trombones e Bola 7 á a Bola da Vez são sensacionais e essenciais
Grande texto, André! Conhecia Bola Sete justamente das parcerias dele com Vince Guaraldi.
Aproveitando: Devo confessar que senti falta de um texto seu falando sobre a Elza Soares e alguma história curiosa que talvez tenha graças a sua extensa pesquisa sobre a música brasileira.
Cara, não escrevi sobre a Elza porque estou envolvido num projeto de que ela participou – uma série sobre Renato Russo – e que está embargada judicialmente. Muito chato isso.
Grande dica. Eu ja’ tinha visto entrevistas do Carlos Santana citando o Bola Sete como influência. Tem um disco dele com o Baden Powell tocando classicos do Jazz, vale a pena também.
Sim, o Santana aparece no livreto falando do Bola Sete.