mar/2022

Por que não ligo mais pro Lollapalooza

Por André Barcinski

Por que não ligo mais pro Lollapalooza

Por André Barcinski

Começa hoje o Lollapalooza Brasil, em São Paulo. Para quem vai, desejo um bom show e espero que aproveitem muito. Estarei em casa, vendo a festança pela TV ao lado dos filhos pequenos, que estão loucos para ver Doja Cat, Miley Cyrus e Strokes.

Aliás, levar os filhos é a única razão pela qual eu cogitaria ir a um festival desses hoje em dia. Estamos pensando até em ir ao Rock in Rio, porque eles estão implorando para ver a Dua Lipa.

Festivais de música – pelo menos os grandes festivais – viraram isso: um parque de diversões familiar, um divertimento seguro e limpinho, feito para vender patrocínios.

Para quem viu o Lollapalooza em seus primórdios, é um choque testemunhar o que ele se tornou.

Meu primeiro Lollapalooza foi há exatos 30 anos, em 1992. Era a segunda edição do festival, que havia sido criado um ano antes pelo líder da banda Jane’s Addiction, Perry Farrell, inspirado nos shows do Demolition Center, um grupo de anarquistas malucos que, no início da década de 1980, promoveu concertos alternativos em locações inusitadas como o Deserto de Mojave e um barco na Baía de San Pedro, na Califórnia. As atrações eram Sonic Youth, Meat Puppets, Einsturzende Neubauten, Minutemen e outros ícones do underground.

Até 1995, o Lollapalooza representou a cena alternativa. Quem ia ao festival estava buscando conhecer bandas novas, que fugiam à programação das rádios mais populares e da mídia mainstream. Nos palcos secundários, vi Moby, Rage Against the Machine, Cypress Hill, Flaming Lips, Sebadoh, Royal Trux, Luscious Jackson, Treponem Pal, Café Tacuba, Girls Against Boys, Stereolab e muitos outros.

Com o sucesso de Nirvana e da cena grunge, a música alternativa foi completamente dominada por grandes gravadoras, que contrataram bandas a rodo e compraram muitos selos independentes. E isso se refletiu no Lollapalooza, que passou a ter uma preocupação mais comercial.

Leia aqui um texto que escrevi em 2016 sobre o Lollapalooza de 1996, que teve como atração principal o Metallica e foi considerado o ponto de virada na comercialização do festival.

O que aconteceu com a cena da música alternativa nos últimos 25 anos, todo mundo sabe: grandes corporações de entretenimento contrataram milhares de artistas, compraram casas de shows, estações de rádio, revistas e sites de música.  Hoje, três ou quatro empresas controlam os maiores eventos musicais do mundo. A Live Nation comprou o Lollapalooza, Bonnaroo, Austin City Limits e o festival de música eletrônica EDC. A AEG Live é dona do Coachella, Stagecoach e do Desert Trip. A SFX é dona de dois imensos festivais de música eletrônica, Tomorrowland e Electric Zoo, e comprou 50% do Rock in Rio.

Com isso, houve uma padronização nas escalações dos festivais. Artistas são escalados de acordo com suas conexões a determinadas corporações. O Foo Fighters é uma grande atração em qualquer lugar do mundo, mas é bom lembrar que o merchandise e licenciamento da banda são gerenciados pela Live Nation, dona do Lollapalooza.

Leia aqui um texto que fiz sobre a padronização dos line-ups de festivais em todo o mundo.

Hoje, esses festivais perderam totalmente a relevância artística que tiveram um dia. Em 2016, até o jornal “The New York Times”, que está longe de ser um baluarte da cena de música independente, desistiu de cobrir grandes festivais como Coachella e Bonnaroo. E justificou: “Em termos numéricos, festivais como Bonnaroo e Coachella são eventos importantes, atraindo 80 mil a 90 mil pessoas por fim de semana. Ainda são ritos de passagem para jovens universitários, mas não significam muito para críticos musicais. Suas escalações costumavam ser excitantes, se excitante significa especial, e especial significa raro, e raro significa relevante. Mas não são mais. (…) Festivais são um negócio grande demais para não ser homogeneizado e adaptado ao mainstream. Nenhum cliente em potencial pode sair insatisfeito.”

Hoje, nem o próprio Perry Farrell liga para a escalação do Lollapalooza: “Não estou mais interessado na escalação do festival, porque sei que está em boas mãos”, disse à revista “Billboard”.

Concordo com Perry Farrell: também não me importo. Nos últimos anos, só fui por obrigação profissional. E mesmo que, perdido no meio do gigantesco line-up, eu possa encontrar uma ou outra banda que gostaria de ver, não vou pagar quase um salário mínimo para vê-la às três da tarde, tocando por 45 minutos num palco decorado com anúncio de batata frita.

Um ótimo fim de semana a todos.

30 comentários em "Por que não ligo mais pro Lollapalooza"

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    Fernandocolugnati

    Eu morava em Atlanta em 2004, e fiquei super empolgado com o Line up, SY, NIN, Janes, etc…corri pra comprar o ingresso e tals e….foi cancelado. Os ingressos encalharam, o que mostrava já o quase enterro da marca. O melhor dia seria no dia do meu aniversário. Fiquei decepcionado, mas pra compensar rolou nesse mesmo dia um show do SY, em lugar fechado, da turnê do Nurse. Saí ganhando, pois fiquei literalmente no pé do Lee e da Kim. Logo depois, começaram as franquias mundiais, incluindo SP.

  • Eu não consigo nem acompanhar mais pela TV. Um dos poucos momentos que vi e estava gostando foi o DJ Marky mas infelizmente a transmissão da apresentação dele foi interrompida pra mostrar a de uma cantora TikToker. A principal caracteristica dela, segundo a “primorosa” cobertura era “gostar de cachorros”. Que fofo!!!

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    Dico27@gmail.com

    Tá difícil mesmo ir. Fui em todos no Brasil (10), e o gráfico de qualidade é downhill total…. No 2 por exemplo teve flaming lips, qotsa, nas, Franz Ferdinand, hot chip, crystal castles… um monte de bandas de qualidade que estavam no auge sensuais carreiras. Não é questão de ser um festival pra adolescentes ou famílias, e sim um festival para quem gostava desse nicho de música seja adolescente ou idoso. Imagino o time responsável por escalar as atrações cruzando dados do seu público demográfico com métricas (plays) do Spotify sem qualquer critério de qualidade ou visão do todo. E Hoje além de ser mainstream no pior sentido da palavra, elitista, caro e tudo mais, é ridículo como alguns artistas querem trazer um verniz de “subversão” gritando “ei bolsonaro VTNC”

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    Renato Lima Duarte

    Os Rock In Rio de 85 , 91 e 2001 ainda tiveram relevância. Os de 2011 em diante adotaram a fórmula descrita por você. Só uma observação em relação ao Metallica. Era uma banda underground até o disco And Justice for All…Depois teve um crescimento exponencial. Devido ao Black Album ganhou muitos fãs. Realmente em 96 já não era uma banda alternativa ou underground. Eu tenho uns amigos que tem um gosto musical mais popular. Pagode, funk, sertanejo e etc. Entre os CDs desses estilos tem um do Metallica.

  • A única possibilidade de eu sair de casa pra ver um show hoje em dia é se o Slowdive der as caras por aqui, do contrário sem chance de ver festival e outra André, repare nas matérias dos grandes portais, falam de tudo, moda, curiosidades das atrações, cor da cueca do namorado da nova estrela, menos de música, dos álbuns e da carreira. Triste.

  • O que eu acho estranho é que com esse tanto de patrocínio o ingresso deveria ser mais barato não? A pessoa paga caro no ingresso e ainda precisa ver um monte de propaganda.

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      Andre Barcinski

      Nunca fui, mas ouço falar bem do Desert Daze, Nox Orae, Valada (Portugal), e na Bélgica, se não me engano, tem um chamado “África Fest”, só de música africana.

  • Moro perto do autódromo e pude ver que os palcos estão quase se perdendo e ficando em segundo plano dentro do emaranhado de atrações, como roda gigante, tirolesa, lojas, restaurante e afins, triste.

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    Joao Gilberto Monteiro

    André, um OT: Sei que vc curte o tênis e as histórias de tenistas, e o que vc achou da aposentadoria precoce da Ashleigh Barty, no auge da carreira, como a número 1 do mundo?

  • André, o Austin City Limits não era um festival que você sempre recomendava? Ou estou confundindo?

    É o que você acha do Primavera Sound que terá um edição em São Paulo esse ano?

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    Joao Gilberto Monteiro

    André, a cada Lollapallooza ou Rock in Rio que acontece, eu tenho a impressão de estar ficando cada vez mais velho, pois não conheço quase nenhuma banda ( do Lolla 2022, eu só conheço mesmo a obra dos Strokes, o Foo Fighters, a Miley Cyrus e o Emicida, e conheço a figura pública de Pabllo Vittar e do pai do filho da Rihanna), de resto nunca vi nem ouvi falar, e tô bem por fora até para ver na TV, prefiro ver as semifinais do Campeonato Paulista…

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    Andre Luiz Antunes De Oliveira

    E aí Xará, beleza?
    Penso que é reflexo também da atual geração de adolescentes e jovens que não conseguem ouvir músicas inteiras e, muito menos, sabem o que é um disco. Festivais de hoje são para selfies e postagens nas redes sociais. A maioria sequer conhece 2, 3 músicas dos artistas que se apresentam.
    Abração
    André

  • Com o preço que pagaria pra ver o Lolla, certamente podia ir a uma dezena ou duas de shows de bandas independentes, muitas delas que tem mais relevância artística do que aquelas que costumam ser escaladas para este e outros festivais afins.

  • Um dos meus sonhos de adolescente, lá na primeira metade dos 90, era ir a um Lollapalooza. Infelizmente, quando eu finalmente tive a oportunidade (quando chegou ao Brasil, em 2012), ele já mal lembrava o festival original. Nunca fui nem tenho o menor interesse. Não piso num festival desses grandes nem de graça e levo pra vida uma frase sua que diz que festival não é pra quem gosta de música, é pra quem gosta de festival. É exatamente isso.

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