O filme suicida de Dennis Hopper
A plataforma Belas Artes à La Carte exibe um filme absolutamente imperdível: “The Last Movie” (1971), de Dennis Hopper. E por “imperdível” não quero dizer, necessariamente, que seja um grande filme. Na verdade, é uma obra tão estranha e idiossincrática que até hoje divide opiniões: alguns – especialmente na Europa – a consideram uma obra-prima do cinema de invenção. Para a maioria, no entanto, é um filme amador feito por um psicótico descontrolado de peyote, cocaína e mescalina.
Mas é preciso assistir a “The Last Movie”, até para entender a dinâmica insana da indústria de cinema americano do fim dos anos 1960, que deu origem à geração que hoje conhecemos por “Nova Hollywood”.
Filmado no Peru, o filme, na teoria, conta a história de um dublê (Hopper) que, durante a filmagem de um faroeste, vê um companheiro de set morrer num acidente e decide abandonar o cinema e morar no interior do Peru. Esta era a ideia original, e assim foi escrita pelo roteirista Stewart Stern, que Hopper conhecera no set de “Rebelde Sem Causa” (1955).
O problema é que, àquela altura, Dennis Hopper não estava muito a fim de seguir ordens de ninguém, muito menos de um roteiro, e começou a improvisar: chamou um monte de amigos, encheu o set de mescalina, peyote, ácido e cocaína, e reuniu uma turminha da pesada que incluía amigos como Peter Fonda, Dean Stockwell, Michelle Phillips (cantora do Mamas & The Papas) e Kris Kristofferson, e ídolos como o cineasta Sam Fuller. Segundo relatos, o diretor montou uma espécie de culto no set e incentivava a equipe a se entupir de drogas e fazer orgias.
A pergunta que fica: como Dennis Hopper conseguiu financiar uma produção dessas?
Simples: o estúdio Universal, estupefato com o sucesso mundial de “Easy Rider” (1969), simplesmente deu a Hopper, que havia criado o filme com Peter Fonda, um milhão de dólares e “controle criativo total” para fazer “The Last Movie”. Foi uma decisão corporativa típica do período: os grandes estúdios, percebendo que estavam fora de sintonia com a juventude e surpresos com os sucessos de filmes contraculturais como “Easy Rider” e “Bonnie and Clyde”, passaram a investir, às cegas, em qualquer projeto mais alternativo. Por um lado, essa política acabou gerando clássicos como “O Poderoso Chefão” e “Caminhos Perigosos”. Por outro, um alucinado como Hopper, que disse ser “responsável, sozinho, pela explosão da cocaína nos Estados Unidos” ganhou um milhão de dólares para fazer o que bem entendesse.
Naquele período, a Universal não bancou apenas “The Last Movie”: depois do sucesso de “Easy Rider”, o estúdio decidiu dar um milhão de dólares a cinco jovens cineastas, que teriam carta branca para fazer os filmes que quisessem. Assim, Peter Fonda fez o faroeste “The Hired Hand”, Douglas Trumbull dirigiu o sci-fi “Silent Running”, e o tcheco Milos Forman fez seu primeiro filme americano, a comédia “Taking Off”. Mas o maior sucesso comercial dessa empreitada foi uma comédia adolescente dirigida por um nerd da Califórnia chamado George Lucas: “American Grafitti”.
O resultado financeiro mais desastroso foi claro, “The Last Movie”: Hopper não seguiu o cronograma, estourou o orçamento e acabou entregando o filme com quase um ano de atraso. Quando a Universal viu o corte final, ficou tão horrorizada que cogitou nem lançar o filme. “The Last Movie” acabou sendo exibido em poucos cinemas e logo sumiu de circulação. Hopper entrou em depressão, quase morreu de overdose diversas vezes, e só foi dirigir outro filme quase dez anos depois, “Out of the Blue”.
Assim que terminou a filmagem de “The Last Movie”, Hopper casou-se com Michelle Phillips, a quem conhecera no set de filmagem. O matrimônio durou exatos oito dias. Michelle pediu divórcio com a alegação de que não era capaz de atender às “demandas sexuais não-naturais” do marido. Quando Hopper a confrontou, ela sugeriu: “Você já cogitou suicídio?”
Nos anos depois de “The Last Movie”, Dennis Hopper continuou fazendo das suas. São famosas as histórias de Marlon Brando exigindo que Hopper ficasse longe dele durante as filmagens de “Apocalypse Now” (1979), e de Hopper convencendo David Lynch a lhe dar o papel do psicótico gângster Frank Booth em “Veludo Azul” (1986): “David, eu preciso interpretar Frank. Eu sou Frank!”
Em 1994, tive meu único encontro com Dennis Hopper, durante as entrevistas de lançamento de “Velocidade Máxima”, em que ele interpretava, só para variar, um assassino psicótico. Àquela altura, Hopper já tinha 58 anos e havia sossegado o facho. Passava os dias fotografando (era um exímio fotógrafo) e cuidando de sua incrível coleção de quadros de pintores norte-americanos.
Com muito bom humor, falou dos percalços da carreira e comentou o fato de ter, durante anos, aceitado papéis em filmes terríveis: “Outro dia, meu netinho me perguntou por que eu havia feito o filme do Super Mario Bros.”, disse o ator. “Eu disse que havia feito aquele filme para ganhar um dinheiro e comprar presentes pra ele. Ele respondeu: ‘Vovô, eu não preciso tanto assim de presentes!’” Um ótimo dia a todas e todos.
18 comentários em "O filme suicida de Dennis Hopper"
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Fala Barça,
Acabei de ver que o filme entrou na plataforma do Sesc Digital:
https://sesc.digital/conteudo/cinema-e-video/cinema-em-casa-com-sesc/o-ultimo-filme
um abraço!
Que demais, muito obrigado!
André, qual a sua atuação preferida do Hopper? Gosto muito dele em Veludo Azul e O Amigo Americano.
Acho que “O Amigo Americano”, tá diferente da insanidade habitual.
Boa tarde Barça, muito interessante a vida do Hopper. Voce ja viu “O Apocalipse de um cineasta” ? Documentario muito legal gravado pela esposa do Coppola sobre a lendaria filmagem de Apocalipse Now. Tem cenas do Hopper surtado.
A propósito, conhece ou já leu alguma biografia sobre ele?
Sim, já vi, e por coincidência ia escrever sobre ele, porque voltou a ser exibido no MUBI. Muito legal o filme.
André, todo mundo fala da vida eterna da Rainha Elizabeth e do Keith Richards, mas comparadas com a vida louca do Dennis Hopper, que tédio a vida dos britânicos citados né hehehehe?
Acho que Richards chega perto, e só.
Cara, você tem uma vida incrível… conversou com Dennis Hopper, entre tantas outras lendas. Deve ser demais ser André Barcinski. Abração.
Foi uma vez só, e com outros jornalistas na mesa, mas foi emocionante.
Porra esta cena de “True Romance” de Christopher Walken and Dennis Hopper é memorável. Puta interpretação dos dois loucos. https://www.youtube.com/watch?v=Wax15NklZh4
Antológica.
Bom dia, Barça! Não querendo ser mala, mas já sendo; não seria “Caminhos Perigosos” (Mean Streets, do Scorsese) em vez de “Caminhos Violentos” (de 86 com Sean Penn e C. Walken)? É de se confundir mesmo, pois a tradição de deixar todos os títulos em português com a mesma cara já vem de décadas. No meio dos anos 80, todo filme de terror/sci-fi tinha de ter as palavras “A hora da(o).” no título.
Tá certíssimo, Rodrigo, falha nossa. Valeu pela correção, vou mudar no texto.
Além das loucuras profissionais, a vida pessoal do velho Hopper foi absurdamente caótica. A relação com as mulheres e com os filhos sempre foi retratado da alma perturbada do ator. Não sei o quanto ele conseguia separar os mundos. Quando o Lynch ia filmar o veludo azul diz que o Hooper implorou pra fazer o vilão Frank Booth: “O Frank sou eu”, dizia ele.
Saudade do Rei dos Absurdos.
Abs, Barça.
Sim, conto essa história do Lynch no texto, muito legal.
Fechou o texto com maestria.
Valeu, Hopper é demais mesmo.