“Onibaba”: o estranho mundo de Kaneto Shindo
Já recomendei aqui a plataforma Filmicca, que tem um ótimo custo-benefício (R$ 7 /mês) e um excelente catálogo de filmes de arte (e pela enésima vez, mas é bom lembrar: não faço publi e não tenho nenhuma relação comercial com nenhuma plataforma). E a Filmicca acaba de estrear um de meus filmes japoneses prediletos: “Onibaba, a Mulher-Demônio” (1964), de Kaneto Shindo.
Shindo não é tão celebrado quanto seus conterrâneos Kurosawa, Oshima, Mizoguchi, Ozu e outros, mas fez alguns filmes muito marcantes e pessoais. Começou a carreira no cinema escrevendo roteiros (fez mais de 200, incluindo trabalhos para Mizoguchi e Kozaburo Yoshimura) e, na década de 1950, fundou seu próprio estúdio independente, em parceria com Yoshimura e com o ator Taiji Tonoyama, e estreou como diretor com filmes de tom neorrealista como “Crianças de Hiroshima” (1952), em que revisita a tragédia da bomba que caiu sobre sua terra natal.

Os filmes de Shindo foram ficando cada vez menos realistas e mais lúdicos e estranhos. Em 1960, fez uma obra-prima chamada “A Ilha Nua”, um filme espartano e quase sem diálogos sobre uma família que mora numa ilha próxima a Hiroshima. “A Ilha Nua” tem o mesmo clima de solidão e abandono de outra obra imperdível do cinema, “O Homem de Aran” (1934), de Robert Flaherty, em que o cineasta recria, em estilo documental, a vida dos habitantes de uma remota ilha na costa da Irlanda.
Em 1964, Shindo fez “Onibaba”, outra produção modesta e autoproduzida. O elenco não tem mais de uma dúzia de pessoas e a equipe é a mesma que fez vários filmes como Shindo, incluindo o exímio fotógrafo Kiyomi Kuroda, que havia filmado “A Ilha Nua”.
A trama se passa no século 14 numa região próxima Kyoto, devastada por uma guerra. Duas mulheres, uma mais velha e a jovem nora (as personagens não têm nomes no filme) aguardam o retorno de Kishi, filho da primeira e marido da segunda, que foi lutar na guerra. As mulheres sobrevivem armando ciladas para soldados e samurais e matando-os para vender as armaduras e espadas para um inescrupuloso comerciante (vivido pelo ator Taiji Tonoyama, sócio da produtora de Shindo).
A vida das duas é sacudida com a chegada de Hachi, um vizinho que também foi lutar na guerra. O homem começa a tentar seduzir a mulher mais jovem, o que ameaça a paz entre as duas mulheres. A trama vai se tornando mais tensa e sexualmente carregada, até explodir num delírio que mistura terror e erotismo.
Vi “Onibaba” pela primeira vez nos anos 1980, numa mostra de cinema japonês no Rio, e nunca mais esqueci. O filme é provocante e lindamente fotografado, e algumas sequências estão entre as mais impactantes do cinema japonês. Não vou estragar a surpresa, mas há uma imagem que remete diretamente às feridas das vítimas da bomba atômica que atingiu tanto Hiroshima quanto a alma de Kaneto Shindo.
Quem não assina a Filmicca consegue encontrar o filme no Youtube com legendas em português, mas acho que a imagem do filme na plataforma está bem melhor. E “Onibaba” merece ser visto na melhor qualidade possível. É a obra mais famosa de um cineasta que nasceu em 1912, passou virtualmente por todas as fases do cinema japonês, filmou até 2010 e morreu em 2012, aos 100 anos de idade.
Um ótimo dia a todas e todos.
12 comentários em "“Onibaba”: o estranho mundo de Kaneto Shindo"
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Assistirei com certeza, parece maravilhoso.
Foi nessa mostra de cinema que tu encontrou o José Lewgoy e vocês bateram um papo?
Fiquei encantado com a premissa do filme, vou ver com certeza.
Cara, parece exagero, mas o Lewgoy ia ao Estação Botafogo quase todo dia, de verdade. Sentava sempre na primeira fila. Cansei de bater papo com ele lá, era uma grande figura e sabia muito se cinema.
Lembro que tu escreveu sobre isso. Imagino que sim, ele realmente parecia ser uma pessoa amável e culta.
Sabia muito de cinema japonês.
Comprei quando saiu em DVD pela Criterion, numa daquelas recomendações do Carlão Reichenback que mais pareciam ordens… se tornou um de meus filmes favoritos. Ainda tem uma conexão com a notória série ‘Ringu’, na imagem do poço se fechando que é utilizada quase ipsis literis tanto na versão japonesa quanto na americana. Recomendado é pouco, bom demais.
Que legal, não sabia que o Carlão recomendara, mas faz todo sentido, é a cara dele.
Bom dia André.
Tem um vídeo no Youtube em que perguntam para o William Friedkin os filmes favoritos dele de todos os tempos e o primeiro que ele cita é esse.
Já estava na minha lista e agora que você indicou vou assistir com certeza. Abs!
Que demais, vou procurar esse vídeo do Friedkin.
Segue o link do Friedkin falando do Oni Baba:
https://www.youtube.com/watch?v=p-APzEjrklc&t=836s
Se não me engano, o Willem Defoe também cita Onibaba como um dos seus filmes prediletos !
Que demais isso, não sabia!