fev/2024

Festa estranha com gente esquisita

Por André Barcinski

Festa estranha com gente esquisita

Por André Barcinski

Numa época em que proliferam megafestivais que veem a música como uma mercadoria, assistir a um filme como “Desolation Center” é um alívio para a alma. Já vi três vezes e sempre me emociono com suas lições de independência, integridade artística e espírito contestador.

Em Los Angeles, no início dos anos 80, um cara chamado Stuart Swezey se encheu da fanfarronice e comercialismo da cena musical e decidiu criar eventos únicos e diferentes, que reunissem bandas e fãs com gosto pelo lado mais radical e anticomercial da música.

O primeiro show do Desolation Center aconteceu no meio do Deserto de Mojave, na Califórnia, com as bandas Minutemen e Savage Republic, dois importantes nomes do punk e pós-punk californiano.

O show foi diferente de tudo que qualquer um já tinha visto: o público (cerca de 200 pessoas) embarcou em ônibus escolares no centro de Los Angeles, sem saber para onde iria. Andaram por cerca de três horas, até chegar a um areal cercado por cactos e pedras. Não havia banheiros ou venda de bebidas. Um pequeno gerador foi ligado em dois amplificadores e microfones. Ventava tanto que os ônibus foram colocados atrás das bandas, formando um bloqueio à areia que teimava em chicotear os presentes.

Desconfortável? Super. Mas também inesquecível.

O público percebeu que nascia ali uma iniciativa diferente e ousada. O Desolation Center não anunciava os shows em jornais e não tinha lista de convidados ou de imprensa. Toda a grana arrecadada com ingressos ia para as bandas e custos de produção. Eram eventos sem alvará, completamente livres do controle das autoridades.

É fascinante ver os depoimentos de alguns dos presentes e perceber como esses shows mudaram as vidas de todos eles. E das bandas também.

Os shows seguintes foram históricos: primeiro, uma hecatombe sonora do grupo industrial alemão Einsturzende Neubauten, com serras elétricas e tambores feitos de aço, criando uma cacofonia de percussão e barulho. Depois, uma viagem lisérgica com Sonic Youth (em um de seus primeiros shows na Califórnia), Meat Puppets, Redd Kross, Swans e outros.

Se o Velvet Underground vendeu 15 discos e mudou o mundo, o mesmo pode ser dito do Desolation Center: seu espírito antagonista e libertário seria incorporado a megaeventos como o festival Burning Man, e a ideia de fazer shows no deserto apelou a Gary Tovar, um traficante de maconha que virou, nos anos 80, um famoso promotor, com sua produtora Goldenvoice, que em 1999 estrearia um pequeno festival chamado Coachella. Quer mais? Uma das bandas que tocou nos shows do Desolation Center foi a então iniciante Jane’s Addiction, cujo vocalista, Perry Farrell, criaria o Lollapalooza.

“Desolation Center” não está em nenhuma plataforma de streaming, mas pode ser visto gratuitamente (com legendas em inglês) aqui. Boa viagem!

4 comentários em "Festa estranha com gente esquisita"

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    Joao Gilberto Monteiro

    André, um mega OT: Você viu ou ficou sabendo do Super Bowl do último domingo???
    É que me lembrei de um texto seu, não sei se foi aqui ou na época em que você escrevia na Gazeta do Povo falando do Tom Brady e no quanto ele era decisivo no esporte, mas o que acha do Patrick Mahomes, dos Chiefs?
    Você acha que ele pode seguir o mesmo caminho?
    Pois, mesmo com a valiosa ajuda da defesa dos 49ers, mas uma vez, ele teve sorte de campeão e liderou o Kansas para mais um título!!!!

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