ago/2022

Quando Sam Peckinpah deu uma banana pra Hollywood

Por André Barcinski

Quando Sam Peckinpah deu uma banana pra Hollywood

Por André Barcinski

Um filme marcante e pouco falado dos anos 70 está na íntegra – e com legendas em português! – no Youtube. Algum iluminado subiu uma cópia linda de “Tragam-Me a Cabeça de Alfredo Garcia” (1974), de Sam Peckinpah, e sugiro você não deixar de assistir.

Chamado de “o poeta da violência”, Peckinpah (1925-1984) criou um estilo visual poderoso e histórias sobre homens sem esperança. Influenciou Tarantino, John Woo, Takeshi Kitano, Brian de Palma e todo o cinema de ação pós-70.

Sua marca registrada é a montagem fragmentada, em que a mesma cena é filmada de vários ângulos, com lentes variadas e diferentes velocidades, e montada de forma a obter máximo de impacto visual. Nos filmes de Peckinpah, tiroteios parecem balés. Ninguém jamais usou a câmera lenta como ele.

O tema central de sua obra é o homem em um mundo hostil. Seus personagens parecem viver na época errada: são velhos desesperançados habitando o crepúsculo da vida. Não há jovens ou alegria no mundo de Peckinpah.

Em 2010, escrevi sobre o lançamento em DVD de “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia”:

Quando lançado, em 1974, “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia”, de Sam Peckinpah, provocou reações extremadas. Alguns o consideraram uma obra-prima. Outros o elegeram um dos piores filmes já feitos.

O cineasta japonês Takeshii Kitano diz que é seu filme predileto. O ator Tommy Lee Jones gostou tanto que o copiou descaradamente em “Três Enterros”, seu único longa como diretor. Quentin Tarantino, Martin Scorsese, Brian De Palma e John Woo são fãs. Quem somos nós para discordar?

Mais que um filme, “Alfredo Garcia” é um grande “foda-se” de Sam Peckinpah para Hollywood.

Um ano antes, o diretor teve seu “Pat Garrett & Billy the Kid” (outro filmaço) retalhado pelo estúdio em quase 20 minutos. Deprimido, ele se afundou na bebida.

Decidido a não trabalhar mais em Hollywood, Peckinpah foi para o México, contratou uma equipe local e filmou “Alfredo Garcia”.

Nas primeiras cenas, somos apresentados a um poderoso senhor de terras mexicano. Ele chama a filha, grávida, para uma conversa. Quer saber quem a engravidou. A menina se recusa a entregar o rapaz. O pai então manda dois capangas espancarem a menina. Sua própria filha, grávida. Os jagunços sentam a mão na coitada. Ela confessa: foi Alfredo Garcia. O chefão põe um prêmio na cabeça do galã. Imediatamente, toda a escória do México e dos Estados Unidos parte atrás do tal Alfredo. E isso é só o começo da história…

A estranheza do filme se dá logo nas primeiras imagens. De início, temos a impressão de que estamos em algum rincão do deserto mexicano no fim do século 19. As imagens são puro faroeste. Peckinpah corta então para a cena de um avião decolando. Estamos em 1970. A brutalidade, diz o diretor, não mudou nada nos últimos cem anos. O mundo de Peckinpah parou no tempo.

Só alguém que não tem nada a perder poderia fazer um filme tão delirantemente abjeto. Os cenários são bordéis infectos, cemitérios poeirentos e bares criminosos de beira de estrada. Os heróis são um músico cafetão (o glorioso Warren Oates, que merecia uma estátua) e sua namorada, uma prostituta (Isela Vega).

O casal parte atrás de Alfredo Garcia. No caminho, encontram motoqueiros estupradores, matadores de aluguel, pistoleiros bêbados e toda sorte de tipos suspeitos. Pessoas são enterradas vivas. Famílias são aniquiladas. O filme vira um pesadelo lisérgico pelos cantos mais horripilantes do México. Uma “bad trip” inesquecível.

Os bandidos de Peckinpah são iguaizinhos aos gângsteres dos filmes policiais da nossa Boca do Lixo. Quem já viu filmes de Chico Cavalcanti, Candeias ou Mojica vai reconhecer os tipos, de bandana e bigodes à Rivelino, com camisas abertas no peito, medalhões e sapatos bico fino, carregando velhos 38. É isso: em “Alfredo Garcia”, Sam Peckinpah trocou Hollywood pela Boca do Lixo. Palmas pra ele.

Veja aqui o filme:

Uma ótima semana a todas e todos.

16 comentários em "Quando Sam Peckinpah deu uma banana pra Hollywood"

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