abr/2024

Filme desvenda o gênio de Steve Martin

Por André Barcinski

Filme desvenda o gênio de Steve Martin

Por André Barcinski

O público brasileiro só conhece Steve Martin do cinema, o que é uma pena, porque o que esse cara fez nos anos 70 na comédia “stand-up” foi absolutamente revolucionário.

Entre 1975 e 1980, ele foi o comediante mais famoso do planeta. Ninguém vendia tantos ingressos. Martin esgotou por três noites seguidas o Nassau Coliseum, no estado de Nova York, com capacidade para 16 mil pessoas. Seus discos de comédia lideraram as paradas e venderam, acredite, NOVE MILHÕES de cópias.

Até que um dia, em 1981, Steve Martin decidiu que ia mudar de rumo e simplesmente abandonou os palcos. Nunca mais se apresentou ao vivo. Dali em diante, faria apenas filmes.

Para conhecer a vida e obra desse comediante singular, um ótimo ponto de partida é “Steve!”, documentário em duas partes que está na Apple TV. Dirigido por Morgan Neville, que ganhou um Oscar de melhor documentário por “A Um Passo do Estrelato” (2014) e fez filmes sobre Orson Welles, Anthony Bourdain e Keith Richards, “Steve!” é um trabalho jornalístico revelador e detalhista, com cenas de arquivo surpreendentes. A primeira parte do filme conta a história de Steve Martin na comédia “stand-up” e termina justamente em 1981. A segunda parte fala de sua carreira no cinema.

Filho de uma mãe amorosa e de um pai frio e ausente, Martin conseguiu um bico em 1955, aos dez anos de idade, vendendo programas na recém-inaugurada Disneylândia, na Califórnia. De lá, chegou a São Francisco no fim dos anos 1960, no auge do movimento hippie, a tempo de mergulhar fundo nas drogas, que não curtiu.

Em 2012, quando saiu no Brasil a autobiografia de Martin, “Born Standing Up”, lançada aqui pela editora Matrix com o título de “Nascido para Matar… de Rir”, escrevi:

“Quando percebeu, no fim dos anos 60, que era moleza arrancar gargalhadas da plateia sacaneando políticos como Richard Nixon, abandonou a comédia política para tentar algo mais radical. Seu desafio, mais que fazer rir, era subverter as fórmulas da comédia. Martin criou um estilo de “stand up” quase surrealista, que brincava com metalinguagem e onde enfrentava o público, não de uma forma agressiva, mas sem se dobrar às expectativas de sua audiência.

Para conseguir isso, Martin penou demais. Foram anos e anos de rejeição, desprezo e plateias pequenas. Mas ele acabou triunfando, e sua “não-comédia”, como definiu o amigo Rick Moranis, virou o “stand up” de cabeça para baixo.

A explosão de Steve Martin aconteceu na época da criação do programa de TV “Saturday Night Live”, por volta de 1975/76, que revelou outros atores que também estavam tentando criar algo novo, como Bill Murray, Gilda Radner e Dan Aykroyd.

“Fiz ‘stand up’ por 18 anos”, escreve Martin. “Os dez primeiros, passei aprendendo, os quatro seguintes, aperfeiçoando meu número, e os quatro últimos, ficando rico”.

Steve Martin não era um comentarista social como Richard Pryor ou Lenny Bruce e não tinha o talento histriônico de Jim Carrey ou Eddie Murphy. Seu interesse sempre foi o de desmontar o humor, surpreendendo o público com variações inusitadas na forma de contar uma história.

Ele se formou em filosofia e baseou toda sua comédia nas questões existenciais discutidas em aula. “Eu estudei lógica, e eles falavam em causa e efeito”, diz ele no filme. “Aí você começa a perceber que isso não existe, que não há lógica! (…) Comecei a pensar no que aconteceria se não houvesse clímax, se não houvesse final para a piada… O que aconteceria se eu criasse tensão mas não a liberasse? (…) o que a plateia faria com essa tensão? Eventualmente, ela teria de ser liberada de alguma forma, mas, se eu continuasse a negar ao público a saída fácil de um clímax, as pessoas acabariam escolhendo um lugar para rir, nem que fosse por desespero.”

“Steve!” tem cenas e áudios de arquivo incríveis, como apresentações de Steve Martin ainda adolescente, quando já tentava – olha a audácia do rapaz! – sua comédia transgressora para plateias de oito pessoas. É impressionante ver as imagens de suas turnês no fim dos anos 1970, quando passou a se apresentar em ginásios de esportes. “Ele vendia mais ingressos que o Fleetwood Mac”, diz um entrevistado.

Um ótimo fim de semana a todas e todos.

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