Está na hora de redescobrir Nancy Sinatra
A gravadora norte-americana Light in the Attic, especializada em relançamentos (o nome diz tudo: “Luz no Sótão”), vem promovendo um lindo trabalho de ressurreição da carreira de Nancy Sinatra.
No último ano, lançou uma coletânea com 23 faixas, “NancySinatra: Start Walkin’ 1965–1976”, centrada nos discos que Nancy lançou com o cantor, compositor e produtor Lee Hazlewood (1929-2007). Em setembro, a gravadora promove o relançamento do primeiro LP de Nancy, “Boots” (1966), que trouxe o hit mundial “These Boots Are Made for Walkin’”.
Além de “Boots”, a parceria entre Nancy e Lee rendeu inúmeros hits, como “Sugar Town”, “Some Velvet Morning” e “Bang Bang (My Baby Shot Me Down)”, esta composta por Sonny Bono para a então esposa, Cher, regravada por Nancy com produção de Lee, e tornada mundialmente famosa quando Quentin Tarantino a usou na abertura de “Kill Bill Volume 1”, em 2003.
Nancy Sinatra tem 81 anos e deu várias entrevistas para promover os relançamentos. Contou da desconfiança da indústria musical quando resolveu iniciar a carreira e lançou o LP “Boots” pela gravadora Reprise, fundada por seu pai, Frank Sinatra: “Muita gente achou que ele estava me protegendo”, disse a cantora à revista “Mojo”, “Mas meu pai era um homem de negócios; se o meu disco não vendesse, eu seria despedida, com certeza”.
Mas os discos venderam bem. E venderam, em grande parte, porque Nancy iniciou uma parceria com dois sujeitos muito talentosos: Lee Hazlewood e o arranjador Billy Strange (1930-2012). Strange era um grande músico e membro da trupe conhecida por “Wrecking Crew”, um grupo de instrumentistas de estúdio de Los Angeles que gravou boa parte do pop americano dos anos 1960 e 1970, incluindo hits de Beach Boys, Frank Sinatra, Johnny Rivers, Simon & Garfunkel e centenas de outros.
Os discos que Nancy gravou entre 1965 e 1976, período compreendido na coletânea da Light in the Attic, foram quase todos gravados pelos músicos da Wrecking Crew (a famosa linha de baixo que marca “These Boots Are Made for Walkin’” foi gravada por Chuck Berghofer, um craque que tocou com Ray Charles e Ella Fitzgerald e continua ativo, aos 84 anos).
A qualidade das composições e arranjos é extraordinária. É pop adulto, sexy e cheio de drama e perigo, feito por profissionais do mais alto gabarito. E a sonoridade dos discos de Nancy e Lee inspirou muita gente. É impossível ouvir as baladas de piano de Nick Cave ou o goth-country de bandas como Calexico e Handsome Family (ouçam “Far From Any Road”, a música-tema da abertura da primeira temporada da série “True Detective”) e não sentir a influência dos duetos de Nancy Sinatra e Lee Hazlewood.
21 comentários em "Está na hora de redescobrir Nancy Sinatra"
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Confesso que da Nancy só conhecia o dueto Something Stupid com o pai
Falando da Nancy e lembrando do pai, o podcast “You Must Remember This” tem um episódio muito bom sobre o disco “Trilogy: Past, Present and Future” do pai, história interessante demais.
http://www.youmustrememberthispodcast.com/episodes/youmustrememberthispodcastblog/you-must-remember-this-episode-2-frank-sinatra-in
Que dica legal, não conhecia. Muito obrigado.
Nossa André, você não imagina como seu blog caiu como uma luva pra mim, brother. No meio desse caos social todo que vivemos, anseava enormemente pra encontrar algo que me tirasse dele, mesmo que por alguns momentos. Mas, na boa, sinto-me envergonhado, muitas vezes, de ver seu profundo conhecimento cultural. E de outros colegas aqui…pra quem veio do interior de SP, vcs são muito feras! Enfim, estou lendo, ouvindo tudo que vc posta aqui…queria ter mais tempo pra curtir tudo…mas enfim, o trabalho, e as filhas e família tomam muito desse tempo. Mesmo assim, estou me tornando uma pessoa melhor participando do blog…crescendo em assimilar cultura! Obrigado, brother!
Cara, não tem do que se envergonhar, imagine, todo mundo tá no mesmo barco. Eu aproveito muito as dicas dos leitores também. Abraço!
A Nancy Sinatra e o Frank Jr. foram dois excelentes artistas que não foram reconhecidos o tanto quanto mereciam por serem filhos do grande Frank Sinatra. O Frank Jr. foi o grande responsável pela sobrevida da carreira do pai entre 1988 e 1994, quando largou a própria carreira para acompanhar o pai muito doente como maestro da orquestra, agindo quase como uma muleta a guiar o velho Frank que não queria se aposentar, mas se apresentava com grandes dificuldades ( como mostram os vídeos gravados desse período).
Junior merece um texto!
Nancy Sinatra era um produto da era de ouro da música pop, época em q a música tinha importância maior do que tem hoje. E como é quase atemporal por causa do esmero da produção, sua música causa impacto nos jovens acostumados aos efêmeros truques de estúdio que num piscar de olhos viram clichês. Embora ela tenha agora 81 anos, uma idade que eu lembro do pai dela ter, a música dela tá encapsulada no tempo suspenso.
Verdade, a música soa muito diferente, mais orgânica que a de hoje.
o Lee gravou um discão com a Ann-Margret também! The Cowboy & The Lady.
Que engraçado.
Já deletei o engraçadinho
Legal demais, esses dias o Anton Newcombe do BJM, postou no Twitter um link para um disco do Lee Hazlewood com a Ann Margret, que é sensacional, parece coisa do Sonic Youth! https://youtu.be/-sBOLuQNMdU
Sigo o Newcombe, gosto muito das dicas dele.
Valeu a dica, que loucura esse som
O Primal Scream fez uma cover muito legal de “Some Velvet Morning”. É muito diferente da original.
Fato. Bobby Gillespie é fãzaço desses discos.
Eu acho muito legal quando vemos filhos de famosos fazendo um trabalho distinto mas ao mesmo tempo de extrema qualidade, talvez a Nancy seja o maior exemplo disso, eu mostrei pra minha mulher a “Some Velvet Morning” e ela ficou arrepiada com aquele misto de voz de trovão e doçura, e aquele final da música? não se mais nada assim em termos de produção.
OFF: Por falar em filhos de famosos, que tal o Baxter Dury? filho do Ian Dury da uma conferida Barça porque eu garanto que você só vai ouvir isso essa semana, me cobre! https://www.youtube.com/watch?v=x_x9tB2Qsyk
O The Night Chancers, acho que é o disco mais recente do Baxter, é bem legal
Um tema Off-topic, tem um documentário no Netflix da Dolly Parton, Here I am. Se viu, é recomendado?
Pô, não vi ainda, mas vejo essa semana sem falta e escrevo, valeu pela dica.