Não deixe de ver “Na Fronteira”
Alguns filmes permanecem com a gente muito depois de terminarem. “Na Fronteira”, de Ali Abbasi, é um deles. Vi pela primeira vez há três ou quatro semanas e não consigo parar de pensar e falar sobre ele.
O filme é de 2018 e ganhou o importante prêmio Um Certo Olhar no Festival de Cannes, mas, por alguma razão, eu o havia ignorado. Não me chamou atenção sequer o fato de o roteirista, o escritor sueco John Ajvide Lindqvist, ser o mesmo do inesquecível “Deixa Ela Entrar” (o original sueco, não o “remake” americano), um dos filmes de vampiro mais originais que já vi.
Hoje, depois de ver “Na Fronteira” duas vezes e pronto para vê-lo outras mais, acho um dos filmes mais impactantes e criativos dos últimos anos. É difícil prever se uma obra vai se eternizar em seu subconsciente, mas desconfio que esse já virou, para mim, referência de uma obra de arte sem concessões e que contém multitudes, um filme que criou um universo próprio.
Pra começo de conversa, é difícil classificá-lo. Começa como um “thriller”, depois vira uma fábula, um romance e, por fim, mergulha no gênero do cinema fantástico, mas sempre com um pé na realidade.
A história começa mostrando o dia a dia de Tina (Eva Melander), uma jovem de feições grotescas, que trabalha como guarda em um posto marítimo de alfândega na Suécia. Tina parece ter um olfato apuradíssimo e é capaz de identificar aromas que denunciam bagagens proibidas de alguns passageiros. Mas não só: ela exibe também uma espécie de sexto sentido, que lhe permite identificar um homem que traz, escondido num cartão de memória, fotos comprometedoras.
Um dia, passa pela alfândega Vore (Eero Milonoff), um homem de feições parecidas com as de Tina. A princípio, Tina é repelida pela figura de Rove, mas logo passa a se interessar por ele, e as vidas dos dois vão se entrelaçar de forma surpreendente.
Contar mais seria estragar uma surpresa que, acredite, não deve ser maculada. Porque cada minuto de “Na Fronteira” é um assombro. A história vai ganhando em drama e profundidade, e o que parece uma história inusitada de um encontro entre pessoas “diferentes” se transforma, por fim, numa fábula sobre nossos preconceitos.
“Na Fronteira” está disponível para locação no Google Play e Apple TV. Para achá-lo, é mais fácil procurar pelo título em inglês, “Border”.
15 comentários em "Não deixe de ver “Na Fronteira”"
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Ok. Nesse ponto de vista está correto.
Barcinski,
Os dois personagens principais, Tina e Vore, são trolls. Troll é uma entidade fantástica do folclore escandinavo. O filme todo é baseado nesses personagens. Troll não existe. Que realidade tem nesse filme? Um troll se adaptou ao mundo humano (Tina) e o outro não (Vore). Vore além de não se adaptar odeia os humanos. Acho que a premissa do filme é se os trolls existissem como seria a adaptação deles na Suécia nos dias de hoje. Na Fronteira é um ótimo filme, tem vários gêneros cinematográficos mas é baseado em personagens que não existem, folclóricos. No final a Tina recebe uma caixa com um bebê dentro. Peludinho, com um rabo e que se alimenta de insetos. Esse bebê é humano? Não é. É um filhote de troll. Desculpe os spoilers mas não tinha outra maneira de colocar o meu ponto de vista.
Eu sei, Renato. Mas a Tina tem um emprego, ela trabalha num lugar de verdade, o Vore faz contrabando de crianças de verdade. O mundo em que eles habitam não é fantasioso, e disso vem, na minha opinião, boa parte da beleza do filme.
um filmaço que mistura vários gêneros e que do qual é possível extrair várias interpretações filosóficas! realmente muito bom!
Tem razão, interpretações múltiplas…
Barcinski,
Acabei de ver o filme e gostei muito. Na minha opinião não resta dúvida que o gênero do filme é fantasia. Nenhum ser humano é capaz de farejar um cartão de memória de um celular. A partir desse momento a minha expectativa era de um filme fantástico. Coisas que fogem da capacidade humana. A revelação do que eles realmente são mata esse questão pois tais criaturas não existem. Pensei que fosse alguma coisa ambiental, contaminação das águas e etc..
Ele tem elementos fantasiosos, mas os personagens habitam o mundo real.
Mto legal Barca, assisti ontem e gostei bastante. Notei so que tem um erro de digitacao no nome do personagem Vore (o texto diz Rove) abs.
Muito obrigado, vou corrigir.
O filme realmente é originalíssimo e muito impactante. Fiquei surpreso por você ter gostado tanto do filme, mesmo sendo uma fantasia, e sabendo que vc não curte alguns cânones do gênero hehehe. Fica uma sugestão pra vc fazer uma lista dos filmes de fantasia que vc gosta. Abs!
Mas vc acha que esse filme se encaixa no gênero de fantasia? Tenho minhas dúvidas…
Barça uma dica eu procurei com,”Na fronteira” e achei uns dezenas de filmes com este nome, a busca ficou mais fácil com o nome em inglês ,”Border”.
Obrigado, vou incluir no texto.
Excelente filme, Barça.
Deixa uma sensação esquisita de doçura e perturbação. Faz tempo que vi mas algumas cenas – como a do sexo entre eles, por exemplo, ainda estão cravadas na minha memória.
Impossível esquecer.