Um dos maiores clássicos do cinema acaba de completar cem anos: “Nosferatu”, de F.W. Murnau.
Revimos em família pela enésima vez, e as imagens continuam assombrosas. O filme está em domínio público e pode ser visto no Youtube e em diversos serviços de streaming: Telecine, Belas Artes à La Carte, Looke e Net Movies.
Lançado em março de 1922, “Nosferatu” é não apenas um dos grandes títulos do cinema Expressionista alemão dos anos 1920 e 1930, mas um dos filmes mais aterrorizantes já feitos. Se hoje é considerado um clássico, na época, poucos ligaram: foi um fracasso de bilheteria e não recuperou seu modesto orçamento.

O que muita gente não sabe é que, por muito pouco, essa obra-prima não foi destruída.
“Nosferatu” não foi o primeiro filme de terror da história do cinema – a marca provavelmente é de “A Casa do Diabo”, filmado por Georges Méliès em 1896 e encontrado, depois de décadas considerado perdido, num arquivo de filmes na Nova Zelândia, em 1988 – mas é o primeiro filme inspirado no romance “Drácula”, de Bram Stoker, lançado em 1897.
“Nosferatu” é bem diferente de “Drácula”: personagens foram mudados, subtraídos ou adicionados. Sem querer dar “spoiler”, mas até o final é diferente. Isso não impediu a viúva de Stoker, Florence, de processar a produtora do filme, uma empresa furreca chamada Prana (que havia falido logo após o fiasco comercial do filme), e ganhar na Justiça o direito de destruir todas as cópias.
Felizmente, Florence não conseguiu seu objetivo. Morreu em 1937, deixando algumas cópias do filme nas mãos de distribuidores e exibidores. Foi isso que salvou “Nosferatu” do desaparecimento.
Hoje, no aniversário de cem anos de “Nosferatu”, vale também homenagear um nome esquecido do filme, e que teve tanta importância no resultado final quanto o diretor, F.W. Murnau: Albin Grau (1884-1971).
Como escreveu Brent Reid, um dos grandes especialistas em cinema mudo e criador de um dos sites mais legais sobre o assunto (veja aqui o especial que ele fez sobre o centenário de “Nosferatu”): “Embora ignorado em favor de Murnau, o verdadeiro responsável pela criação do filme foi o coprodutor e designer de produção Albin Grau. Ele foi um dos fundadores da produtora Prana, iniciou o projeto e selecionou todos os profissionais da parte criativa, incluindo o próprio Murnau, além de contratar o amigo cineasta e ocultista Henrik Galeen (1881-1949) para escrever o roteiro (…) além de um talentoso artista e arquiteto, Grau foi um ocultista fervoroso e responsável pelo visual de todo o projeto. Ele desenhou os sets e figurinos, além de fazer os cartazes, storyboards e material de divulgação. Ele até escreveu a carta, repleta de símbolos ocultos, vista no filme, além dos intertítulos originais. Embora o filme seja sempre associado a Murnau, sem dúvida foi Grau que mais o influenciou”.
Um ótimo dia a todas e todos.
22 comentários em "Feliz 100, Nosferatu!"
Deixe seu comentário
Faça login para publicar um comentário.
Clássico absoluto! André, falando em terror, o que você acha dessa nova safra do gênero, filmes como “Corra!”, “Hereditário” “Babadook”, etc?
Gostei bastante de “Babadook” quando vi, achei bem feito.
Eu gostei. A primeira parte foca na figura que ele apresentava ao público britânico, as excentricidades, sua influência inclusive na família real britânica (principalmente o Príncipe Charles e Lady Di), enquanto que a segunda parte focou nos abusos e relatos das vítimas.
Vou ver se vejo esse fim de semana, valeu.
Barça,
Incrível olhar pra trás e enxergar essas obras no seu contexto histórico. O terror, a monstruosidade, a escuridão liricamente documentadas pelo cinema alemão eram, a final, o terreno fértil para o que logo viria a acontecer.
Sim, inclusive vários dos artistas e técnicos ligados ao Expressionismo tiveram de fugir da Alemanha nazista. Lang, inclusive.
Barça, o que você acha do remake feito pelo Werner Herzog?
Gosto muito, tenho em DVD e assisto sempre, Kinski tá demais.
Andre, no gênero terror literário, você tem grande estima por Lovecraft ? Acho alguns contos dele um tanto maçantes, pelo excesso de adjetivos que carregam.
Gosto muito, inclusive andei relendo com os filhos, depois que a Darkside lançou uma versão para adolescentes, não sei se viu. Mas vc tem razão, as histõrias são muito detalhistas sim.
Revi “Nosferatu” há alguns meses no youtube, e realmente, até hoje impressionam demais a cenografia, as atuações e todo o clima “pesado” do filme… André, você viu “A Sombra do Vampiro”, com John Malkovich interpretando Murnau e Willem Dafoe como Max Schreck? Gostou? Abraço.
Vi na época e lembro ter gostado muito do filme.
A cena do navio chegando ao porto trazendo o caixão do Nosferatu com uma “penca” de ratos dentro é sinistra demais. Inclusive o Robert Eggers vai dirigir um remake do Nosferatu, parece que sai ano que vem.
Sim, e a cena da carruagem andando em velocidade acelerada, essas duas me marcaram muito.
Todo elogio é pouco pra Nosferatu… não me canso de ver e rever.
Verdade, não cansa nunca. Cada cena um deslumbre.
Barça olha só o que a Metzo fez em homenagem ao Nosferatu https://www.lojatoys4fun.com.br/blog/nosferatu-ganha-figure-pela-linha-one-12-collective-da-mezco-toys/. Uma Obra de Arte.
Que demais isso.
André, por falar em terror, você assistiu a série documental sobre as atrocidades de Jimmy Saville?
Cara, vi que estreou, mas não tive tempo de assistir. Vale? Li bastante sobre o caso, é impressionante.
André
Que comentário excelente! E muitíssimo obrigado pela indicação do Brent Reid. Dei uma olhada e tem material para ler para os próximos anos…. abraço
Tem, o site é um absurdo.