jul/2022

Neil Young e o disco que ficou inédito por causa do Brasil

Por André Barcinski

Neil Young e o disco que ficou inédito por causa do Brasil

Por André Barcinski

Nos últimos anos, Neil Young tem lançado uma série de discos que, por razões variadas, permaneciam inéditos. O mais recente é “Toast”, um álbum de sete canções gravado no fim de 2000 com a banda Crazy Horse.

O que pouca gente sabe é que esse disco só ficou inédito por 22 anos por culpa do Brasil. E a história é sensacional.

No fim de 2000, Young estava numa pior, vivendo um processo de separação da esposa, Pegi, e passando por uma fase triste e depressiva. Ele reuniu o Crazy Horse – Frank “Poncho” Sampedro (guitarra), Billy Talbot (baixo) e Ralph Molina (bateria), banda que o acompanha desde o fim dos anos 60 – e se trancou num pequeno estúdio em São Francisco, o Toast, para gravar um novo disco.

O resultado foi um trabalho pesado e melancólico, com faixas longas e tristes como “Standing in the Light of Love”, “How Ya Doin’?” e “Boom Boom Boom”, esta com 13 minutos de duração.

No meio das gravações, Young e o Crazy Horse foram à América do Sul pela primeira vez para shows em Buenos Aires e no Rock in Rio. E os dias na América do Sul mudaram a cabeça de Neil Young. “Eventualmente, eu desisti e abandonei o álbum”, escreveu o compositor. “Eu não estava feliz com ele, ou talvez estivesse num momento especialmente infeliz. Era um álbum muito desolado e triste”.

Assim que retornou da América do Sul, Young convocou a banda soul Booker T. and the MGs e, com o guitarrista Frank “Poncho” Sampedro, gravou outro disco, “Are You Passionate?”, em que regravou algumas canções de “Toast” em versões menos cruas.

E o que aconteceu na América do Sul para mudar assim a cabeça de Neil Young? Segundo os integrantes do Crazy Horse, em entrevistas à revista “Uncut”, os shows no Brasil e Argentina foram tão sensacionais e empolgantes que Neil deixou a tristeza de lado. “Nós estávamos pegando fogo”, disse o guitarrista Frank “Poncho” Sampedro. “Tocar para 200 mil pessoas no Rio de Janeiro foi insano. Quando começamos ‘Like a Hurricane’, a multidão cantou a melodia como se fosse uma torcida de futebol. Quanto mais intenso ficava o solo, mais alto ficava o canto. Eu olhei para Neil e ele estava com a cabeça jogada pra trás, de olhos fechados, solando. Foi um momento tão mágico, cara. Uau.”

O baixista Billy Talbot disse: “Nós temos vídeo daqueles shows. Estávamos tocando muito bem. As gravações de ‘Toast’ não refletiam aquilo”.

Tive a sorte de ver os dois shows deles na América do Sul. O do Rio foi realmente ótimo, mas o de Buenos Aires foi um dos mais emocionantes que já assisti. Leia aqui o texto que fiz para a “Folha” (inclusive, desconfio que “Poncho” se enganou na entrevista e confundiu os shows de Rio com o de Buenos Aires. Porque cantar a melodia como grito de torcida de futebol é muito comum na Argentina, mas aqui, nunca ouvi).

Com o lançamento tardio de “Toast”, agora é possível ouvir, na sequência, aos álbunsextraordinários que Young gravou com o Crazy Horse (e um com o Pearl Jam!) nos anos 90: “Ragged Glory” (90), “Sleeps With Angels” (94), “Mirror Ball” (95), “Broken Arrow” (96) e “Toast”. Que outro artista da geração dele lançou álbuns tão bons depois de 30 anos de carreira? Difícil pensar em alguém.

Um ótimo dia a todas e todos.

10 comentários em "Neil Young e o disco que ficou inédito por causa do Brasil"

Deixe seu comentário

Ir para o topo