out/2022

“Hallelujah”: como Leonard Cohen fez sua canção mais marcante

Por André Barcinski

“Hallelujah”: como Leonard Cohen fez sua canção mais marcante

Por André Barcinski

Imperdível é “Hallelujah: Leonard Cohen, Uma Jornada, Uma Canção”, documentário de Dan Geller e Dayna Goldfine sobre o poeta, cantor e compositor Leonard Cohen (1934-2016).O título pode ser alugado no Youtube Filmes, Google Play, Apple TV, Claro TV, Microsoft e Amazon.

Na verdade, o filme não é só uma biografia, mas aborda um tema raro em documentários: o processo criativo. O tema central é a canção mais famosa de Cohen – “Hallelujah” – e como ela, de certa maneira, resume a carreira do compositor, tanto estilisticamente, com seu tema ligado à fé e sexualidade, mas também biograficamente, tendo sido rechaçada, a princípio, para depois ser redescoberta e adorada por muitos.

O filme usa raras cenas de arquivo e exibe os cadernos e diários de Cohen, dezenas de volumes em que ele anotava ideias para versos. Antes de ser cantor e compositor, Leonard Cohen era poeta. Começou a carreira musical aos 30 anos, e é fascinante acompanhar o lento e burilado processo de criação de suas letras.

A letra de “Hallelujah” levou cerca de dez anos para ficar pronta. E, na verdade, nunca foi finalizada, já que Cohen, quando a interpretava ao vivo, sempre mudava algo nos versos, diferenciando-a versão original gravada para o álbum “Various Positions” (1984). No filme, vemos Cohen, nos anos 80, sendo entrevistado pelo amigo Larry “Ratso” Sloan, repórter da revista “Rolling Stone”: “Lembro estar num hotel, de cueca, deitado no chão e batendo a cabeça no tapete porque não conseguia terminar a letra”, diz Cohen. Ao que Sloan pergunta: “Você acha que todo compositor pop tem o mesmo cuidado com as letras?” A resposta de Cohen é hilariante: ele simplesmente olha sem reação para Sloan, como se nunca tivesse se perguntado isso antes e não conhecesse outra maneira de criar.

A vida de Cohen é contada em cenas de arquivo: o início, como poeta beat no Canadá, a vinda para Nova York e a revelação tardia de seu talento, os discos maravilhosos que não vendiam nada, a admiração de poucos e bons – Dylan, Judy Collins, Joni Mitchell, John Cale.

Em 1984, depois de uma experiência tenebrosa com o produtor Phil Spector, que soterrou a poesia de Cohen em arranjos bombásticos no álbum “Death of a Ladies Man”, Cohen procura um antigo colaborador, John Lissauer, e grava o LP “Various Positions”. O disco abria com uma faixa antológica e que Lissauer tinha certeza que seria um hit: “Dance Me To End of Love”. A faixa que abria o lado B era igualmente marcante: “Hallelujah”. Cohen e Lissauer ficaram felicíssimos com o resultado.

Infelizmente, Walter Yetnikoff, então chefão da Columbia, gravadora de Cohen, não concordou, e mandou simplesmente engavetar o disco, que não foi lançado nos Estados Unidos (uma gravadora pequena lançou o LP alguns anos depois, mas sem nenhuma repercussão). Grande parte do seleto fã-clube de Cohen ficou sem conhecer “Hallelujah”.

Por sorte, John Cale (ex-Velvet Underground) ouviu Cohen cantando a música num show no Beacon Theatre, em Nova York, e resolveu gravá-la no álbum-tributo “I’m Your Fan”, lançado em 1991.  Foi essa versão de Cale que ressuscitou comercialmente a música. Três anos depois, o cantor Jeff Buckley, que não conhecia a versão original de Cohen, ouviu a gravação de Cale e resolveu gravar a música em seu único disco, “Grace” (Buckley morreria afogado no rio Mississipi, em 1997, aos 30 anos).

Na voz de Buckley, “Hallelujah” se tornou um hino e se popularizou no mundo todo. Em 2001, a canção, na versão de John Cale, foi incluída no filme “Shrek” (na trilha sonora, a versão foi gravada por Rufus Wainwright), e dali virou arroz-de-festa em casamentos, cerimônias religiosas e em programas de TV tipo “The Voice”.

O documentário é um pouco longo – precisaria mesmo de 10 minutos de versões horríveis de “Hallelujah” para mostrar a popularidade tardia da canção? – mas isso não diminui o deleite que é ver as entrevistas de Cohen e cenas de seus shows.

Amanhã, sábado, republico um texto que fiz em 2012 sobre um show de Leonard Cohen em Madri.

Um ótimo fim de semana a todos.

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