Navalny: crônica de uma morte anunciada
O mundo não é preto ou branco. A vida real não é uma novela, com mocinhos de coração puro e bandidos malévolos. Por mais que as polarizações – políticas, sociais, partidárias, ideológicas – que temos vivido nos últimos tempos queiram transformar o mundo num Fla x Flu, a verdade é bem mais complexa.
Nos últimos anos, tenho lido bastante sobre Alexei Navalny, o ativista russo e principal nome da oposição a Vladimir Putin. Se você acredita na narrativa dos defensores de Navalny, ele é um herói montado num cavalo branco, que surgiu para libertar a Rússia do jugo ditatorial de Putin. Se escolheu acreditar apenas na narrativa pró-Kremlin, Navalny não passa de um nazista e fantoche da CIA.
Como alguém que perdeu boa parte da família em campos de concentração e só nasceu porque os avós fugiram da perseguição de Hitler, não uso a palavra “nazista” à toa. Para alguém ser chamado de nazista, precisa merecer.
A acusação que se faz contra Navalny é de que ele teria participado, há uns 15 anos, de marchas nacionalistas que incluíram simpatizantes neonazistas. Isso é verdade. Também o criticam por declarações xenófobas, que os defensores de Navalny dizem terem sido tiradas de contexto (ele estaria se referindo a “extremistas estrangeiros”). A Internet pulula com supostos “vídeos reveladores”, pró e contra Navalny. Em entrevistas, Navalny confirma que esteve nessas marchas nacionalistas e que seu objetivo era criar uma coalizão ampla contra o regime autoritário de Putin, “que pode incluir pessoas com as quais eu não concordo”.
Resumindo: eu receberia Navalny em casa para um jantar familiar? Certamente não. Isso faz dele um “nazista”? Acho que não. Navalny apoiou os protestos antirracistas do movimento “Black Lives Matter” nos Estados Unidos, e não acho que um nazista faria isso.
Os fatos, indiscutíveis, são os seguintes: Alexei Navalny era a maior pedra no sapato de Putin e vinha sendo sistematicamente perseguido por ele há duas décadas. Putin tinha tanto medo de Navalny que nunca disse seu nome em público e proibiu todo o governo de fazer o mesmo. Navalny foi tirado da eleição presidencial com acusações claramente inventadas e depois foi preso. Em 2020, foi envenenado na Sibéria e quase morreu. Voltou a Moscou no início de 2021, foi imediatamente preso e condenado – por extremismo e fraude – a 19 anos de cadeia em julgamentos secretos e sem a presença da imprensa.
Finalmente, em 16 de fevereiro, a mídia estatal russa anunciou a morte de Alexei Navalny, ocorrida numa prisão de segurança máxima localizada ao norte do Círculo Ártico, a 1900 km de Moscou. Segundo relatos oficiais, ele teria colapsado durante uma caminhada.
A HBO Max exibe “Navalny”, um documentário sobre o ativista. O filme se concentra nos dias após o envenenamento e acompanha todo o processo de investigação da tentativa de homicídio, terminando com a prisão de Navalny ao retornar a Moscou, no início de 2021. O que começa como uma ampla reportagem sobre o envenenamento se transforma em um “thriller” de espionagem à John Le Carré, especialmente depois da entrada de um personagem fascinante, o jornalista búlgaro Christo Grozev, especializado em investigações usando cruzamento de dados eletrônicos e informações rastreadas na Internet.
Não vou contar muito para não estragar a surpresa, mas a forma como Grozev descobre os autores do atentado contra Navalny é incrível. Mais incrível ainda é o “trote” que ele e o próprio Navalny passam para um dos criminosos, que acaba revelando detalhes perturbadores – especialmente para Putin – sobre o atentado. Ver “Navalny” hoje é chocante porque o tema da morte dele é uma constante no filme. A primeira pergunta do diretor, o canadense Daniel Roher, é justamente sobre a possibilidade de Navalny ser assassinado. Ao longo do filme, familiares, amigos e admiradores de Navalny discorrem sobre o tema. E saber que hoje, dois anos depois do lançamento do filme, seu personagem-título está morto, beira o surreal.
13 comentários em "Navalny: crônica de uma morte anunciada"
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A imprensa ocidental chega ao fundo do poço ao idolatrar um humorista quinta categoria como Zelensky e esse picareta chamado Navalny, ambos apoiados por grupos abertamente nazistas.
Tudo pela russofobia mais caricata.
Caricato é alguém ainda apoiar o Putin.
Troquemos o autoritário Putin por algum fantoche autoritário do Ocidente. Teremos as mesmas liberdades e garantias constitucionais solapadas, jornalistas e opositores mortos, com a diferença de ter algumas oligarquias ocidentais pilhando a Rússia, o que basta bastará para acalmar a histeria ocidental via imprensa e filmes ruins em Hollywood, regredindo os indicadores econômicos e sociais do país.
Já aconteceu com Gorbachev e Boris Iéltsin, inclusive.
Difícil vai ser convencer o povo russo a embarcar nesse remake.
Tá certo, hoje não tem nenhuma oligarquia pilhando a Rússia. Abraço.
Assisti ontem e realmente foi uma aposta bem arriscada em voltar para a Rússia, tava na cara que ele seria preso e morto pelo governo Putin. PS: Navalny não era nenhum santo…rs mas era corajoso….
André, você não acha que nesta questões políticas e ideológicas outra palavra bastante desgastada é “fascista ” ?!
George Orwell já falada disso em um artigo de 1948! FASCISTA passou a ser um xingamento a todos aqueles que dizem ou tem opinião diferente da esquerda. É impressionante como parte da imprensa e artistas em geral fazem uso dessa palavra de forma tão equivocada. Portanto faço a mesma pergunta : Se todo mundo que pensa diferente é ” fascista ” , o que acontece quando vc encontra um fascista de verdade ?
Demais da conta. Todo mundo é “fascista”.
Bom dia André. Assisti esse documentário quando a HBO disponibilizou, e me lembro que a parte do trote foi realmente algo totalmente inesperado, quase surreal. Aproveitando o tema política internacional, não sei se você viu, mas por enquanto está no catálogo do Prime Video os 3 Carlos do Olivier Assayas, que também acho que valem muito a pena.
Sério que o “Carlos” tá no Prime? Amo esses filmes, vou escrever sobre eles, muito obrigado pela dica.
Sim cara, passei um bom tempo sempre olhando se entrava em algum streaming, até que acabei desistindo. Só que esses dias assisti O Dia do Chacal do Fred Zinnemann lá no Prime, e no fim veio a indicação do Carlos.
Que demais.
“Como alguém que perdeu boa parte da família em campos de concentração e só nasceu porque os avós fugiram da perseguição de Hitler, não uso a palavra “nazista” à toa. Para alguém ser chamado de nazista, precisa merecer.”
Xará, ler esse parágrafo, ainda mais nessa semana, foi muito foda. Palavras como “nazistas” e “holocausto” realmente precisam de muita reflexão e entendimento para serem usadas.
A sugestão sobre o documentário é ótima e pertinente, mas a forma como resenhou essa recomendação é melhor ainda.
Abração
Pois é, xará, as palavras têm significados. Se todo mundo é “nazista”, o que acontece quando vc se depara com um nazista de verdade? Chama do quê? Abraço.