Ferrara e Friedkin exploram o submundo de Nova York
Pela enésima vez: não tenho nenhum tipo de relação comercial com nenhuma plataforma de streaming, mas não deixo de elogiar quando alguma delas exibe bons filmes. E a plataforma Filmicca, que já recomendei (leia aqui) está exibindo uma sessão dupla sensacional de filmes que exploram o lado violento e sombrio da cidade de Nova York: “O Vício” / The Addiction” (1995), de Abel Ferrara, e “Cruising” / “Parceiros da Noite” (1980), de William Friedkin.
O primeiro é um filme de vampiros passado nas proximidades da Universidade de Nova York. A grande Lily Taylor faz uma estudante que leva uma dentada no pescoço de uma mulher chamada Casanova (a estonteante Annabella Sciorra) e vira vampira. Ela passa a atacar as colegas de faculdade e pretendentes e começa uma relação com um tipo estranho chamado Peina, vivido por Christopher Walken. Não sei se é coincidência, mas vários monólogos niilistas e filosofais de Peina lembram MUITO textos que José Mojica Marins dizia como Zé do Caixão.
Filmado num preto e branco expressionista, capturado pelo excepcional fotógrafo Ken Kelsh, que fez 15 filmes com Ferrara e morreu de Covid-19, aos 76 anos, “The Addiction” tem roteiro de outro parceiro habitual de Ferrara, o misterioso Nicodemo Oliverio, mais conhecido por Nicholas St. John, que escreveu nove filmes do cineasta, incluindo alguns dos mais incríveis, como “Ms. 45” (1981), “O Rei de Nova York” (1990) e “The Funeral” (1996), mas abandonou o cinema subitamente e nunca mais fez nenhum filme.
Já “Parceiros da Noite” é um dos filmes mais problemáticos da carreira de um cineasta conhecido por filmes problemáticos: William Friedkin. Depois do sucesso mundial de “O Exorcista”, Friedkin, como se tivesse sido amaldiçoado, não emplacou mais nenhum triunfo de bilheteria e suas filmagens passaram a ser marcadas por brigas e problemas logísticos.
Ele fez, na sequência, “O Comboio do Medo”, de 1977 (leia aqui um texto meu sobre o filme), um fracasso comercial que quase acabou com sua carreira, depois uma comédia mal recebida pela crítica, “The Brink’s Job” (1978), o policial “Parceiros da Noite” (1980), que foi destruído pela crítica e pela comunidade gay, e finalmente “Deal of the Century” (1983), uma comédia com Chevy Chase e Gregory Hines que não tem UMA risada. Friedkin só retornaria à boa forma em 1985, com “Viver e Morrer em Los Angeles”.
Voltando a “Parceiros da Noite”: Al Pacino faz um policial que precisa se infiltrar no submundo do couro e sadomasoquismo gay de Nova York para investigar uma série de assassinatos brutais. O filme é um retrato cru do que era Nova York no fim dos anos 70, uma cidade extremamente barra pesada e dominada pelo crime e tráfico de drogas.
O lançamento de “Cruising” foi marcado por grandes protestos da comunidade gay, que acusou o filme de sensacionalismo e preconceito. Visto hoje, é um dos filmes mais marcantes da carreira de William Friedkin e tem uma atuação primorosa de Al Pacino.
Um ótimo fim de semana a todas e todos!
7 comentários em "Ferrara e Friedkin exploram o submundo de Nova York"
Deixe seu comentário
Faça login para publicar um comentário.
Assisti “Cruising” um dia desses e adorei. Aquele final em aberto ficou maturando na minha mente por alguns dias. Gosto de filmes assim.
Também!
E a Annabella Sciorra participou do Sopranos no papel da Glória Trillo, amante do Tony Soprano,
Verdade. Adoro ela.
Não conhecia The addiction, parece bem interessante. Já Cruising é mais um dos grandes filmes do Friedkin !
Pouca gente conhece esse filme do Ferrara.
Cruising é um obra – prima monumental, porém o Friedkin teve problemas com o Pacino (dizem que Pacino chegava atrasado nas filmagens e sem o texto decorado). Friedkin guardou mágoa.
Mas cara, o Pacino despreparado, é 10000 vezes melhor que Adam Drivers da vida.
Rezo para um dia lançarem a biografia, ou o documentário do Friedkin por aqui.