mar/2022

Pasolini, 100 anos

Por André Barcinski

Pasolini, 100 anos

Por André Barcinski

Não posso começar esse texto sem agradecer ao leitor Moacir Neto, que me lembrou que 5 de março de 2022 marca o centenário de nascimento do cineasta, autor, poeta, jornalista e polemista profissional Pier Paolo Pasolini.

Um dos grandes nomes da arte italiana do Pós-Segunda Guerra, Pasolini viveu intensa e brevemente. Morreu em 1975, aos 53 anos, torturado e assassinado num terreno baldio de um subúrbio romano, num crime atribuído a um garoto de programa, mas que muitos creditam ao ativismo do artista, um comunista de carteirinha.

A oferta de filmes de Pasolini nos serviços de streaming é pequena. Há apenas dois filmes, o extraordinário “Gaviões e Passarinhos” (1966), na plataforma Belas Artes à La Carte, e “Os Contos de Canterbury” (1972), na plataforma Looke. Mas várias obras do cineasta – e filmes escritos ou sobre ele – estão disponíveis no Youtube, em cópias boas e legendadas em português.

A carreira cinematográfica de Pasolini pode ser dividida em três fases. A primeira, que começa no início dos anos 1960, é marcada por filmes influenciados pelo neorrealismo de De Sica e Rosselini, mas com um toque pasoliniano: a presença de protagonistas que vivem à margem da lei e da sociedade. Enquanto o neorrealismo clássico privilegiava personagens pobres, mas trabalhadores e “bons cidadãos” (o colador de cartazes em “Ladrões de Bicicletas”, o aposentado em “Umberto D”), Pasolini leva sua câmera para dentro das favelas e prostíbulos das partes mais barra pesada de Roma.

Seus dois primeiros filmes são, para mim, suas obras-primas: “Accatone” (1961), com Franco Citti, que seria parceiro habitual de Pasolini até o fim e se tornaria conhecido no mundo todo pelo papel de Calò, um dos guarda-costas de Michael Corleone (Al Pacino) em “O Poderoso Chefão”, no papel de um gigolô…

E, especialmente, “Mamma Roma” (1962), com Anna Magnani em um de seus melhores papéis, vivendo uma ex-prostituta que tenta sobreviver com o filho adolescente. É um dos grandes dramas do cinema italiano.

Nessa fase neorrealista, Pasolini escreveu ainda o roteiro de “O Belo Antônio” (1960), dirigido por Mauro Bolognini e adaptado de um romance do autor Vitaliano Brancati. É um filme estupendo sobre um jovem belíssimo (Marcello Mastroianni) que é sonho de todas as mulheres, mas se revela impotente. Vale muito a pena assistir.

A segunda fase da carreira de Pasolini é marcada por um gradual abandono da estética neorrealista e a busca por uma linguagem mais poética e livre. Ele dirige dois grandes filmes, “O Evangelho Segundo São Mateus” (1964) e o inesquecível “Gaviões e Passarinhos” (1966), este um “road movie” surrealista e anárquico com o comediante Totò em seu último papel em vida (três filmes ainda seriam lançados depois da morte do ator, ocorrida em 1967).

A terceira e última fase da filmografia pasoliniana é marcada por filmes cada vez mais estranhos e herméticos, vários adaptados de literatura clássica. Entre os títulos disponíveis no Youtube estão “Édipo Rei” (1967, este com legenda em inglês), “Medéia” (1969), “Decameron” (1971) e “Os Contos de Canterbury” (1972).

Agora, um filme imperdível é “Pasolini” (2014), de Abel Ferrara, em que Willem Dafoe interpreta o cineasta nos dias que antecedem sua morte. Está disponível na Apple TV, Google Play e Youtube Filmes.

Um ótimo fim de semana a todos.

15 comentários em "Pasolini, 100 anos"

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    Anderson Cruz Santiago

    Olá, Barça!
    Sou novo por aqui e tenho me interessado de forma mais profunda em cinema há pouco tempo. Salvo engano da minha parte, já vi você se referindo ao Samuel Fuller, Abel Ferrara e ao próprio Pasolini como iconoclastas. O que isso significaria no mundo da sétima arte? Grato pelos textos!

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      Andre Barcinski

      Oi, Anderson, obrigado pelo comentário. Acho que significa que são criadores que usaram o cinema para contar histórias fortes e muito próprias, arriscando em temas e estéticas polêmicas e pouco comuns. Esses três fazem filmes muito pessoais e que, muitas vezes, se chocam com o estilo usual da maioria dos cineastas. Abraço!

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      Andre Barcinski

      Achei um, não lembro se “Teorema” ou “Contos”, dublado em inglês. Não dá. Os que postei têm legendas em português. Quando vc acessa o YouTube, tem a opção de mudar o idioma. Abraço!

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    Bruno De Souza

    Bom dia! Grande texto!
    O que acha de Saló ou os 120 dias de Sodoma?
    Eu acho um filme difícil (demorei muito tempo para ver, confesso), mas importante.
    Qual sua opinião?
    Um abraço.

  • fala barca!!! ótimos filmes do Pasolini, mas por incrível que pareca o único que assisti nao foi citado: Teorema (1968).

    “Um misterioso rapaz (Terence Stamp) se hospeda na casa do rico industrial Paolo (Massimo Girotti) em Milão na primavera de 1968. Aos poucos, o visitante muda para sempre a vida de todos do lar, da empregada á matriarca. É o início da degradação desta família burguesa. Cada membro da família parece representar uma instituição e um segmento da sociedade italiana. Através de suas personagens o filme critica a futilidade, o comodismo e a alienação da burguesia.”

    devido ao conteúdo subversivo, o visitante passa o rodo e transa com todos da família, o filme ficou proibido durante anos em vários países virando uma lenda no meio cinematográfico. é um dos aclamados pela crítica como a obra-prima do genial cineasta, poeta e escritor.

    aqui uma crítica do roger ebert: https://www.rogerebert.com/reviews/teorema-1969

  • Ótimo texto, lembrando que o Mubi vai disponibilizar em março 3 filmes dele: Accatone, O evangelho segundo Jesus Cristo e Edipo Rei. Barça, qual seu preferido da última fase dele ?

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