Há 50 anos, Willie Nelson inventou o country fora-da-lei
Em 1973, Willie Nelson tinha 40 anos e 15 LPs lançados. Era um veterano da música country e tinha a vida ganha. Mas algo não estava bem. Willie estava cansado da cena de música de Nashville, onde morava, e percebia que o country estava estagnado criativamente. O “Som de Nashville”, com suas produções grandiosas, vocais de apoio delicados e arranjos de metais e cordas suaves e comerciais, já não o interessava.
Um ano antes, Willie tinha se mudado para Austin, no Texas, e mergulhara de cabeça na cena da música caipira underground da cidade. Influenciados pela contracultura e por grupos de rock, uma notável geração de cantores/compositores começou a fazer uma música country mais simples e espartana, com letras niilistas que falavam de excessos e da vida na estrada. Essa turma incluía, além de Willie, nomes como Waylon Jennings (e a esposa, Jessi Colter), Merle Haggard, Kris Kristofferson, Tompal Glaser, David Allan Coe e muitos outros.
A música feita por esses grandes artistas logo ganhou um nome: “Outlaw Country” (“Country Fora-da-Lei”).
Se a cena punk teve por berço o CBGB’s, o Outlaw Country também teve a sua meca: um grande galpão decrépito em Austin, chamado Armadillo World Headquarters. Inaugurado em 1970 e conhecido por The ‘Dillo, o lugar virou parada obrigatória para toda banda estrangeira (AC/DC, The Clash) e artistas americanos de rock, blues e jazz, de Bruce Springsteen a Frank Zappa, de Freddie King a Ray Charles. Mas a casa ficou conhecida mesmo pelas incontáveis sessões da turma do Outlaw Country.
Inspirado pelo despojamento da cena local e doido para levar sua música para um caminho mais solto e visceral, Willie Nelson largou a gravadora RCA, onde estava desde o terceiro álbum, de 1965, e foi para a Atlantic, selo de Led Zeppelin, Crsoby, Stills, Nash & Young, Ray Charles e Aretha Franklin. E o resultado foi “Shotgun Willie”.
Lançado há 50 anos – mais precisamente, em 11 de junho de em 1973 – “Shotgun Willie” pode não ter sido o primeiro disco de Outlaw Country da história, mas foi um marco do movimento. Tem a mesma importância que a estreia dos Ramones significou para o punk e o primeiro álbum do Black Sabbath representou para o heavy metal. Na faixa-título, Willie parece fazer um mea culpa sobre a falta de direção de seus trabalhos recentes:
Você não pode fazer um disco se não tem nada a dizer
Você não pode fazer música se não tiver nada para tocar
Shotgun Willie (Willie do Rifle) está sentado de cuecas
Mastigando uma bala e arrancando os cabelos
O disco todo tem letras sombrias, que contrastavam com a música solar e comercial que vinha de Nashville. Os títulos diziam tudo: “Rio de Uísque”, “Você Parece o Diabo”, “Canções e Valsas Tristes”, “Bolhas na Minha Cerveja”, e por aí vai. É um daqueles discos que você ouve uma vez e nunca mais esquece.
Por falar em cerveja, o consumo da bebida no ‘Dillo era tão intenso que o lugar se tornou o segundo maior vendedor de cerveja no Estado do Texas, atrás apenas do estádio Astrodome, em Houston, que recebia públicos de até 65 mil pessoas. A turminha de Willie Nelson não estava para brincadeira.
Veja Willie e banda ao vivo em 1974, tocando “Stay All Night, Stay a Little Longer”.
Uma ótima semana a todas e todos.
9 comentários em "Há 50 anos, Willie Nelson inventou o country fora-da-lei"
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Caro André,
Você já ouviu falar de Twones Van Zandt? Parece que esse artista teve sua obra lembrada por uma regravação de Willie Nelson. Abraço!
Sim, foi um cantor/compositor muito influente no meio country, tem discos maravilhosos.
Caro André,
Documentário sobre Townes Van Zandt – Be Here To Love Me , no Youtube
Obrigado!
Os que vieram nos anos seguintes, “Phases and Stages” e Red Headed Stranger” também são incríveis. E depois ainda teve o “Stardust”, que para mim são as versões definitivas daqueles standards.
André, que som!
Não conhecia e coloquei pra tocar enquanto lia o post.
Valeu mesmo pela indicação.
Abração.
Eu tenho o Shotgun Willie em cd… encontrei uma edição importada aqui em Porto Alegre por míseros 30 mangos. Daqueles discos que são maravilhosos do início ao fim.
André, quando querem ser doidões, os caras do country americano botam os roqueiros, bluesman, techneiros todos no chinelo!!!!
E não conhecia esse álbum do Willie Nelson, achei uma bela indicação de um discaço, valeu André!!!!
Muito legal assistir os vídeos e ver como toda a banda parecia estar se divertindo.