mar/2022

“O Poderoso Chefão”: o filme em que ninguém acreditava faz 50 anos

Por André Barcinski

“O Poderoso Chefão”: o filme em que ninguém acreditava faz 50 anos

Por André Barcinski

Em 14 de março de 1972, estreava nos Estados Unidos “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola. Hoje é clichê falar do filme como uma obra-prima do cinema e o título mais importante da chamada “Nova Hollywood”, uma geração brilhante de cineastas, roteiristas, atores e atrizes que mudou a face da indústria, fazendo filmes inesquecíveis como “Touro Indomável”, “Amargo Regresso”, “Operação França”, “A Conversação”, “Taxi Driver”, “Nashville”, “Rede de Intrigas” e tantos outros.

O sucesso esmagador do filme de Coppola fez esquecer todas as suspeitas e temores que a estreia do filme suscitou à época do lançamento. Porque ninguém, além do próprio Coppola, parecia acreditar no triunfo do “Chefão”, um filme dirigido por um desconhecido, com um elenco que não era nem de longe a primeira opção do estúdio, e que custou três vezes o valor de seu modesto orçamento inicial de dois milhões de dólares.

Leia aqui um texto que publiquei hoje no Portal Lado B com cinco histórias de bastidores sobre o filme (aliás, sugiro assinar a newsletter, é gratuita e você recebe os links das reportagens em seu e-mail).

Ao longo desses 50 anos, incontáveis livros e filmes foram feitos sobre o fenômeno “O Poderoso Chefão”, certamente um dos filmes mais dissecados e estudados de todos os tempos. Mas um livro recente, infelizmente ainda não lançado no Brasil, conta a história completa não só da produção do filme, mas da saga que o autor Mario Puzo viveu para publicá-lo: “Leave the Gun, Take the Cannoli: The Epic Story of the Making of The Godfather”, de Mark Seal.

Seal, jornalista da revista “Vanity Fair”, faz perfis de vários nomes importantes que orbitaram o universo do filme, como o autor Mario Puzo, o produtor Robert Evans, o chefão da Paramount, Charlie Bluhdorn, e o mafioso Joe Colombo, que chantageou a Paramount a aceitar mudanças no roteiro e, em troca, permitiu que as filmagens rolassem em Nova York sem problemas.

A história da vida de Mario Puzo (1920-1999) é fascinante: quando publicou o livro e virou um astro, Puzo sobrevivia escrevendo para revistas “pulp” e tinha imensas dívidas de jogo. Vivia duro, tinha cinco filhos para criar e sofria graves problemas de saúde, causados por excesso de peso e diabetes.

Mario Puzo e Coppola no set do filme

Seal relata um encontro incrível ocorrido em 1966: um jantar que reuniu Puzo, Gay Talese, então repórter do jornal “The New York Times”, e o primo dele, o escritor e jornalista Nicholas Pileggi. Nos anos seguintes, os três lançariam livros fundamentais sobre a Máfia: Puzo fez “O Poderoso Chefão”, Talese lançou “Honrados Mafiosos”, e Pilleggi escreveria “Wiseguy”, que ele próprio adaptaria depois no roteiro de “Os Bons Companheiros”, de Martin Scorsese.

No jantar, Puzo ficou fascinado com Nan, esposa de Talese, uma mulher culta e que parecia fora de seu mundo ali, na companhia de três machos alfa que só sabiam falar sobre crimes e mafiosos. Puzo usou Nan como inspiração para a personagem Kay (Diane Keaton), namorada de Michael Corleone (Al Pacino).

o escritor Gay Talese e a esposa, Nan, que inspirou a personagem Kay (Diane Keaton)

Lendo o livro, é curioso perceber como TUDO relacionado ao filme – o livro que o inspirou, o diretor, a equipe técnica, o elenco, a locação (a Paramount queria filmar em Kansas City, não em Nova York), até a estratégia de lançamento – aconteceu por uma combinação de sorte de Coppola e desespero da Paramount. Até hoje, Coppola não sabe como não foi despedido no meio da filmagem.

Se o “Poderoso Chefão” tivesse sido feito como queira a Paramount, Don Corleone não seria interpretado por Marlon Brando, considerado, à época, um ator longe do auge, mas por qualquer um dos seguintes astros: Orson Welles, Frank Sinatra, Charles Bronson, Anthony Quinn, Ernest Borgnine, Burt Lancaster ou Laurence Olivier. Nem o próprio Brando queria o papel. Só se convenceu depois que uma assistente disse que o favorito do estúdio era Laurence Olivier. “O quê? Olivier não consegue interpretar um chefe mafioso italiano!”, disse Brando, enciumado.

E Al Pacino? Hoje ele é um astro consagrado, mas em 1971 era um Zé Ninguém que só havia feito peças vistas por poucas pessoas e um filme que nem tinha sido lançado, “Panic in Needle Park”, de Jerry Schatzberg. Que Coppola tenha conseguido emplacar Pacino (“Ele é muito baixo, parece um anão!”, disse o produtor Robert Evans) quando a Paramount sugeria Alain Delon, Dustin Hoffman, Robert Redford, Warren Beatty, Jack Nicholson e Ryan O’Neal foi um verdadeiro milagre.

Vamos assistir “O Poderoso Chefão” pela enésima vez nesse fim de semana, prestando atenção a todas as cenas que, segundo o livro de Neal, foram improvisadas pelos atores ou mudadas devido a circunstâncias de produção. Será, como sempre, um deleite.

E para você que ainda não é assinante da categoria “All My Loving”, vale dizer que teremos um curso online sobre os 50 anos de “O Poderoso Chefão”. Rola na terça, 29 de março, às 19h30.

Um ótimo fim de semana a todos.

18 comentários em "“O Poderoso Chefão”: o filme em que ninguém acreditava faz 50 anos"

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