Filme mostra o lado sombrio do “Sonho Americano”
Não tenho relação comercial com a plataforma MUBI, mas não canso de recomendá-la aqui porque considero sua seleção de filmes muito boa. Além de oferecer filmes novos de cinematografias pouco divulgadas aqui – títulos da África, América Latina e de cineastas menos conhecidos da Ásia – e trazer sempre retrospectivas de artistas importantes (Joseph Losey, Lina Wertmuller, Wong Kar-Wai, John Schlesinger e outros), a plataforma oferece filmes recentes que não mereceram a atenção devida.
É o caso de “Era Uma Vez em Nova York” (2013), de James Gray. Esqueça o título oportunista, que tenta surfar a onda de Sergio Leone e vender o filme como um épico histórico. O título original, “The Immigrant”, diz tudo: o filme é um drama comovente sobre pessoas que vieram tentar a sorte na “Terra das Oportunidades”, os Estados Unidos (obrigado ao Moacir, que informou que o filme está também na Amazon Prime).
A história se passa em 1921, quando chega ao país, vinda da Polônia, a jovem Ewa (Marion Cotillard), acompanhada da irmã, Magda. Por uma série de infortúnios e atos de corrupção, Ewa acaba sob os cuidados de um malicioso “empresário”, Bruno Weiss (Joaquin Phoenix, parceiro constante de James Gray). Sob a fachada de comandar um espetáculo burlesco, Weiss também é um cafetão que agencia mulheres. Logo depois, surge na vida de Ewa um mágico, Orlando (Jeremy Renner), que se apaixona por ela.
“Era Uma Vez em Nova York” não tente reinventar a roda. Não há grandes arroubos estilísticos ou narrativos. É simplesmente um ótimo filme, contado de maneira tradicional, mas com extrema competência. A fotografia do incrível Darius Khondji um craque que trabalhou com Woody Allen, David Fincher, Bertolucci e Bong Joon-ho, entre muitos outros, é linda em seus tons de sépia e em sua cara de fotografia esmaecida. Direção, atuações, roteiro, tudo é feito com muita sensibilidade e talento.
Uma das grandes virtudes do filme é confrontar o clichê do imigrante que chega à “Big Apple” e é recebido com flores e carinho. James Gray mostra que a realidade foi muito diferente: mulheres eram selecionadas por agentes da Alfândega e forçadas a se prostituírem; famílias eram separadas e pessoas, deportadas, se isso servisse à corrupção oficial.
Gray sabe o que está dizendo. Seu nome verdadeiro é Grayevksy, e sua família veio da Ucrânia na mesma época retratada no filme. Ele sabe que a lenda da América cordial é só isso, uma lenda. A vida lá, se por um lado realmente oferecia oportunidades que muitos expatriados por guerras e conflitos étnicos conseguiram agarrar, por outro lado, também cobrava seu preço. Uma ótima semana a todas e todos.
9 comentários em "Filme mostra o lado sombrio do “Sonho Americano”"
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O James Gray é um baita cineasta, gosto muito dos outros filmes dele com o Phoenix, We Own the Night e The Yards.
Vou ver o quanto antes. Barça, viu “Coringa”, como Phoenix? que achou?
Gostei bastante, até eles “explicarem” os atos do Coringa por causa de traumas de infância. Problematizar gibi?
André, além do MUBI, esse filme também está no Amazon Prime Video.
Boa, vou adicionar ao texto, muito obrigado!
Vi esse filme na época em que saiu. É bem bom.
Barça, não tem a ver com o post, mas você já leu “O Crepúsculo do Mundo”, o último livro do Werner Herzog? É sobre um soldado japonês que é deixado vigiando uma ilha na Segunda Guerra e por décadas se recusa a acreditar que ela acabou. É curtinho (tem menos de 100 páginas) e é bem bacana.
Abs.
Comprei e não li ainda, acredita? Tá numa pilha aqui. Obrigado pela dica, vou ler.
Tem um filme a respeito: Onoda 10.000 nuits dans la jungle, está no Imovision, que tá na Amazon.
Opa, boa dica, não conheço.