set/2022

Por que Godard importa

Por André Barcinski

Por que Godard importa

Por André Barcinski

Na história do cinema há muitos gênios, mas poucos inovadores. Não são muitos os artistas que criaram coisas que não existiam antes deles. Na ordem, podemos citar Griffith, que na década de 1910 inventou a “gramática” cinematográfica, depois Chaplin e Keaton, que, nos anos 1920, mostraram o que era possível fazer com uma câmera e deram movimento e fluidez ao cinema, e Eisenstein, que usou a montagem como arma narrativa. A esse grupo seleto, é preciso incluir o nome de Jean Luc-Godard.

O que Godard, morto em 13 de setembro de 2022, aos 91 anos, fez na década de 1960, junto a seus amigos da Nouvelle Vague – Truffaut, Chabrol, Rivette, Varda, entre outros – foi revolucionar a narrativa cinematográfica e libertá-la de fórmulas que aprisionavam o cinema em um formato rígido. “Um filme tem começo, meio e fim, não necessariamente nessa ordem”, era um dos mantras de Godard.

“Acossado” (1960), estreia do diretor, foi um dos marcos (junto a “Os Incompreendidos”, de Truffaut, e “La Pointe Courte”, de Agnès Varda) do experimentalismo e liberdade defendidos pela Nouvelle Vague. Tudo era novo: a maneira de filmar, com câmeras leves e carregadas em ombros e movidas em cadeiras de rodas; a montagem, com cortes abruptos e “aos pulos”, que destoavam da fluidez da montagem clássica; as atuações, em que os personagens podiam falar diretamente para a câmera ou como se estivessem lendo as falas num livro. Mais importante do que a história, era a maneira de contá-la.

A Nouvelle Vague foi um paradoxo: ao mesmo tempo em que combatia o que considerava as fórmulas emboloradas do cinema (especialmente do “cinemão” comercial francês dos anos 50), celebrava cineastas do passado e buscava valorizar artistas até então pouco considerados.

Nomes como Hitchcock, Hawks, Lang, Murnau, Nicholas Ray, Welles, Fuller e tantos outros mereceram, nas críticas escritas por essa turma na revista “Cahiers du Cinéma”, longos artigos de reavaliação. Hoje é fácil elogiar a genialidade de Hitchcock, mas poucos sabem que, até a publicação do livro de entrevistas “Hitchock-Truffaut”, em meados dos anos 1960, o cineasta inglês ainda era considerado um diretor comercial de filmes banais.

Quando esses jovens críticos da “Cahiers” começaram a fazer filmes, puseram em prática as teorias que vinham desenvolvendo há anos: o cinema tinha uma gramática própria e precisava se livrar das influências literárias; a perfeição técnica nada valia se fosse utilizada de forma banal; o verdadeiro “autor” de um filme era seu diretor.

Essa “teoria do autor”, criada pelo mentor de todos eles na “Cahiers”, o crítico André Bazin, foi motivo de discussões acaloradas entre estudiosos norte-americanos e europeus. Pessoalmente, acho que a ideia não se sustenta numa indústria do cinema tão estratificada e controlada como a de Hollywood, mas faz sentido quando se refere a cineastas europeus como Bergman, Buñuel e o próprio Godard, que não precisavam se submeter aos desígnios de produtores e mantiveram controle criativo quase que total sobre seus filmes.

Godard sempre foi um provocador. Os filmes que ele fez, especialmente na primeira metade da década de 1960 – “Acossado”, “Uma Mulher é uma Mulher”, “O Desprezo”, “Bande à Part”, “Pierrot le Fou” – mudaram o cinema para sempre. Depois, não contente em mudar o cinema, ele quis mudar o mundo, e sua obra foi ficando cada vez mais hermética e combativa, com filmes políticos e “difíceis”. Entre o primeiro e o último longa de Godard se foram 68 anos, e ele nunca fez uma concessão criativa.

Mais do que celebrar seus filmes, é preciso valorizar seu espírito e influência. Porque é impossível pensar em um cineasta importante dos últimos 60 anos que não tenha sido motivado pelas lições de liberdade e antagonismo às convenções deixadas por Godard e pela Nouvelle Vague.

12 comentários em "Por que Godard importa"

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    Willian Jose Milagres

    Aos onze anos, meu tio me doou uma grande quantidade de livros que não cabiam mais em seu apartamento. Dentre eles estava o roteiro de “A Chinesa”. Com onze anos eu não sabia o que era um roteiro e nem pra que ele servia. Comecei a ler e não entendi porque aquelas pessoas repetiam “Mao, Mao, Mao” toda hora.

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    Luiz Santos Resende

    Conheci os filmes do Godard, Truffaut, Ingmar Bergman, Pasolini, Win Wenders e outros diretores nas sessões de cinema na Biblioteca Pública do Barris em Salvador/BA. Bons tempos que não voltam nunca mais. Mas de todos os filmes do Godard, “Je Vous Salue, Marie?” criou uma série de polêmicas na época do lançamento, assisti e foi uma decepção só. Mas este suicídio legalizado para mim é muito mais controverso do que o filme da Maria e ninguém nem comentou nada.

  • Em meados dos anos 80, só se ouvia falar de Godard em canções como “Selvagem” dos Paralamas do Sucesso (“E a liberdade cai por terra/Aos pés de um filme de Godard”) ou em “Eduardo e Mônica” do Legião Urbana (“Mas a Mônica queria ver um filme do Godard”), ou ainda, em eventuais referências culturais nas colunas redigidas pela “intelligentsia” nos cadernos “Ilustrada” da “Folha de São Paulo” e “Caderno 2” do “O Estado de São Paulo”, ou também, em artigos esporádicos de revistas descoladas, como a HV – Humor e Verdade. Aliás, em meados dos anos 80, quem quisesse ser tido como descolado e/ou moderno, bastava apenas fazer qualquer tipo de referência cultural difícil de ser acessada por aqui. E era o que acontecia com o trabalho de Godard: as exibições de seus filmes eram muito raras. E justamente nesta época, um ministro do STF, que infelizmente está lá até hoje (é… eles sempre causaram), vetou a exibição do “Je vous salue, Marie” nos cinemas brasileiros por “razões religiosas”. Felizmente, hoje em dia, com o advento dos discos digitais de video, de determinados canais de TV por assinatura e de alguns servidores de video digital por “streaming”, assistir a um filme do Godard é uma coisa fácil. Durante a pandemia, foi notável a grade de programação do canal de TV de assinatura “Telecine Cult”, que exibiu praticamente todo o catálogo disponível no Brasil de seus filmes e que não foram poucos. Pena que com o abrandamento da pandemia, o canal abandonou todo o seu amor a arte do cinema e optou por ser mais um mero instrumento de ativismo ideológico de esquerda do grupo Globo. Quem aproveitou, aproveitou e teve a rara oportunidade de conhecer com consideravel profundidade, a fantástica videografia de Godard. Que descanse em paz.

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    Joao Gilberto Monteiro

    André, até falei com a minha mulher lá em casa que o Godard era o pai do “Cinema Cabeça” (não é bem verdade), mas resume bem a trajetória dele dentro do Cinema e a falta que ele já faz!!!!

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    Rogersousa@gmail.com

    Texto que sintetiza muito bem a genialidade e importância do Mestre, sem poupar o seu hermetismo dos últimos anos.

    Mesmo em seus filmes mais intrincados (que não são poucos), Godard sempre deixava a sensação de um debate em aberto, e exercia sem moderação a sua liberdade artística para desafiar, provocar, confundir e, não raro, magoar o seu público… que luxo, ser magoado por Godard…

    Uma vida e obra que não deixarão de ser celebradas, e com justiça.

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