set/2024

Megafestival é onde a música vai para morrer

Por André Barcinski

Megafestival é onde a música vai para morrer

Por André Barcinski

Peço licença para voltar a um assunto que me aflige, mas que acredito que aflige também a todos vocês: a crise no mercado de shows.

Semana passada, o festival Primavera anunciou o cancelamento de suas edições na América Latina, depois de apenas dois anos de eventos realizados no Brasil.

Dias depois, o Rock in Rio anunciou uma adição ao line-up: no dia 19 de setembro, o ator e rapper Will Smith vai se apresentar num show de 20 minutos (juro, estava escrito no release de imprensa!) antes da apresentação de Gloria Groove.

Parece um ato de desespero, e é.

Na última edição do Rock in Rio, em 2022, os ingressos para os sete dias esgotaram em menos de uma semana. Em 2024, faltando cinco dias para o evento, ainda restam ingressos para três das sete noites (não por coincidência, um dos três dias com ingressos ainda disponíveis é justamente o dia 19).

Não existe apenas uma explicação para a crise no mercado de shows ao vivo no Brasil, mas um conjunto de fatores: custos cada vez mais altos de produção (motivados, basicamente, por monopólios do mercado de entretenimento em todo o mundo), desvalorização do real frente ao dólar e euro e aumento absurdo no custo de passagens aéreas e frete depois da pandemia.

Confesso que fiquei bem surpreso com o fato de o Rock in Rio estar com ingressos encalhados, porque é um festival que já se tornou um imenso evento turístico e há muitos anos não depende da música para vender ingressos. Explico:

O Rock in Rio é um festival de música em que a música importa menos que a “experiência” de ir ao festival. E quem diz isso não é nenhum detrator do evento, mas o próprio criador do Rock in Rio, o publicitário Roberto Medina. “Nas pesquisas, 50% das pessoas dizem que vão pela banda e 50% pelo evento. Não é verdade. Elas vão 100% pelo evento. O Rock In Rio no Brasil está consolidado, ele esgota de qualquer jeito antes de abril. Quatrocentas mil pessoas vão comprar bilhetes sem saber nada sobre o que vai tocar lá”, disse Medina à Rádio Renascença, de Portugal. À revista “Época Negócios”, Medina afirmou: “As pessoas não vêm pela banda. As pessoas vêm pela energia e pela experiência que elas vivem aqui. É muito comum encontrar gente na rua que não sabe em qual dia foi ao Rock in Rio. Ele só sabe que já foi ao evento, mas nem sabe quem estava tocando”.

Roberto Medina criou o sonho dourado de qualquer publicitário dono de festival: um evento que independe das atrações musicais e esgota os ingressos independentemente de quem está tocando. Isso é ótimo para as finanças do festival, mas péssimo para a música.

Há pelo menos duas décadas, o Rock in Rio tem muito mais importância corporativa e turística do que credibilidade artística. É um evento gigante e que atrai centenas de milhares de turistas ao Rio de Janeiro, lota hotéis e incrementa a economia local. Mas pergunte a qualquer fã de música qual foi o show mais memorável que viu no festival, e é difícil que alguém escolha algum artista ou banda que veio depois de 2001, último ano em que o evento teve um line-up realmente de qualidade, abarcando vários gêneros. Naquele ano, os destaques internacionais foram Sting, James Taylor, Guns N’ Roses, Foo Fighters, R.E.M, Neil Young, Beck, Oasis, Britney Spears, N’Sync, Iron Maiden, Sheryl Crow, Dave Matthews e Red Hot Chili Peppers. Talvez alguém escolha Stevie Wonder ou Elton John, que vieram em 2011, ou Bruce Springsteen, que tocou em 2013, mas é inegável que os anos de ouro do festival, em termos artísticos, foram as três primeiras edições, em 1985, 1991 e 2001.

O que nos leva à programação do Rock in Rio em 21 de setembro de 2024.

Nesse dia, o festival dividiu o Palco Mundo em quatro shows: “Pra Sempre Rock”, “Pra Sempre Sertanejo”, “Pra Sempre MPB” e “Pra Sempre Trap”. A porção “rock” do dia terá Capital Inicial, Detonautas, NX Zero, Pitty, Rogério Flausino e Toni Garrido. A divulgação está vendendo o evento como “um encontro inédito de grandes artistas do rock para celebrar a nossa música e inspirar mudanças positivas que contribuam para um mundo melhor”. O que ninguém explica é como ver o Detonautas tocando com Toni Garrido vai contribuir para um mundo melhor.

Isso não é uma programação, mas um catadão de artistas conhecidos feito unicamente para agradar a um público que, o próprio dono do festival diz, nem sabe quem está tocando e, se sabe, não se importa muito. Nada contra os artistas escolhidos, são nomes fortes do pop-rock brasileiro, mas é difícil crer que algum deles se sinta artisticamente realizado ao tocar como música de fundo num parque de diversões enquanto a multidão anda de roda-gigante, pula na tirolesa e se engalfinha para conseguir um boné de um patrocinador que vende a ilusão de um “mundo melhor”.

Se o criador do evento não liga tanto assim para a música, por que fãs de música deveriam ligar para o evento? Hoje, o Rock in Rio parece interessar muito mais a cadernos de turismo,  economia e fofoca (“Viram a celebridade no camarote da marca tal?”) do que aos críticos de música. E sob esse aspecto, a inclusão de Will Smith faz todo sentido.

Um ótimo dia a todas e todos.

16 comentários em "Megafestival é onde a música vai para morrer"

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    As três primeiras edições marcaram a vida de muita gente, como a minha, principalmente a de 85. Hoje em dia, pra ir a shopping center, prefiro o Rio Sul, aqui pertinho de casa.

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    Estive na edição de 2001 (na noite do Guns/Oasis) e já era isso tudo que você falou… muita gente pelo evento e nem aí pras bandas, e pagando preços abusivos por um copo d’água, por exemplo. Eu assisto pela TV por puro prazer de avacalhar com os playbacks dessas porcarias tipo Will Smith (não seria o máximo estar na primeira fila usando uma máscara de Chris Rock?).

    Quanto a valor de ingressos, tu viu os valores surreais que a Ticketmaster está cobrando pelos ingressos dos shows da volta do Oasis? Eu pagaria, se tivesse grana, mas pagaria chorando.

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    Fui em 2011 no Rock in Rio no dia do metal que ainda tinha Motorhead, Slipknot e Metallica.. prometi para mim mesmo não ir mais em festivais ou dois últimos que fui (The Town e Lollapalooza 2024). The Town horroroso…. Ontem o Lollapalooza divulgou o line-up..

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    E outro pitaco: Até falei no Instagram, mas repito por aqui, que o Brasil é o único lugar do mundo onde o filme do Will Smith não está completamente queimado por conta do jab que ele deu no Chris Rock lá no Oscar, então se fosse ele, me mudaria de mala e cuia pra cá, por isso que a participação dele no Rock in Rio faz todo o sentido!!!

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    André, acho que o próprio formato dos mega festivais está cansando o público e também os grandes headliners estão morrendo, ou se aposentando ou em declínio artístico e a reposição não está sendo feita a altura, o que estimula o desinteresse do público, em especial aquele que tem condições de arcar com os elevados preços dos ingressos…

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    Ainda não tinha tido a curiosidade de ver o line-up dos shows, mas pelo jeito que foi exposto eu diria que pior que esta’ não da’ para ficar. O bom e velho rock’n roll voltou a ser para um publico nicho no Brasil e acho que no mundo todo. Alias, o NX Zero não são aqueles caras conhecidas pelas calças coloridas?

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