Luz e trevas: 10 filmes para entender o Expressionismo Alemão
Se você tivesse de escolher os filmes de um determinado movimento cinematográfico para levar para uma ilha deserta, qual seria? O Neorrealismo italiano dos anos 40? A Nouvelle Vague francesa dos 60? O cinema americano dos 70? Filmes japoneses dos anos 60?
Eu não tenho dúvida: levaria uma seleção de filmes Expressionistas alemães da década de 1920. Nada pode ser mais emocionante.
Além da qualidade dos filmes, há outro fator que motiva qualquer um a assisti-los: a facilidade de acesso. Muitos dos clássicos do gênero estão em domínio público e podem ser vistos de graça no Youtube, com legendas em português. E streamings como Belas Artes à La Carte e Telecine trazem ótimas seleções.
O Expressionismo no cinema alemão nasceu logo depois da Primeira Guerra, quando o governo baniu filmes importados e o país precisou desenvolver sua indústria de cinema. Na época a Alemanha passava por um momento terrível de pobreza, medo e conflitos sociais, e uma nova geração de cineastas começou a fazer obras que refletiam esse estado caótico.
Eram filmes estranhos e perturbadores sobre homens insanos, monstros, bandidos sádicos, vampiros, lendas mitológicas e sociedades totalitárias. Esteticamente, eram filmes radicais, fotografados em tons altamente contrastados de preto e branco e com cenários tortos e bizarros que refletiam a cofusão mental dos personagens.
Até surgir o Expressionismo, o cinema preocupava-se em mostrar a realidade exterior. Já o Expressionismo estava mais interessado na realidade interior dos personagens, por mais assustadora e desagradável que fosse.
Aqui vai uma lista, em ordem cronológica, de dez grandes filmes Expressionistas. Se você se interessa pelo tema, sugiro dois excelentes livros traduzidos em português e que podem ser encontrados em sebos: “A Tela Demoníaca”, de Lotte Eisner, e “De Caligari a Hitler”, de Siegfried Kracauer.
O Gabinete do Doutor Caligari (Robert Wiene, 1919)
Se você quer ver um filme que represente a estética Expressionista comece por esta obra-prima sobre um médico demente, Caligari (Werner Krauss) que usa um sonâmbulo, Cesare (Conrad Veidt), para cometer crimes e espalhar o terror numa pequena cidade.
O Golem (Paul Wegener e Carl Boese, 1920)
Baseado em uma antiga lenda judaica, conta a história de um rabino de Praga que cria uma enorme criatura de argila, o Golem, para proteger seu povo. Mary Shelley supostamente usou muitos elementos da história para criar Frankenstein.
Nosferatu (F.W. Murnau, 1922)
Max Schreck faz o conde Graf Orlok, que sai de seu castelo na Transilvânia e leva a praga a uma pequena cidade alemã enquanto sonha em meter os dentes no pescoço de Ellen, a linda esposa de um agente imobiliário. Ainda não fizeram uma cena de terror mais assustadora do que o navio abandonado chegando ao porto trazendo os caixões com Orlok e milhares de ratos.
Haxan – A Feitiçaria Através dos Tempos (Benjamin Christensen, 1922)
Vou cometer um sacrilégio: incluir, numa lista de clássicos Expressionistas alemães, um filme sueco dirigido por um dinamarquês. Mas “Haxan” não só traz as principais características do gênero, como é um dos melhores e mais perturbadores filmes da época, uma mistura de documentário e reencenações inspirado pelo “Malleus Maleficarum”, um tratado alemão de 1486 sobre bruxaria e perseguições a bruxas e ocultistas. Se tiver chance, veja o DVD lançado pela Criterion, que traz uma versão do filme narrada pelo escritor beat Wiliam Burroughs e com música de Jean Luc-Ponty. E boa sorte tentando dormir depois…
O Gabinete das Figuras de Cera (Paul Leni, 1924)
Num circo mambembe, um jovem poeta é contratado para escrever histórias sobre três figuras de cera que são exibidas aos espectadores: Jack o Estripador, Ivan o Terrível e o Califa de Bagdá. Em sonhos, o poeta assiste a histórias sobre os personagens. A sequência do Califa é uma das passagens mais lindas do cinema, com cenários que lembram as obras do catalão Gaudí.
A Última Gargalhada (F.W. Murnau, 1924)
Diferentemente da maioria dos filmes da lista, “A Última Gargalhada” não lida com temas sobrenaturais ou de terror. É um drama sobre um orgulhoso porteiro de hotel que é humilhado quando o transferem para um posto menos prestigioso. Destaque para a atuação de Emil Jannings no papel principal. Jannings foi um dos grandes atores da história do cinema alemão, mas depois aliou-se ao nazismo e fez diversos filmes de propaganda (Tarantino cita Jannings numa cena de “Bastardos Inglórios”).
Os Nibelungos (Fritz Lang, 1924)
Dividido em dois filmes – “A Morte de Siegfried” e “A Vingança de Kriemhild” – e baseado na famosa lenda nórdica, é uma superprodução de quase cinco horas, com cenários embasbacantes e algumas das sequências mais lindas do cinema germânico dos anos 1920.
Fausto (F.W. Murnau, 1926)
Muitos cineastas deram suas versões para a lenda alemã de Fausto, o homem que faz um pacto com o diabo, mas nenhuma chega perto da versão de Murnau, com Emil Jannings (ele de novo!) no papel de Mephisto, o demônio que tenta corromper a alma do alquimista Fausto (Gösta Ekman).
Metropolis (Fritz Lang, 1927)
Nenhuma lista estaria completa sem a obra-prima distópica e futurista de Fritz Lang sobre uma sociedade controlada por poderosos e onde a patuleia vive nos subterrâneos. O estilo dos cenários é bem diferente das tortuosas casas de “Caligari”, com uma estética “clean” e metálica, mas a sensação de aprisionamento e violência é a mesma.
M – O Vampiro de Dusseldorf (Fritz Lang, 1931)
Único filme sonoro dessa lista e a última grande obra do Expressionismo alemão. Peter Lorre faz um atormentado assassino de crianças que provoca uma caçada humana sem precedentes em Dusseldorf. O final é uma das coisas mais arrepiantes que o cinema já produziu.
17 comentários em "Luz e trevas: 10 filmes para entender o Expressionismo Alemão"
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A Globo uma vez passou “Haxan” depois da meia noite. Acho que eu tinha uns oito anos na época e, porque o filme e também meio documentário, eu achei que era tudo verdade. Resumo: passei um mes dormindo na cama com meu pai e minha mae.
Ate hoje um dos filmes mais assustadores que ja vi.
Abraços
Oi Lola, que legal ler sua mensagem. Tudo bem por aí? “Haxan” na Globo eu não sabia, obrigado pela lembrança…
Tudo bem, Andre 🙂
Pois e, acho que na época eles jogaram um subtítulo no Haxan, acho que era algo como “o diabo atraves dos tempos”.
Abraços para vc e sua familia
“A Feitiçaria Através dos Tempos”, não? Que legal ter passado na Globo. Beijos em todos aí!
André, uma dúvida: A Leni Riefenstahl, a famosa “cineasta do Hitler” seria também uma expressionista? Ou seria uma influenciada pelo movimento?
Nunca a vi incluída entre os Expressionistas. Até porque começou a dirigir depois do fim do movimento.
já enviei via o endereço disponivel no pé da pag
Muito obrigado, recebido!
Comprei o Gabinete do Dr. Calegari lançado pela Obras Primas do Cinema em Bluray. Uma edição gloriosa, com imagem fantástica e áudio espetacular em DTS-HD Master, recomendo fortemente!
Assisti “Metropolis” e “M” não faz 1 mês no youtube. Eu adorei Metropolis, mas “M” foi uma das melhores coisas que eu assisti no ano. Recomendo demais procurar uma entrevista do Fritz Lang (no youtube também) onde ele fala da época que o partido Nazista “convidou” ele para trabalhar com eles. Chega a ser surreal.
Essa história é incrível. Ele era casado com a Thea Von Harbou, que era nazista. Lang fugiu de lá, deixando país e esposa.
Patrick McGillian, autor da biografia Fritz Lang – The nature of the beast contesta essa história de que, em 1933, Lang teria sido convidado por Gobbels a assumir a dieção do cinema na Alemanha com Thea von Harbou, e o desdobramento dessa história – que, em vez disso, Lang saiu do ministério, comprou uma passagem de tem e fugiu para Paris com a roupa do corpo e alguns trocados no bolso, deixando a nazista Thea para trás, e nunca mais voltou. McGillian propõe o seguinte: não há indício nos diários de Gobbels (que anotava tudo) de nenhuma proposta a Lang; O testamento do dr. Mabuse estava proibido por Gobbels; a avó de Lang era judia; há registros de várias entradas e saídas de Lang da Alemanha antes de ir para os Estados Unidos; e, somente em 1942, com os Estados Unidos já na guerra, é que Lang começou a falar do convite de Gobbels – como se só então precisasse afirmar seu “súbito antinazismo”. Outro motivo, ainda segundo McGillian, é que, por aqueles dias, Lang apanhara Thea von Harbou na cama com um ator indiano e se tornara a piada das ruas de Berlim.
O que você acha? Já tinha lido esse livro? Essas afirmações se sustentam?
Abração
Não sei, todos os livros que li contam a versão de que ele teria saído da Alemanha para não se render ao nazismo. Que Lang vinha de família judia, era sabido. Vou pesquisar e procurar essa bio do Lang, que não li.
Excelente post Barça.
Assisti os mais óbvios e vou atrás dos outros.
Concordo contigo, a cena do navio chegando no porto com o caixão do Nosferatu e os ratos é realmente inesquecível.
Sugestão…
Faz um top list de comédias italianas clássicas!
Boa ideia, farei!
Fala Barça, acompanho seu trabalho há mais de 10 anos, desde quando descobri por acaso um texto seu no blog da folha, comecei a ler sem parar e naquela noite virei a madrugada lendo quase tudo. Me tornei assinante aí e finalmente pude dar uma pequena contribuição. Por falar no assunto, você acha que o trabalho jornalístico e de criadores de mídia vai mudar agora pra sempre com esse esquema de assinaturas? Por um lado me parece interessante e justo mas tenho receio se é uma coisa sustentável e também como fica para os mais novos que estão entrando no negócio e que ainda não conseguiram conquistar o seu público. Recentemente fiquei sabendo da plataforma substack e estou considerando virar assinante, você conhece? Parece que tem coisas legais e muita gente interessante publica lá, por exemplo o Edward Snowden, o Jeff Tweedy do Wilco, também o Kareem Abdul-Jabbar que escreve bem pra caramba, tem muita coisa.
Cara, pra mim, hoje, o esquema de assinatura é a única coisa que funciona. Mercado de trabalho para jornalismo cultural simplesmente acabou. Concordo que é ruim para jornalistas mais novos, mas é a realidade do mercado. E conheço sim a Substack, tem uma oferta grande conteúdo.