abr/2022

Quando o pop brasileiro era rico

Por André Barcinski

Quando o pop brasileiro era rico

Por André Barcinski

Não há dúvida de que o período entre 1970 e 1976 foi uma era de ouro para o pop brasileiro, quando artistas como Secos e Molhados, Raul Seixas, Jorge Ben, Tim Maia, Gal Costa, Caetano, Gil, Mutantes, Belchior, Novos Baianos, Fagner e tantos outros fizeram seus melhores discos.

Mas a fase de bonança financeira da indústria musical brasileira foi, sem dúvida, a década de 1980, quando as majors internacionais despejaram um caminhão de dinheiro em busca da supremacia do disputado mercado nacional. Isso se refletiu em discos caros e produções sofisticadas. Produtores como Mazzola, Liminha, Helio Costa Manso e outros começaram a gravar no exterior, usando o que havia de mais moderno e caro.

Outro dia, estava ouvindo um disco de que gosto muito, “Masculino e Feminino”, de Pepeu Gomes. Lançado em 1983, foi o primeiro disco de Pepeu pela poderosa CBS, e o trabalho que solidificou o ex-Novo Baiano como um artista pop de grande apelo comercial. O LP foi gravado em Los Angeles e trouxe dois grandes sucessos radiofônicos, “Masculino e Feminino” e “Deusa do Amor”.

“Masculino e Feminino” é um exemplo perfeito da busca por uma sonoridade mais pop e bem produzida. E basta ver o encarte, com a lista de músicos e técnicos que trabalharam na gravação, para ter uma ideia da pujança da produção. Vamos à lista:

Ronnie Foster (produtor) A produção ficou a cargo de Foster, um pianista e organista que gravou pelo icônico selo de jazz Blue Note e gravou e tocou com George Benson, Stevie Wonder e Roberta Flack, entre muitos outros.

“Ready” Freddie Washington (baixo) Renomado musico de estúdio que gravou e tocou com Michael Jackson, Herbie Hancock, Lionel Richie, Anota Baker, B.B. King, Elton John, Whitney Houston, etc.

Bill Reichenbach Jr. (trombone) Filho do lendário baterista Bill Reichenbach, que tocara com Tommy Dorsey e Sinatra antes de gravar, em 1962, com Stan Getz, o seminal álbum “Jazz Samba”, que apresentou a bossa nova ao mundo, Júnior acompanhou e gravou com Dolly Parton, Cher, Donna Summer e Michael Jackson.

Gary Grant (trompete) Um dos músicos mais requisitados para gravações de trilhas sonoras, Grant tocou na trilha de “O Guarda-Costas”, “Forrest Gump” e “Men in Black”, além de ter trabalhado com Quincy Jones, Barbra Streisand, Michael Jackson, Cher, Aerosmith e Elton John.

Jerry Hey (sopros) O currículo de Hey é incomparável: tocou em “Thriller”, de Michael Jackson, em 13 álbuns do Earth, Wind & Fire, dez álbuns de Luis Miguel, além de discos com Aretha Franklin, Elton John, Bob Seger, Dionne Warwick, Paul McCartney e B.B. King, entre centenas de outros.

John “JR” Robinson (bateria) Outro músico com currículo fraquinho: tocou só em “Off the Wall”, de Michael Jackson, foi um dos bateristas da faixa “We Are the World”, gravou com Daft Punk, Madonna, Peter Frampton e Whitney Houston, é um dos bateristas prediletos de Quincy Jones, e foi escolhido pela revista “Rolling Stone” o 81º melhor baterista da história.

Larry Williams (sopros) Ás de estúdio e shows, tocou com Al Jarreau, David Crosby, Lionel Richie, Michael Bolton, Minnie Riperton, Natalie Cole, Olivia Newton-John, Pink Floyd, além de ter tocado sax tenor, flauta e teclados num disquinho chamado “Thriller”.

Abraham “Abe” Laboriel (baixo) Outro músico de categoria duvidosa, tocou com artistas desconhecidos como Ray Charles, Michael Jackson, Herbie Hancock, Lalo Schifrin, Madonna, Paul Simon e um tal de Stevie Wonder. Foi escolhido pela revista “Bass Player” o 42º melhor baixista de todos os tempos.

Julia e Maxine Waters (vocais) Metade do grupo vocal e familiar conhecido por “The Waters”, Julia e Maxine têm suas vozes eternizadas em discos de Adele, George Harrison, Julio Iglesias, Donna Summer, Smokey Robinson e Bruce Springsteen.

Marva Holcolm (vocais) Gravou e fez shows com Stevie Wonder, La Toya Jackson, Jimmy Cliff e Dave Grusin, entre muitos outros.

Carmen Beth Twillie (vocais) Gravou com Whitney Houston, Celine Dion e Pink Floyd, mas você certamente a ouviu na trilha de “O Rei Leão”. Ela cantou só a música principal, “The Circle of Life”, de Elton John e Tim Rice. Só isso.

Um ótimo fim de semana a todos.

13 comentários em "Quando o pop brasileiro era rico"

  • acho engraçado também como vários desses músicos não tinham muito apreço pela própria música que gravavam, pelo menos o pessoal do jazz tinha meio que vergonha de pop, era um troço “sujo”. Dizem que James Jamerson odiava pop e não tava nem aí pra todas as linhas clássicas de baixo que criou e que nós fãs de pop idolatramos.

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    Luiz Santos Resende

    Oh Barça nunca prestei atenção nesta constelação absurda de músicos neste disco do Pepeu Gomes, curto um monte Novos Baianos e a carreira solo dele, vou dar uma ouvida para recordar está disco. Valeu.

  • Barça, ansioso pra comprar o Pavões Misteriosos, será minha primeira leitura, quando fui comprar já estava esgotado. Quanto à biografia do Mojica, há previsão de relançamento ?

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    Rogersousa@gmail.com

    Minha nossa, que cast! Seria o ápice da carreira de qualquer artista global gravar com um time desses! E esse disco é demais mesmo!

    Assisti o Pepeu ao vivo uns meses antes da pandemia, com os irmãos Jorginho e Didi como parte da banda. Foi demais, ele ainda manda muito!

  • Abe Laboriel Jr. toca bateria na banda de Paul McCartney há anos… uma delícia ler esse texto, me lembrou da leitura do seu livro “Pavões Misteriosos”. Abração, mestre.

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    Joao Gilberto Monteiro

    André, realmente esse time que o Pepeu Gomes reuniu para o seu disco, é espetacular, parece a escalação atual do Manchester City!!!!

    Mas o pop brasileiro atual (pelo menos o do mainstream), também não é rico (financeiramente falando? Não é feito muito investimento para alavancar a carreira da Anitta, Pabblo Vittar, Ludmilla, Luísa Sonza, entre outors e outras?

    Sem contar o tanto de grana de “origem duvidosa” injetada no sertanejo, na pisadinha e no funk, as nossas músicas pop atuais?

  • Barça, você sempre menciona os músicos de estúdio e tenta dar o devido crédito, o que é justo. Antigamente o nome deles nem aparecia no encarte. Mas eu sempre me pergunto, esses músicos de estúdio, ou até mesmo os que acompanham a banda em turnês mas não fazem parte oficialmente da banda, por que são tão menosprezados? É porque eles são substituíveis?

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