abr/2022

O estranho e fascinante mundo da “Cumbia Rebajada”

Por André Barcinski

O estranho e fascinante mundo da “Cumbia Rebajada”

Por André Barcinski

“Nos anos 1970, no México, todo um subgênero musical foi criado por DJs fazendo, basicamente, o que John Peel fazia, às vezes, sem querer: tocando músicas na velocidade errada.”

Assim começa um texto fascinante de John Lewis na revista “Uncut”, se referindo a um estilo do qual eu nunca tinha ouvido falar antes de ler o artigo: a “Cumbia Rebajada”.

Basicamente, as “Rebajadas” resultam de DJs tocando discos de cumbia – o estilo dançante e acelerado do norte da América do Sul, notadamente de Colômbia, Peru e Equador – em velocidades mais baixas. O estilo surgiu no início dos anos 1960, quando DJs de bailes no México perceberam que as canções, em suas sonoridades originais, eram rápidas demais para a pista de dança, mas seriam perfeitas se diminuídas em cerca de um terço de sua velocidade.

Assim, eles mexeram nos toca-discos (aparelhos com velocidades variáveis ainda eram raridades) e conseguiam tocar discos de 33 rpm em velocidades que variavam entre 20 e 25 rpm. Como a grande maioria das canções eram instrumentais, o público não era confrontado com cantores de vozes arrastadas, e boa parte nem percebia que as músicas estavam na velocidade errada.

As “Rebajadas” fizeram grande sucesso, e equipes mexicanas de DJs e soundsystems, os Furacões 2000 deles, chamadas de “Sonideros”, proliferaram por todo o país. Uma divertida amostra do estilo está na coletânea “Saturno 2000: La Rebajada de Los Sonideros 1962-1983”, lançada pela gravadora Analog Africa. Ouça aqui.

O disco reúne 14 faixas, a maioria inédita, ou pelo menos nunca lançada na velocidade “errada”. Uma experiência curiosa é ouvir as faixas originais e, na sequência, a mesma música em versão “Rebajada”. Por exemplo, aqui está a versão original de “La Danza Del Mono”, de Lucho Gavilanes:

E aqui, a versão “Rebajada”:

Os sons são dançantes, estranhos e fascinantes: guitarras soam como trilha de “faroestes espaguete” de Sergio Leone e teclados de churrascaria assumem tons mais sombrios. Uma inesquecível experiência “lo-fi”. Um ótimo feriado a todos e todas.

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