Festa estranha com gente esquisita
Em janeiro, indiquei aqui no blog o filme “Druk”, do dinamarquês Thomas Vinterberg. Esses dias, recebi da assessoria de imprensa da plataforma MUBI a informação de que um filme ainda mais radical do cineasta, “Festa de Família” (1998), entrara no catálogo do MUBI (achei que já estava, mas vou confiar na assessoria). Se você quiser assistir a um filme magnífico, mas que vai arrasar com sua semana, recomendo fortemente.
“Festa de Família” foi o primeiro longa-metragem filmado dentro dos preceitos do Dogma 95, um movimento criado por Vinterberg e por seu conterrâneo Lars Von Trier que defendia a volta a um cinema mais direto e simples. O manifesto de criação do Dogma 95 proibia uso de tripés (a câmera precisava ser carregada na mão) e de iluminação além da luz que já havia no local de filmagem, além de determinar que o diretor não deveria receber crédito pelo filme. Outros itens do manifesto:
“A filmagem deve ser feita em locações reais. Objetos e cenários não devem ser trazidos ou feitos especialmente para a filmagem (se um objeto é necessário para a história, uma locação deve ser escolhida onde esse objeto já exista).”
“O som não deve ser produzido separadamente das imagens ou vice versa. Música não deve ser usada a menos que esteja ocorrendo na cena que está sendo filmada”.
“Festa de Família” segue à risca a cartilha. Vinterberg não é creditado, e o filme tem uma estética espartana. Tematicamente, é uma paulada: relata um fim de semana num hotel isolado em uma área rural, em que a família dona do lugar celebra os 60 anos do patriarca, Helge (Henning Moritzen), um respeitado homem de negócios.
Logo no início da festa, um dos filhos de Helge, Christian (Ulrich Thomsen), dá o tom do fim de semana ao fazer acusações gravíssimas contra o pai. A história descamba para um tsunami de brigas e revelações absolutamente aterrorizantes. Quem gosta dos primeiros filmes de Roman Polanski, como “Faca na Água” e “Cul de Sac”, vai reconhecer o mesmo clima de paranoia e violência psicológica.
“Festa de Família” foi um grande sucesso: venceu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e tornou Vinterberg e o Dogma 95 conhecidos em todo o mundo. O ator principal, Ulrich Thomsen, seria escalado como vilão de James Bond em “007-O Mundo Não é o Bastante” (1999).
Revi o filme recentemente, e a sensação de desconforto permaneceu a mesma de quando o vi em 1998. As limitações técnicas e a precariedade da produção, marcas do Dogma 95, não atrapalharam em nada a experiência de assisti-lo 25 anos depois do lançamento. Esqueça todo o bafafá e polêmica em torno do Dogma 95: “Festa de Família”, mais que o marco zero de um movimento que já evaporou, permanece como uma experiência cinematográfica radical e impactante.
Uma ótima semana a todas e todos.
8 comentários em "Festa estranha com gente esquisita"
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“se um objeto é necessário para a história, uma locação deve ser escolhida onde esse objeto já exista”
Que demais! Assistirei com certeza.
Vi no MUBI há algum tempo. É uma porrada esse filme.
Filmaço, mas, que ao contrário de você, jamais verei novamente, exceto se obrigado. Extremamente desconfortável presenciar aquilo tudo. Um lugar onde só tem monstros (a cena da canção racista faz com que a gente queira que caia uma bomba ali e mate todos). A estética do Dogma 95 colabora para a sensação de realidade e opressão, o que piora a situação. Sei que não é uma comparação, mas Vinterberg sobra demais em relação ao companheiro de Dogma, Lars von Trier.
Bom dia André. Tenho ele em dvd, e quando assisti a primeira vez, só me lembro de ter falado “caralho” algumas vezes enquanto a história avançava e demonstrava o quanto o patriarca era um lixo. Falando em Vinterberg também gosto muito de A Caça, outro que deixou bastante desconfortável pensando na situação do personagem principal. Acho que poderíamos futuramente fazer um dos nossos encontros sobre o Vinterberg, o que acha?
Acho uma excelente ideia, gosto demais dele.
Bom dia, André. Filmaço daqueles de nao deixar a bola cair um segundo. Assisti no MUBI há pelo menos 4 ou 5 meses.
Ué, que estranho, deve ter saído e voltado então, porque recebi um comunicado da assessoria do MUBI dizendo que o filme havia acabado de chegar à programação.
Assisti em fevereiro ou começo de março. Acho que não chegou a sair do catálogo. Enfim…