ago/2024

“Onibaba”: o estranho mundo de Kaneto Shindo

Por André Barcinski

“Onibaba”: o estranho mundo de Kaneto Shindo

Por André Barcinski

Já recomendei aqui a plataforma Filmicca, que tem um ótimo custo-benefício (R$ 7 /mês) e um excelente catálogo de filmes de arte (e pela enésima vez, mas é bom lembrar: não faço publi e não tenho nenhuma relação comercial com nenhuma plataforma). E a Filmicca acaba de estrear um de meus filmes japoneses prediletos: “Onibaba, a Mulher-Demônio” (1964), de Kaneto Shindo.

Shindo não é tão celebrado quanto seus conterrâneos Kurosawa, Oshima, Mizoguchi, Ozu e outros, mas fez alguns filmes muito marcantes e pessoais. Começou a carreira no cinema escrevendo roteiros (fez mais de 200, incluindo trabalhos para Mizoguchi e Kozaburo Yoshimura) e, na década de 1950, fundou seu próprio estúdio independente, em parceria com Yoshimura e com o ator Taiji Tonoyama, e estreou como diretor com filmes de tom neorrealista como “Crianças de Hiroshima” (1952), em que revisita a tragédia da bomba que caiu sobre sua terra natal.

Kaneto Shindo

Os filmes de Shindo foram ficando cada vez menos realistas e mais lúdicos e estranhos. Em 1960, fez uma obra-prima chamada “A Ilha Nua”, um filme espartano e quase sem diálogos sobre uma família que mora numa ilha próxima a Hiroshima. “A Ilha Nua” tem o mesmo clima de solidão e abandono de outra obra imperdível do cinema, “O Homem de Aran” (1934), de Robert Flaherty, em que o cineasta recria, em estilo documental, a vida dos habitantes de uma remota ilha na costa da Irlanda.

Em 1964, Shindo fez “Onibaba”, outra produção modesta e autoproduzida. O elenco não tem mais de uma dúzia de pessoas e a equipe é a mesma que fez vários filmes como Shindo, incluindo o exímio fotógrafo Kiyomi Kuroda, que havia filmado “A Ilha Nua”.

A trama se passa no século 14 numa região próxima Kyoto, devastada por uma guerra. Duas mulheres, uma mais velha e a jovem nora (as personagens não têm nomes no filme) aguardam o retorno de Kishi, filho da primeira e marido da segunda, que foi lutar na guerra. As mulheres sobrevivem armando ciladas para soldados e samurais e matando-os para vender as armaduras e espadas para um inescrupuloso comerciante (vivido pelo ator Taiji Tonoyama, sócio da produtora de Shindo).

A vida das duas é sacudida com a chegada de Hachi, um vizinho que também foi lutar na guerra. O homem começa a tentar seduzir a mulher mais jovem, o que ameaça a paz entre as duas mulheres. A trama vai se tornando mais tensa e sexualmente carregada, até explodir num delírio que mistura terror e erotismo.

Vi “Onibaba” pela primeira vez nos anos 1980, numa mostra de cinema japonês no Rio, e nunca mais esqueci. O filme é provocante e lindamente fotografado, e algumas sequências estão entre as mais impactantes do cinema japonês. Não vou estragar a surpresa, mas há uma imagem que remete diretamente às feridas das vítimas da bomba atômica que atingiu tanto Hiroshima quanto a alma de Kaneto Shindo.

Quem não assina a Filmicca consegue encontrar o filme no Youtube com legendas em português, mas acho que a imagem do filme na plataforma está bem melhor.  E “Onibaba” merece ser visto na melhor qualidade possível. É a obra mais famosa de um cineasta que nasceu em 1912, passou virtualmente por todas as fases do cinema japonês, filmou até 2010 e morreu em 2012, aos 100 anos de idade.

Um ótimo dia a todas e todos.

12 comentários em "“Onibaba”: o estranho mundo de Kaneto Shindo"

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