ago/2022

“Muito Além do Jardim”: o canto do cisne de Hal Ashby

Por André Barcinski

“Muito Além do Jardim”: o canto do cisne de Hal Ashby

Por André Barcinski

Dia desses revimos “Being There” (“Muito Além do Jardim”, 1979), um maravilhoso filme de Hal Ashby com Peter Sellers, baseado num livro do escritor polonês Jerzy Kozinski (que é autor também do roteiro).

Apesar de ser um dos melhores filmes de Ashby, “Being There” representou o fim de uma era de ouro para o cineasta. O que Ashby fez nos anos 70 tem poucos paralelos na história do cinema: uma sucessão de seis grandes filmes – “Ensina-me a Viver” (1970), “A Última Missão” (1973), “Shampoo” (1975), “Bound for Glory” (1976), “Amargo Regresso” (1978) e “Being There” (1979).

Desses, três são obras-primas: “Ensina-me a Viver”, uma comédia de humor sombrio sobre o amor de um menino por uma idosa, “A Última Missão”, uma pérola do cinema contracultural em que Jack Nicholson faz um oficial da Marinha encarregado de levar para a prisão um jovem marinheiro (Randy Quaid), e “Being There”, um drama cômico surrealista sobre um jardineiro (Peter Sellers) que passou a vida toda trancado numa casa vendo televisão e, de repente, sai para o mundo e cai na alta roda da política norte-americana. Os três são obrigatórios.

“Being There” foi um sucesso de público e crítica: Melvin Douglas venceu o Oscar na categoria de melhor ator coadjuvante, e Peter Sellers foi indicado na categoria de melhor ator. O filme foi indicado a seis Globos de Ouro (venceu dois) e disputou a Palma de Ouro em Cannes.

Mas o que deveria ser um triunfo para Ashby acabou sendo o início de sua derrocada. Ele já vinha sofrendo com problemas de uso de drogas lisérgicas e ganhando fama de ser um diretor “difícil” de lidar. No fim dos anos 70, quando os estúdios pararam de investir em filmes mais ousados e ligados à “Nova Hollywod” e saíram em busca do novo “Guerra nas Estrelas”, ele se tornou, subitamente, um pária em Hollywood.

Ashby tinha planos de voltar a filmar com Peter Sellers, mas o ator morreu subitamente, de um ataque do coração, aos 54 anos. Ashby nunca se recuperou. A morte do amigo e colaborador, somada às crescentes dificuldades para obter financiamento, levaram Ashby a crises de depressão. Nos anos 80, ele faria seis filmes, cada um pior e mais deprimente que o outro, até morrer de câncer pancreático, em 1988, aos 59 anos.

Há um bom documentário, “Hal” (infelizmente fora dos streamings no Brasil), que conta a vida do cineasta. Mas os grandes filmes que ele fez nos anos 70 estão aí e merecem ser vistos.

Um ótimo dia a todas e todos.

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