Hoje, 3 de novembro de 2021, Charles Bronson faria 100 anos. Em homenagem a este gigante do cinema, recuperei três textos que fiz sobre ele. O primeiro, de 2018, conta a vida dura do ator, que cresceu numa família miserável.
Os dois textos seguintes são mais divertidos. O segundo, de 2013, é um Top 15 de meus filmes prediletos estrelados pelo astro, e o terceiro, de 2018, é uma compilação de dez momentos antológicos de Charlão na série “Desejo de Matar”.
Espero que gostem.
Minas de carvão, pobreza e tragédias pessoais: a saga de Charles Bronson…
Se os fãs conhecessem a história de vida de Charles Bronson, entenderiam por que ele ficou marcado por interpretar personagens tão durões no cinema: a vida do ator faz qualquer um de seus filmes parecer “Cinderela”. Nascido Charles Buchinsky em novembro de 1921, foi o 11º de 15 filhos de uma família lituana que trabalhava em minas de carvão na Pensilvânia (nordeste dos Estados Unidos).
Em 1974, Bronson deu uma entrevista – coisa rara, já que odiava falar sobre si mesmo – ao crítico de cinema Roger Ebert, em que lembrou a dureza de sua infância:
“Lembro que meu pai raspou nossas cabeças para evitar piolhos. Os tempos eram duros. Eu usava roupas que não cabiam mais em meus irmãos mais velhos. E porque as crianças mais velhas em minhas famílias eram meninas, eu era obrigado a usar as roupas delas. Lembro que fui para a escola de vestido. E minhas meias, quando eu chegava em casa, precisava emprestar para meu irmão trabalhar nas minas de carvão”.
Charles trabalhou dentro das minas por quatro anos, 16 horas por dia. Recebia um dólar por cada tonelada de carvão. A família morou – 17 pessoas – no porão da casa de outra família lituana, que tinha oito filhos. O pai de Charles, Valteris, morreu quando o menino tinha 14 anos. Charles cometeu furtos e chegou a ser preso por um curto período. Em casa, todas as crianças falavam lituano e russo, e Charles só aprendeu a falar inglês quando era adolescente.

Um de seus irmãos foi combater os nazistas na Segunda Guerra e disse que preferia enfrentar bombas e granadas a descer mais uma vez naquela mina escura. O próprio Charles serviu na Força Aérea por três anos durante a Guerra. Foi ferido em combate e condecorado por bravura.
De volta aos Estados Unidos, trabalhou colhendo frutas em fazendas e numa padaria, até que resolveu tentar a sorte como ator: “Era o trabalho mais fácil que eu podia pensar em fazer”. Estreou no cinema no início dos anos 50, fazendo pontas em faroestes e filmes de guerra. Na mesma época, mudou o sobrenome para Bronson, para escapar da perseguição anticomunista do Macartismo.
Destacou-se no faroeste “Sete Homens e um Destino” (1960) e nos filmes de guerra “Fugindo do Inferno” (1963) e “Os Doze Condenados” (1967), mas só fez sucesso mesmo na Europa, em faroestes como “Era Uma Vez no Oeste” (1968), de Sergio Leone, e filmes de suspense como “O Passageiro da Chuva” (1970), de René Clément.
No início dos anos 70, Charles Bronson era um dos atores mais famosos do mundo, um astro na Europa e na Ásia. Nos Estados Unidos, no entanto, não tinha a mesma fama. Até que, em 1974, aos 53 anos, ganhou o papel de Paul Kersey, o arquiteto que se torna matador de bandidos em “Desejo de Matar”.
“Desejo de Matar” foi um sucesso de bilheteria, rendendo o que hoje equivaleria a 108 milhões de dólares, mas foi tão violentamente rechaçado pela crítica, que o considerou apologia à violência, que o produtor Dino De Laurentiis não quis fazer uma continuação.
Hoje pouca gente lembra, mas entre o primeiro e o segundo “Desejo de Matar”, houve um intervalo de oito anos. E o segundo filme da série só aconteceu porque o original foi “redescoberto”.
No início dos anos 1980, com a explosão do mercado de videocassetes nos Estados Unidos, “Desejo de Matar” tornou-se um filme dos mais procurados em videolocadoras. Isso levou dois produtores espertíssimos, os israelenses Menahem Golan e Yoram Globus, da produtora Cannon, a comprar os direitos da franquia e fazer outros quatro filmes da série, terminando em 1994, com o quinto “Desejo de Matar”, último filme de Charles Bronson no cinema.
Se a infância de Charles Bronson foi dura, os anos 90 foram os mais difíceis de sua vida.

No fim de 1989, Charles e sua segunda esposa, a atriz Jill Ireland, perderam Jason, filho adotivo de Jill. Jason era viciado em heroína e cocaína, e morreu de overdose em novembro de 1989. Seis meses depois, a lindíssima e talentosa Jill Ireland, com quem Bronson era casado desde 1968 e tinha sete filhos, entre crianças de outros casamentos e adotadas, morreu de câncer.
Em uma de suas últimas entrevistas, ela brincou com sua doença e os personagens violentos interpretados pelo marido: “Charlie não pode simplesmente pegar uma metralhadora e exterminar as células cancerígenas”.
Um Top 15 de Charles Bronson
Aqui vai, em ordem cronológica, meus 15 filmes prediletos estrelados por Charles Bronson. Tem alguns abacaxis no meio, que incluí por razões sentimentais e nostálgicas. Bronson fez parte da vida cinéfila de tanta gente, que muitos iam ao cinema só para vê-lo, sem se importar se o filme prestava. Eu era um deles.
Apache (Robert Aldrich, 1954) – Faroeste mediano, mas ver Burt Lancaster de índio não tem preço.
Machine Gun Kelly (Roger Corman, 1958) – Bronson faz o personagem-título, um gângster e ladrão de bancos que aterrorizou os Estados Unidos na época da Lei Seca, nesse excelente policial de Roger Corman.
Sete Homens e Um Destino (John Sturges, 1960) – Imagine uma defesa dessas: Charles Bronson, Yul Brinner, Steve McQueen e Robert Vaughn. Nem o Messi chegava perto. Faroeste clássico, adaptado de “Os Sete Samurais” de Akira Kurosawa.
Fugindo do Inferno (John Sturges, 1963) – Nazistas levam Steve McQueen, James Garner, James Coburn, Donald Pleasence, James Donald e Charles Bronson a um campo de prisioneiros barra pesada e os desafiam a escapar. Charlão e sua patota dão uma bela lição aos chucrutes.
This Property is Condemned (Sydney Pollack, 1966) – Filme raro, o segundo dirigido por Sydney Pollack. Francis Ford Coppola co-escreveu o roteiro, baseado numa peça de Tennessee Williams sobre um forasteiro (Robert Redford) que chega a uma pequena cidade do sul dos EUA e disputa a gata Natalie Wood com – adivinha? – Charles Bronson.
Os Doze Condenados (Robert Aldrich, 1967) – Esse filme faz “Mercenários” parecer “O Mágico de Oz”: um grupo de soldados e criminosos, incluindo Bronson, Lee Marvin, Ernest Borgnine, Jim Brown, Donald Sutherland, Robert Ryan, John Cassavetes (ele mesmo, o diretor), Telly Savallas e até o cantor Trini Lopez embarcam numa missão suicida: arrepiar um encontro de nazistas na França ocupada. Deve ter batido algum recorde mundial de testosterona num mesmo filme.
Era Uma Vez no Oeste (Sergio Leone, 1968) – Dizer o quê? Se você não viu Bronson tocando gaita e duelando com Henry Fonda, sua vida não está completa.
Passageiro da Chuva (René Clément, 1970) – Um thriller misterioso dirigido na França pelo grande Clément, de “O Sol por Testemunha”. Bronson faz um policial que investiga um estuprador e acaba envolvido com uma de suas vítimas, interpretada por Marlène Jobert. Um dos primeiros – de vários – filmes que Bronson fez com a então esposa, Jill Ireland.
Cittá Violenta (Sergio Solima, 1970) – Outro filmaço policial, dessa vez com Bronson no papel de um matador de aluguel que acaba caçado pelo patrão, o imortal e careca Telly Savallas.
O Segredo da Cosanostra / The Valachi Papers (Terence Young, 1972) – Vi esse filme numa madrugada na Band, há uns 25 anos, e nunca esqueci: Bronson faz um informante condenado à morte pela Máfia. Bom demais.
The Mechanic (Michael Winner, 1972) – Filme surpreendente, na linha do “cinema da paranóia” que marcou thrillers americanos da época, como “The Parallax View” e “Três Dias do Condor”. Bronson faz um matador de aluguel perseguido pela misteriosa corporação para a qual trabalha.
Desejo de Matar (Michael Winner, 1974) – Junto com o “Dirty Harry” de Clint Eastwood, a série “Desejo de Matar” – cinco filmes em 20 anos – foi um marco do cinema de direita e uma reação ao hippismo da época do Vietnã, com personagens isolados em um mundo violento e que decidem fazer justiça com as próprias mãos. O primeiro “Desejo de Matar” é muito bom. Pisque e você perderá um astro do cinema fazendo sua estréia – sem crédito – no filme e levando de presente um balaço do Charlão.
Lutador de Rua (Walter Hill, 1975) – Passa de vez em quando na TV e revejo TODAS as vezes. Bronson faz um desempregado que chega em New Orleans no meio da Grande Depressão e ganha a vida em lutas de rua. Seu agente é o sempre fantástico James Coburn. Estreia de Walter Hill na direção.
Telefone (Don Siegel, 1978) – Esse é outro daqueles filmes que é melhor nem começar a ver porque é impossível parar. Nos Estados Unidos, um homem misterioso telefona para algumas pessoas e declama um poema de Robert Frost. As pessoas imediatamente ficam hipnotizadas – na verdade, eram agentes da KGB inflitrados – e cometem atos de terrorismo. O homem que dá os telefonemas é Donald Pleasence. Bronson faz um militar russo que vai atrás do criminoso, é Charles Bronson. Para melhorar, Lee Remick faz uma sensual agente da CIA e a direção é de Don Siegel.
Caçada Mortal / Death Hunt (Peter H. Hunt, 1981) – Qualquer filme com Bronson, Lee Marvin, Carl Weathers (o Apollo Creed de “Rocky”) e a gostosura da Angie Dickinson já vale o ingresso. Mas esse é bom mesmo, um faroeste/policial sobre um fugitivo – Bronson, claro – perseguido pela Polícia Montada Canadense.
E aqui, uma coletânea de dez grandes momentos da série “Desejo de Matar”.
20 comentários em "Feliz 100, Charles Bronson!"
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Acho os filmes do Charlão e do Clint Eastwood um barato. O mimimi antitestosterona dos críticos…é mimimi e pronto. É filme pra assistir com um copão de whisky e uma tigela de azeitonas (as de comer, não as azeitonas disparadas a rodo no filme…). André, o que achou do Um Dia de Fúria, vale uma coluna hein? Abraço!
Boa ideia, vale sim.
André, acho que faltaram 3 filmes na lista do Top 15. Contei e só tem 12.
Tem razão, Moacir, já consertei!
Textos maravilhosos André. De todos que eu vi o mais marcante continua sendo Era uma vez no Oeste, meu faroeste favorito e top five da minha vida. . A cena do duelo final é a minha preferida de toda a história do cinema mundial. Um misto de poesia, Henry Fonda sensacional como vilão, a melhor trilha sonora de todos os tempos e os olhos mais icônicos da sétima arte, do gigante Bronson. Genial é pouco!!!
Sim, é um momento icônico do cinema. Poesia pura.
Beleza André vc reportou muito bem um pouco da história do mito , Charles Bronson , perfeito todos os filmes dela são épicos e marcaram gerações de fãs. Com certeza Charles cumpriu, com louvor , sua missão com toda certeza . Toda a série de Desejo de Matar para mim sua participação impecável .
Excelentes textos, Barcinski! Dia desses vi “Renegado Impiedoso” (Chato’s Land), onde Bronson vive um apache que mata um general em legítima defesa e passa a ser caçado por Jack Palance para ser enforcado. Filmaço (sou fã do Bronson, então qualquer filme dele, mesmo meia-boca, é filmaço ).
André, bons tempos em que figuras carismáticas (não exatamente talentosas) tinham uma carreira digna no cinema e uma legião de fãs pronta para ver seus filmes, o Charlão da Massa foi um deles…
Gosto também de Lutador de Rua, de Walter Hill, com Jill Ireland e James Coburn
Muito bem lembrado!
A cena inicial do filme, mostrando Charlão chegando na cidade escondido num trem, observando duas crianças pobres na boleia de um caminhão, é um resumo triste, sintético e perfeito da época em que o filme é ambientado, a Grande Depressão dos anos 30
O Telecine Cult homenageará Charlão com 4 filmes na programação de hoje. A cereja do bolo é Pancho Villa, com Bronson, Robert Mitchum chaparral o tempo todo e, pasmem, Yul Brinner no papel-título, com bigodão e peruquinha preta. Burt Lancaster de índio apache eu não perderei (grato pela dica), assim como Brinner de chicano. Favor reparar na cara dele quando contracena com os camaradas de armas, a expressão zombeteira. O que eles devem ter dado de risada nos bastidores, às custas da caracterização do Yul Brinner….demais, simplesmente demais.
Boa! Gosto como ele rouba a cena em Crime Wave, de 1954, do Andre de Toth. Um bom noir B com o Sterling Hayden (mas com um roteiro quase giallo em gratuidade de plot twists).
Gosto demais desse filme. Um dos favoritos do James Ellroy.
Vale lembrar que o Bronsão foi um ator “físico” muito antes dos Stallones da vida, super disciplinado com exercício físico (até onde sei, calistênicos) a vida inteira. Tem uma outra história de que ele sofreu horrores pra filmar “Fugindo do inferno” porque as minas de carvão deixaram ele super claustrofóbico.
Excelente texto sobre Charlao. Só não consegui ler seus 15 mais, pois parece que precisa ser.assinante da folha. Abração.
Sério? Vou postar então. Um minuto.
Coincidentemente revi ontem Era uma no oeste. O mais interessante é o diretor usar um ator com cara de vilão ser o mocinho e vice versa. E Cláudia Cardinalle está no auge da beleza.
Só não entendo o porque de ” Quando explode a vingança” ser considerada uma continuação…
Inesquecível Charlão.
Esses teus posts são lendários Barça.
“Bronson fez parte da vida cinéfila de tanta gente, que muitos iam ao cinema só para vê-lo, sem se importar se o filme prestava. Eu era um deles.”
Eu também!