set/2022

Joe Bussard: adeus ao homem que amava os discos

Por André Barcinski

Joe Bussard: adeus ao homem que amava os discos

Por André Barcinski

Uma parte importante da história discográfica da primeira metade do século 20 se foi na segunda, 26 de setembro de 2022, quando morreu, aos 86 anos, na cidade de Frederick, no estado norte-americano de Maryland, o colecionador e arquivista Joe Bussard.

Desde os sete anos de idade, quando ouviu e se apaixonou por um disco de Gene Autry, Bussard começou a colecionar discos. Mas não qualquer disco: sua obsessão eram os velhos vinis de 78 rotações da música folk americana – blues, country, cajun, zydeco, bluegrass, gospel e, mais tarde, o jazz – especialmente os gravados nas décadas de 1920 e 1930. Por quase 80 anos, ele reuniu uma coleção de mais de 25 mil discos de 78 rotações, muitos em cópias únicas, que só existem porque ele as guardou.

No início da década de 1950, Bussard começou a viajar pelos Estados Unidos, parando em pequenos vilarejos isolados e perguntando por discos velhos. Como os discos de 78 rotações haviam caído em desuso, substituídos no gosto popular por modernas bolachas de 45 rotações, muita gente ficou feliz em se livrar daquelas velharias.  

Bussard era um tradicionalista: para ele, a música acabara em 1947, quando interesses comerciais transformaram as gravações e aniquilaram a autenticidade dos sons primitivos. “O jazz acabou antes, em 1933”, dizia. E o blues teve a sorte de durar mais: “Até 1955, quando o rock’n’roll tomou conta e o blues foi para as cidades. Foi o fim”.

Bussard amava a tradição, mas nunca foi daqueles colecionadores que escondiam discos para que ninguém mais os conhecesse. Ele amava tanto a música que fazia de tudo para divulgá-la para o maior número de pessoas, mesmo que, para isso, precisasse quebrar a lei. Foi o que fez em 1955, aos 19 anos, quando montou uma rádio pirata no porão de casa e passou a transmitir programas com jóias esquecidas da música country. No ano seguinte, fundou a gravadora Fonotone, a última nos Estados Unidos a lançar discos em 78 rotações e que gravou os primeiros discos do guitarrista John Fahey.

Incontáveis coleções de blues, country e jazz foram compiladas da coleção de Bussard e lançadas em CD. Especialistas destacam a imensa seleção de discos raríssimos gravados entre 1926 e 1932, que jogaram luz sobre cenas musicais locais de estados como a Géorgia, Texas, Arkansas e Louisiana. “Foi o período mais glorioso da música de raiz nos Estados Unidos”, dizia Bussard. “Sabe por quê? Porque não havia um grande comércio de discos, essas músicas não eram ouvidas fora de suas regiões, e músicos não recebiam influências de outros músicos. Você ouvia um violonista da Geórgia e ele tocava muito diferente de um violonista do Texas, os estilos locas predominavam”.

Há inúmeras reportagens e entrevistas com Joe Bussard na Internet, mas sugiro ver esse filme de 30 minutos, infelizmente sem legendas, que conta a vida dele e traz fotografias muito bonitas de sua vida:

Um ótimo fim de semana a todas e todos.

6 comentários em "Joe Bussard: adeus ao homem que amava os discos"

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