Nick Cave por ele mesmo
Se você é fã de Nick Cave, este livro é para você. Se não é fã de Nick Cave, mas se interessa pelo tema da criação artística e, principalmente, em como experiências dolorosas podem moldar grandes obras de arte, este livro é também para você. Falo de “Fé, Esperança e Carnificina”, livro de entrevistas com Nick Cave feitas pelo jornalista irlandês Seán O’Hagan, que acabou de sair no Brasil pela editora Terreno Estranho.
O volume nasceu durante um raríssimo momento de tranquilidade na agitada vida profissional de Cave: a pandemia. Cave e O’Hagan se conheciam de outros carnavais e entrevistas, mas se pegaram conversando por horas durante os tediosos e tristes meses da Covid-19. O’Hagan propôs transformar os papos num livro. Para sua surpresa, Cave topou, com uma condição: não queria se ater muito ao passado ou a um formato biográfico tradicional.
Um aviso na contracapa do livro deixa isso bem claro, em letras maiúsculas: “ESTE LIVRO NÃO É DE MEMÓRIAS, ESTE LIVRO É UMA CONVERSA”.

Quem se atirar ao livro esperando detalhes picantes sobre a vida louca de Cave no Birthday Party ou no Bad Seeds, histórias escabrosas de seus pugilatos com Blixa Bargeld e Mick Harvey ou relatos de bastidores de gravações, não vai sair feliz. Claro, a vida pregressa de Cave está toda lá, mas apenas como moldura, como breves menções que ele usa para pintar um quadro maior, que é o de um artista de 65 anos e uma carreira de quase 50, que teve a vida pessoal e artística transformada por um evento cataclísmico: a morte do filho Arthur, em 2015.
“Fé, Esperança e Carnificina” se concentra nos dois discos mais recentes de Cave: “Skeleton Tree” (2016) e “Ghosteen” (2019). O primeiro, apesar de lançado em 2016, foi composto antes da morte de Arthur, o que soa até sobrenatural, em face das impressionantes coincidências de temas e situações descritas nas letras (leia aqui uma coluna que escrevi em 2016 sobre o álbum). O segundo foi totalmente influenciado pela morte do filho e é um disco de exorcismo, em que Cave e Warren Ellis (que está no Bad Seeds há 30 anos, mas virou parceiro musical no álbum “Push the Sky Away”, de 2013) se trancaram num estúdio em Malibu (de propriedade, acreditem, do amigão de Cave, Chris Martin, do Coldplay) e saíram de lá com um réquiem eletrônico-ambient-gospel de cortar os pulsos.
Infelizmente, a pandemia não permitiu que Cave excursionasse para promover “Ghosteen”. Em compensação, ganhamos este livro, que descreve em minúcias o processo de composição de Nick Cave e em que ele analisa seu desenvolvimento artístico ao longo dos anos.
Quem acompanha a carreira de Cave sabe que, sonoramente, seus trabalhos já haviam dado uma guinada depois de “Dig, Lazarus, Dig!”, último disco antes do início da parceria com Warren Ellis. Desde então, Cave vem abandonando progressivamente o formato guitarra-baixo-teclados-bateria e as canções de letras narrativas, que ele tão lindamente havia explorado com os Bad Seeds, em favor de músicas mais etéreas e eletrônicas, cheias de texturas, e com letras que, mais que contar histórias, sugerem sensações. No livro, Cave diz que sua nova forma de composição, que inclui exaustivas sessões de improvisação ao lado de Ellis e o forçaram a escrever letras que encaixassem nas músicas, tornando seus textos menos “objetivos” e mais lúdicos.
Enfim, “Fé, Esperança e Carnificina” é um grande livro, publicado pela mesma editora das maravilhosas autobiografias de Mark Lanegan e Bobby Gillespie e dos livros mais recentes de Fabio Massari. Que a Terreno Estranho continue assim.
11 comentários em "Nick Cave por ele mesmo"
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Boa noite Barça, rapaz fiquei chocado hoje quando vi o Nick Cave na coroação do Charles. O cabra piorou?
Pois é, também não entendi.
Barça, só o Grêmio pode parar o Fluzão.
Abraço.
Mais dinheiro que você vai me fazer gastar, Barcinski. A primeira vez que ouvi “Ghosteen” foi no carro, indo para o trabalho. Comecei a chorar tão copiosamente durante “White Horses” que tive que estacionar na beira da rodovia. Esse cara é fora do esquadro.
Estimado Barcinski, boa tarde.
Excelente texto. Parabéns!
Assisti ao doc do Nick Cave, muito bom.
Obrigado pela dica do livro.
Que legal que gostou, Mario, fico feliz. Abraço!
André, realmente a história do Nick cave é dilacerante, mas sorte dele que ele tem a arte para onde pode desafogar toda essa tristeza!!!
P.S: É verdade que o B3 vai voltar? Eu gostava muito da sua participação e do João Marcelo Bôscoli, mas o Benjamin Back… puta cara chato, velho (falando com a voz anasalada de paulistano dele), eu quase não gosto do podcast por causa da chatice e grosseria dele, mas tirando isso, fico feliz com a volta por sua causa e do João também (se realmente houver)…
Hahahahaha! Guenta o Benja!
Putz! tirou as palavras da minha boca….CARA INSUPORTÁVEL! parei de ouvir por causa, exclusivamente, da participação patética dele, querendo bancar o “entendido de música”, ao lado do Barça e do JM…tenho até pena!
Grande Barcinski,
Primeiro contato com seu blog, que entrei após participar da campanha do Baruho.
Fodástico, dá vontade de ficar o dia todo lendo as matérias todas.
Parabéns e um abraço!
Pô, Marcelo, que legal te ver por aqui e que ótimo que curtiu os textos, fico muito feliz. Quanto tempo, não?