“Muito Além do Jardim”: o canto do cisne de Hal Ashby
Dia desses revimos “Being There” (“Muito Além do Jardim”, 1979), um maravilhoso filme de Hal Ashby com Peter Sellers, baseado num livro do escritor polonês Jerzy Kozinski (que é autor também do roteiro).
Apesar de ser um dos melhores filmes de Ashby, “Being There” representou o fim de uma era de ouro para o cineasta. O que Ashby fez nos anos 70 tem poucos paralelos na história do cinema: uma sucessão de seis grandes filmes – “Ensina-me a Viver” (1970), “A Última Missão” (1973), “Shampoo” (1975), “Bound for Glory” (1976), “Amargo Regresso” (1978) e “Being There” (1979).
Desses, três são obras-primas: “Ensina-me a Viver”, uma comédia de humor sombrio sobre o amor de um menino por uma idosa, “A Última Missão”, uma pérola do cinema contracultural em que Jack Nicholson faz um oficial da Marinha encarregado de levar para a prisão um jovem marinheiro (Randy Quaid), e “Being There”, um drama cômico surrealista sobre um jardineiro (Peter Sellers) que passou a vida toda trancado numa casa vendo televisão e, de repente, sai para o mundo e cai na alta roda da política norte-americana. Os três são obrigatórios.
“Being There” foi um sucesso de público e crítica: Melvin Douglas venceu o Oscar na categoria de melhor ator coadjuvante, e Peter Sellers foi indicado na categoria de melhor ator. O filme foi indicado a seis Globos de Ouro (venceu dois) e disputou a Palma de Ouro em Cannes.
Mas o que deveria ser um triunfo para Ashby acabou sendo o início de sua derrocada. Ele já vinha sofrendo com problemas de uso de drogas lisérgicas e ganhando fama de ser um diretor “difícil” de lidar. No fim dos anos 70, quando os estúdios pararam de investir em filmes mais ousados e ligados à “Nova Hollywod” e saíram em busca do novo “Guerra nas Estrelas”, ele se tornou, subitamente, um pária em Hollywood.
Ashby tinha planos de voltar a filmar com Peter Sellers, mas o ator morreu subitamente, de um ataque do coração, aos 54 anos. Ashby nunca se recuperou. A morte do amigo e colaborador, somada às crescentes dificuldades para obter financiamento, levaram Ashby a crises de depressão. Nos anos 80, ele faria seis filmes, cada um pior e mais deprimente que o outro, até morrer de câncer pancreático, em 1988, aos 59 anos.
Há um bom documentário, “Hal” (infelizmente fora dos streamings no Brasil), que conta a vida do cineasta. Mas os grandes filmes que ele fez nos anos 70 estão aí e merecem ser vistos.
Um ótimo dia a todas e todos.
15 comentários em "“Muito Além do Jardim”: o canto do cisne de Hal Ashby"
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Esse filme marcou muito minha vida. Pela temática dela vejo que influenciou muito o próprio Forrest Gump e ainda conta como a atuação mais sensacional do gênio da comédia Peter Sellers, que considero uma das maiores de toda a história do cinema. Uma obra antológica e que merece ser revisitada. A direção também é divina e sem dúvida é um dos clássicos absolutos dos anos 70.
A Última Missão é um dos meus filmes preferidos. Vou logo procurar os outros que você indicou para assistir no final de semana..
Ainda não consegui ver esse doc sobre o Ashby, é meio difícil. Gosto de todos esses filmes dele que você citou, ainda não vi “Bound for Glory”.
Difícil mesmo, Renata. Vi num cinema em Nova York há alguns anos.
André, uma pena que a atual Hollywood não carrega quase nada da ousadia e da genialidade da Nova Hollywood, do qual o Hal Ashby fez parte, inclusive no livro do Peter Biskind, o Hal era quase como um símbolo humano daquele movimento, o seu auge e o seu fim…
Sim, era o mais autêntico hippie daquela turma..
*Telecine.
Já tive oportunidade de ver “Being There”, no Telecien, acho e perdi… vou reparar esse erro o quanto antes.
Algum deles estão em streaming?
Sim, procura no app Just Watch, alguns existem.
Vi Muito Além do Jardim no cinema, na época. Ótimo filme. E revi A ‘Última Missão outro dia. Também muito bom. Ensina-me a viver é ótimo.
Eu adoro ‘Bound for Glory’, uma filmagem da lenda de Woody Guthrie…
Pois é, também gosto, mas será que está no mesmo nível dos filmes que citei?
Ja’ faz alguns anos que eu tento convencer minha filha, que se considera cinefila, a assistir “Ensina-me a Viver”, um dos melhores filmes de humor negro que eu vi.
Há algumas coisas que pais são OBRIGADOS a fazer pelo bem dos filhos.