“In Utero”, por quem estava lá
Este ano é o 30º aniversário do lançamento de “In Utero”, último álbum de estúdio do Nirvana, e o comediante e apresentador Conan O’Brien teve uma ideia genial: reuniu, em seu podcast, três dos quatro responsáveis por aquele disco antológico: o baterista Dave Grohl, o baixista Krist Novoselic, e o produtor Steve Albini. O único ausente, claro, foi Kurt Cobain.
Durante quase 80 minutos, os três contaram detalhes sobre a gravação do álbum e os métodos de trabalho do Nirvana. Foi uma conversa muito divertida e informativa, que você pode escutar nas plataformas de streaming ou aqui, em inglês:
Separei alguns dos trechos mais curiosos:
O estúdio no meio do nada: “In Utero” foi gravado no Pachyderm, um estúdio em Cannon Falls, no meio do estado do Minnesota, onde Steve Albini já havia trabalhado. A decisão de gravar num lugar tão remoto foi tomada por várias razões: em primeiro lugar, Cobain estava em tratamento de recuperação de heroína e seria difícil mantê-lo “limpo” se a banda estivesse em Nova York ou Los Angeles. Todos acharam que o isolamento faria bem à banda e ajudaria os três a se concentrar no disco. Albini tinha receio de que a notícia vazasse e fãs lotassem a entrada do lugar, então reservou as datas com um nome falso, sem contar sequer aos donos do estúdio que o Nirvana estaria lá.
Disco “gestado” no Brasil: Grohl e Novoselic contam que, depois dos conturbados shows que o Nirvana fez no Brasil, eles tinham uma semana de folga no Rio, e decidiram ir a um estúdio (da gravadora RCA, em Copacabana) para ensaiar músicas novas e fazer demos. “Fazia dois anos que não tínhamos dias livres”, diz Grohl. “Boa parte do disco foi criada ali”.
Tédio no estúdio: Albini é conhecido por trabalhar rapidamente e gravar as bandas tocando juntas, e a gravação das bases não levou mais de três ou quatro dias, o que deixou Dave Grohl sem nada para fazer enquanto Cobain escrevia as letras e gravava os vocais. “Fiquei uma semana lá sem p*rra nenhuma pra fazer. Estávamos no meio do inverno e o lugar parecia aquele hotel de ‘O Iluminado’. Nevava tanto e estava tão frio que era impossível passar mais de dez minutos ao ar livre, ou as suas mãos congelavam”.
Quinta série reinou: Para driblar o tédio, a banda e Albini recorriam a trotes e piadas de gosto duvidoso: uma das favoritas da turma era botar fogo num líquido usado para limpar as fitas de gravação. Albini era tão bom nesse quesito que botou fogo nas calças de Grohl (mais especificamente, na bunda) e acendeu um charuto nas chamas. Outro hábito adquirido durante as gravações foi passar trotes para pessoas famosas. Novamente, Albini foi o mestre de cerimônias: quando a banda soube que o Kiss queria que o Nirvana gravasse uma música para um disco-tributo, Albini ligou para Gene Simmons, fazendo-se passar por Kurt (ele imitava Kurt perfeitamente) e disse pro linguarudo que o Nirvana não toparia. Depois, ligaram na Austrália para Evan Dando, líder do grupo Lemonheads, fazendo-se passar pelo agente de Madonna. “Porra! A Madonna quer falar comigo!”, gritou Dando, para gargalhadas gerais. Albini gravou todos os trotes.
Kurt e seu violãozinho fajuto: Segundo Novoselic, Kurt gostava de gravar os vocais enquanto tocava um violão velho. Por isso, explica Albini, em todos os vocais de Kurt, dá para ouvir um violãozinho ao fundo.
Letras escritas na hora: Quando foi gravar “Serve the Servants”, Kurt cantou o verso: “Teenage angst has paid off well / Now I’m BALD and old” (“A angústia adolescente rendeu uma nota / agora estou CARECA e velho”). Novoselic disse que o verso era ridículo, e Kurt mudou para “BORED and old” (“Entediado e velho”).
Versão pesada de “Nevermind”: Albini lembra que Kurt o mostrou as fitas originais da gravação de “Nevermind”, mixadas por Butch Vig, mas antes da mixagem final, feita por Andy Wallace, e que o som era “fantástico”, dando a entender que a “polida” no som do disco foi obra muito mais de Wallace do que de Vig.
Pat Smear tornou o clima mais leve: Grohl e Novoselic falaram da turnê de lançamento do álbum e da entrada de Pat Smear, ex-guitarrista do grupo punk Germs. No primeiro show da turnê, com a banda ainda enferrujada, o Nirvana recebeu uma crítica supernegativa de uma jornalista do jornal “USA Today”. Estava todo mundo no ônibus, chateado com o texto e reclamando da jornalista, quando Pat quebrou o gelo: “Galera, mas ela falou a verdade: nós fizemos um show de merda mesmo!”
O blog volta sexta, dia 17. Um ótimo feriado a todas e todos.
6 comentários em "“In Utero”, por quem estava lá"
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Gosto tanto ou até mais do In Utero do que do Nevermind. Cara, houve um tempo em que a gente ouvia Nirvana no rádio! Bons e velhos tempos.
André, o In Utero é o meu álbum favorito do Nirvana, pois além de mais pesado, ele expõe como funcionava a cabeça e a vida atormentada do Kurt Cobain de uma forma muito mais verdadeira do que o Nevermind e com eles com mais recursos enquanto músicos e tocando melhor do que no Bleach…
Gosto bem mais do In Utero que do Nevermind, sempre achei que soa mais natural.
O NIRVANA é legal, mas é a banda mais superestimada da história. Se formos nos prender apenas aos discos e esquecermos do hype, veremos que ali há uma boa banda, mas nada além disso! O que a mídia norte americana queria era um SEX PISTOLS para chamar de seu, e conseguiu!!!!A imprensa não faria isso com uma banda estritamente política, musicalmente ousada e “perigosa” como o DEAD KENNEDYS, por exemplo, então pegou o NIRVANA, quase 10 anos depois, que focava apenas no comportamental, conservadora em sua música e inofensiva e caricatural na personalidade. A banda tinha o discurso perfeito para o identitarismo que começava a se infiltrar no mercado de entretenimento. As pessoas precisam aprender a desconfiar quando o status quo começa a divulgar algo como “revolucionário”, “ousado” e “contestador”. É só ir estudar a história: quando um novo artista é tudo isso mesmo ele recebe apenas porradas e desprezo da imprensa e não essa babação de ovo toda…E, para terminar, o endeusamento de Kurt representa a tomada de poder da cultura pop pelos nerds e eles, que antes serviam apenas para tomarem cascudos na escola, ainda continuam poderosos mesmo depois de tanto tempo, infelizmente!
Nossa, quanta baboseira.
Lembro que o SAlbini meteu o pau no Nirvana na entrevista que deu pra ti, e acabou gravando o disco seguinte da banda.
A propósito, minha edição do “Barulho” rinalmente chegou em minhas mãos aqui em Vancouver trazida por uma amiga. Uma lindeza! Grato e orgulhoso por ter participado da campanha.
Saudações tricolores