Que tal uma sessão tripla de Nick Cave?
Há pouco mais de um mês, entrevistei o cineasta australiano Andrew Dominik sobre “This Much I Know To Be True”, documentário sobre a colaboração de Nick Cave com Warren Ellis (leia aqui). O filme está na plataforma MUBI.
Acontece que o MUBI, inteligentemente, programou também o filme anterior de Dominik, “One More Time With Feeling” (2016), outro documentário sobre Cave. Vistos na sequência, formam uma sessão dupla que documenta os últimos seis ou sete anos da carreira do cantor e compositor.
“One More Time With Feeling” é lindo, fotografado num preto e branco altamente contrastado, e captura Cave durante a gravação do álbum “Skeleton Tree”. O disco foi marcado por uma grande tragédia na vida do artista, a morte do filho, Arthur. À época do lançamento do filme, escrevi:
“Skeleton Tree”, novo disco de Nick Cave – e o 16º com a banda The Bad Seeds – abre com uma faixa chamada “Jesus Alone”. O primeiro verso da letra diz: “Você caiu do céu / e se espatifou num campo / próximo ao rio Adur” (“You fell from the sky / crash landed in a field / near the river Adur”).
Para um ouvinte qualquer, o verso não é muito diferente de centenas de outros escritos por Cave em sua carreira de quase 40 anos, com o poder descritivo e quase jornalístico de suas letras, que transporta o ouvinte imediatamente para uma cena saída da imaginação do autor. Para quem está familiarizado com as circunstâncias sob as quais o disco foi composto, no entanto, ouvir uma frase dessas é um soco no estômago.
Em julho de 2015, o filho de Cave, Arthur, de 15 anos, morreu ao cair acidentalmente de um penhasco próximo a Brighton, onde mora a família. O rio Adur corta a região de Sussex, onde fica Brighton. Nick Cave e seus parceiros do Bad Seeds já trabalhavam no disco quando a tragédia aconteceu. Cave reescreveu várias letras do álbum, incorporando às canções uma poética dilacerante. O resultado é extremo até para um compositor acostumado ao lúgubre e sombrio. Com a sonoridade espartana e atmosférica do disco, cheio de texturas eletrônicas, quase “ambient”, “Skeleton Tree” é um dos trabalhos mais tristes de Cave, mas lindo em sua crueza.
Para evitar dar entrevistas sobre o disco e falar com a imprensa sobre a morte do filho, Cave convidou o cineasta Andrew Dominik (“O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”) para filmar as gravações de “Skeleton Tree”. O resultado é o documentário “One More Time With Feeling”.
E se você não teve uma overdose de Nick Cave depois de ver esses dois filmes, recomendo procurar o melhor documentário feito sobre o artista: “20000 Days on Earth” (2014), dirigido porJane Pollard e Iain Forsyth. Em 2014, escrevi sobre o filme:
É um dos melhores filmes do ano. Talvez o melhor. Chamá-lo de “documentário” não é correto. “Filme-ensaio biográfico” chega mais perto da verdade. Dirigido por Jane Pollard e Iain Forsyth, um casal talentoso que já colaborou em projetos audiovisuais com Gill Scott-Heron, Scott Walker e Jason Pierce (Spiritualized), o filme tenta captar a essência do que é ser Nick Cave. O resultado é fascinante – e aterrador.
Nem sinal daquelas entrevistas posadas em que amigos, parentes e especialistas falam, com voz de Deus, sobre Nick Cave e sua obra. As conversas do filme são realizadas em ambientes inusitados: o próprio Cave é mostrado em sessões com um psicanalista, em que lembra a infância, fala das inspirações para suas músicas, de seus problemas com heroína, da família e de suas mulheres. Cave conta ao doutor que um de seus passatempos prediletos de infância em Wangaratta, sudeste da Austrália, era correr com amiguinhos em uma ponte sobre um rio e pular segundos antes de ser atropelado por um trem. “As crianças de hoje não experimentam mais o perigo, e acho isso muito ruim.” Logo depois, Cave aparece com os dois filhos pequenos assistindo a “Scarface”, de Brian De Palma.
O próprio cantor “entrevista” alguns amigos e colaboradores, como o ator Ray Winstone, a popstar Kylie Minogue e o músico Blixa Bargeld (Einstürzende Neubauten), seu ex-parceiro por 20 anos no Bad Seeds. Esses papos são antológicos. Cave aproveita a conversa com Blixa para resolver uma questão que o atormenta há anos: “Blixa, por que você deixou o Bad Seeds?” Blixa responde que não se sentia capaz de manter o “casamento” com duas bandas e optou pelo Neubauten, mas aproveita para dar uma cutucada em Cave: “No último disco que fiz com vocês (“Nocturama”, 2003), senti que já não havia aquela colaboração intensa de antes. Você chegou com ideias pré-definidas sobre como seria o álbum.” Cave faz um mea culpa e depois diz: “Sabe, às vezes ouço os discos que fizemos juntos (foram 12) e penso como teria sido bom ter alguém para editar as músicas, que cortasse as canções de seis para quatro minutos, alguém que editasse nosso trabalho. Hoje em dia, sou obcecado por edição e concisão.”
É muito raro ver dois grandes artistas se expondo dessa maneira. Visualmente, “20,000 Days on Earth” não poderia ser mais bonito. Uma sequência que mostra Cave visitando seu parceiro musical Warren Ellis em uma mansão à beira de um penhasco no sul da França é impressionante, assim como imagens dos Bad Seeds gravando o disco “Push The Sky Away” e algumas cenas de shows, incluindo uma arrebatadora versão de “Jubilee Street” filmada na Austrália. Veja e chore:
“No fim das contas, não me interesso por aquilo que compreendo totalmente”. Lindo. O filme é inventivo, informativo, e mostra como o cinema documental pode surpreender, sem apelar a clichês televisivos.
“20000 Days on Earth” pode ser alugado na plataforma do In-Edit TV. Não deixe de assistir.
Um ótimo dia a todos.
8 comentários em "Que tal uma sessão tripla de Nick Cave?"
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Assisti “20000 Days on Earth”, e realmente é muito bom! inclusive comprei na loja da Apple, vou rever e também vou assistir essas duas indicações. Vlw Barça!
Muito brigado!
Barça, pemita-me um off-topic a respeito do Raul Seixas: em um trecho de entrevista à Revista Bizz em 1986, reproduzido em seu livro, o cantor reflete sobre a apropriação da contracultura pelo mainstream, em que a geração hippie e os punks acabaram se tornando produtos de consumo para massa. Minha dúvida é: ao participar de forma performática em clipes no Fantástico para tocar Gita e Sociedade alternativa, não teria sido ele também partícipe desse processo, tornando, mesmo que de forma inconsciente, seu discurso revolucionário em algo domesticável por um programa de TV em horário nobre ?
Cara, isso rolou em 74, não havia nem punk ainda e o conceito de contracultura, pelo menos no Brasil, estava engatinhando. Não havia essa cisão entre imprensa alternativa e mainstream. O Paulo Coelho escrevia na “Pomba” e no “Globo”.
E o melhor de tudo (pra você)… Cave é Tricolor Carioca. Nick Cave é um daqueles raros artistas que jamais lançaram um trabalho ruim, na minha opinião.
Boa!
(acabei de receber “Pavões. Misteriosos” ,nem abri ainda , mas tá bonito demais.
O documentário 20.000 Days on Earth está disponivel para para alugar na plataforma do IN-EDIT TV.
Que maravilha, muito obrigado, vou mudar no texto!