jul/2023

Há 50 anos, Willie Nelson inventou o country fora-da-lei

Por André Barcinski

Há 50 anos, Willie Nelson inventou o country fora-da-lei

Por André Barcinski

Em 1973, Willie Nelson tinha 40 anos e 15 LPs lançados. Era um veterano da música country e tinha a vida ganha. Mas algo não estava bem. Willie estava cansado da cena de música de Nashville, onde morava, e percebia que o country estava estagnado criativamente. O “Som de Nashville”, com suas produções grandiosas, vocais de apoio delicados e arranjos de metais e cordas suaves e comerciais, já não o interessava.

Um ano antes, Willie tinha se mudado para Austin, no Texas, e mergulhara de cabeça na cena da música caipira underground da cidade. Influenciados pela contracultura e por grupos de rock, uma notável geração de cantores/compositores começou a fazer uma música country mais simples e espartana, com letras niilistas que falavam de excessos e da vida na estrada. Essa turma incluía, além de Willie, nomes como Waylon Jennings (e a esposa, Jessi Colter), Merle Haggard, Kris Kristofferson, Tompal Glaser, David Allan Coe e muitos outros.

A música feita por esses grandes artistas logo ganhou um nome: “Outlaw Country” (“Country Fora-da-Lei”).

Se a cena punk teve por berço o CBGB’s, o Outlaw Country também teve a sua meca: um grande galpão decrépito em Austin, chamado Armadillo World Headquarters. Inaugurado em 1970 e conhecido por The ‘Dillo, o lugar virou parada obrigatória para toda banda estrangeira (AC/DC, The Clash) e artistas americanos de rock, blues e jazz, de Bruce Springsteen a Frank Zappa, de Freddie King a Ray Charles. Mas a casa ficou conhecida mesmo pelas incontáveis sessões da turma do Outlaw Country.

Inspirado pelo despojamento da cena local e doido para levar sua música para um caminho mais solto e visceral, Willie Nelson largou a gravadora RCA, onde estava desde o terceiro álbum, de 1965, e foi para a Atlantic, selo de Led Zeppelin, Crsoby, Stills, Nash & Young, Ray Charles e Aretha Franklin. E o resultado foi “Shotgun Willie”.

Lançado há 50 anos – mais precisamente, em 11 de junho de em 1973 – “Shotgun Willie” pode não ter sido o primeiro disco de Outlaw Country da história, mas foi um marco do movimento. Tem a mesma importância que a estreia dos Ramones significou para o punk e o primeiro álbum do Black Sabbath representou para o heavy metal. Na faixa-título, Willie parece fazer um mea culpa sobre a falta de direção de seus trabalhos recentes:

Você não pode fazer um disco se não tem nada a dizer

Você não pode fazer música se não tiver nada para tocar

Shotgun Willie (Willie do Rifle) está sentado de cuecas

Mastigando uma bala e arrancando os cabelos

O disco todo tem letras sombrias, que contrastavam com a música solar e comercial que vinha de Nashville. Os títulos diziam tudo: “Rio de Uísque”, “Você Parece o Diabo”, “Canções e Valsas Tristes”, “Bolhas na Minha Cerveja”, e por aí vai. É um daqueles discos que você ouve uma vez e nunca mais esquece.

Por falar em cerveja, o consumo da bebida no ‘Dillo era tão intenso que o lugar se tornou o segundo maior vendedor de cerveja no Estado do Texas, atrás apenas do estádio Astrodome, em Houston, que recebia públicos de até 65 mil pessoas. A turminha de Willie Nelson não estava para brincadeira.

Veja Willie e banda ao vivo em 1974, tocando “Stay All Night, Stay a Little Longer”.

Uma ótima semana a todas e todos.

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